Título: O tribunal da quinta-feira
Autor: @michellaub (Brasil)
Editora: @companhiadasletras
Publicado: 2016
Páginas: 184
Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️
___________________________________________
Embora necessária, a modernidade traz também algumas situações negativas outrora impossíveis. As redes sociais, por exemplo, cuja quase instantaneidade em veicular notícias e fatos, além de boatos e fake news, pode facilmente colocar qualquer ser humano em maus lençóis.
Esse é um dos temas abordados nesse excelente livro do gaúcho Michel Laub, O tribunal da quinta-feira. A história gira em torno da vida de João Victor, o narrador, um publicitário de 43 anos que vê sua carreira ser destruída devido ao vazamento de mensagens suas de cunho trocista trocadas com um amigo, as quais são postas na internet por sua ex-mulher, Teca. Imediatamente é gerada em torno desse vazamento, uma torrente de opiniões e agressões que o personagem principal, a quem se atribui numa espécie de tribunal moral e ético, vai ter de se defender. Suas justificativas tentam mostrar que aquelas mensagens não passavam de piadas, cujo humor, embora aparentemente agressivo, assim deviam ser visto.
O que há de excelente no romance são a atualidade dos temas ali contidos, são a multiplicidade de linguagens presentes (internet, publicidade), a forma de lidar com o culpado e o sentimento de culpa, o que nos coloca diante de um grande romance.
João Victor está diante da corte e tem de se defender. Sua auto-defesa é um retrato do caos imanente que permeia idéias, pensamentos e emoções, descritas nas entrelinhas por ele próprio. Seja no dilema de ter de conviver com a intolerância virtual a que de uma hora para outra é submetido (a história abarca apenas quatro dias, mas o autor nos leva por várias décadas atrás num jogo de vai e vem temporal) numa espécie de tribunal rotativo onde enquanto réu vê sua vida e carreira expostos e esfrangalhados; seja na difícil decisão de abandonar a carreira devido aos escândalos gerados por estas mensagens, muitas delas de cunho misógino, muitas delas versando sobre seu tórrido romance com uma estagiária da empresa onde trabalha, vinte anos mais jovem, Dani; seja na forma como expõe o caso de um amigo, Walter, que contraira AIDS ainda nos anos 80; seja em descobrir, nos dias atuais, que talvez ele mesmo seja portador do vírus e pior, de ter contaminado Dani, o livro vai causando certo incômodo por por o dedo na ferida, por abordar dilemas a que João Victor vai expondo em sua justificativa: uma vez soropositivo, uma vez descobrindo que pode sobreviver à má reação das feministas que o denigrem selvagemente na internet, como enfrentar o momento em que terá de expor sua situação a Dani? Como ela receberá a notícia de que pode estar com AIDS? Ela “passará a mão pela cabeça do narrador novamente? João Victor está diante de um novo tribunal…
Deixe um comentário