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Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Leitura 21/2021

Encaixotando minha biblioteca: uma elegia e dez digressões [2018]

Orig. Packing My Library: An Elegy and Ten Digressions

Alberto Manguel (Argentina, 1948-)

Companhia das Letras, 2021, 184p

Trad. Jorio Dauster

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“O esvaziamento de uma biblioteca, embora doloroso, e o encaixotamento de livros, embora injusto, não precisam ser vistos como conclusão. Há novas ordens possíveis de sombras, secretas mas implícitas, só visíveis depois que as velhas são desmontadas” (Posição Kindle 1457/90% do ebook).

De Alberto Manguel eu havia lido o excelente “Os livros e os dias”, de 2005, uma espécie de diário de leituras em que o autor vai brindando o leitor com suas impressões por alguns livros relidos e, pela relevante relação em sua vida, bastante caros para ele.

Manguel tem em sua escrita uma característica: a de entrelaçar de forma caótica, sem um rigor aparente, memórias, lembranças e fatos, que vão se misturando ao ato de ler determinado texto e criando uma rede voluptuosa de referências do mundo literário. Talvez, por isso, assim que topei com “Encaixotando minha biblioteca” eu tenha logo buscado lê-lo. Gosto de ler livros que falam de livros, de livros que, ao falar de livros, traçam relações para outras obras do mundo literários, a fatos sobre autores e bibliotecas hodiernas e passadas. Você como que sai da leitura com uma renovada – e exasperante – nova lista para futuras leituras; são renovados velhos planos com autores que muitas vezes não conhecemos ou conhecemos e não os damos a devida importância.

Nos livros de Manguel você encontra a vida de um leitor apaixonado, por vezes ludita, mas sempre aberto ao infindável mar de capas e páginas e não tem como não se embevecer com suas digressões literárias. A biblioteca encaixada, contendo os 35 mil volumes por anos acumulado num cantinho da França, levou o autor a se debruçar sobre autores, sobre bibliotecas ora perdidas, ora esquecidas, ora renovadas e, principalmente, a abordar o papel de reconstrução da empatia entre humanos, maculada pelo atual modo de viver cada vez mais conectado e menos presente, mas que possibilitada pelo empenho mútuo que há em juntar, guardar e cuidar de livros.

Se você anda cansado dos livros que lê, se tem enfrentado uma ressaca literária mais aguda que aquele que topamos com um livros que nos exigiu mais, se perdeu interesse na listinha de “a ler” que mantém, leia Manguel, qualquer um dele ou algum livro que fale sobre o prazer que livros nos dão, esses salvadores nas horas improváveis. Vale!

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Leitura 20/2021

O amigo [2018]

Orig. The friend

Sigrid Nunez (EUA, 1951-)

Instante, 2019, 216p

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“Agora, observando-o dormir, sinto uma onda de satisfação. Em seguida, outro sentimento mais profundo, singular e misterioso, mas ao mesmo tempo perfeitamente familiar. Não sei por que levo um minuto inteiro para nomeá-lo. O que somos, Apolo e eu, senão duas solidões que se protegem, se complementam, se limitam e se inclinam uma para a outra?” (Posição Kindle 1665/68%).

“O Amigo” é a narrativa de uma escritora de meia-idade que aborda o luto após a perda do melhor amigo, também escritor e um pouco mais velho do que ela, que se matou. A amizade entre os dois começou em uma de suas oficinas literárias, engatada por discussões intelectuais vindo a culminar num companheirismo que durou a vida toda. Desolada com o suicídio do amigo – ele não deixou nenhum bilhete de despedida –, a narradora, da qual não sabemos o nome, relembra conversas, episódios e leituras não só para tentar entender o que pode ter acontecido, mas também para manter a sua memória viva.

Ela acaba, de certa forma, sendo “presenteada” no espólio de seu amigo morto por Apolo, um dogue alemão de quase 80kg (quem conhece essa raça sabe como esses pets são grandes e pesados) já um tanto velho e cansado. Ela fica desesperada porque o prédio onde mora não permite animais, mas, negar-se a ficar com Apolo seria como apagar definitivamente a presença do amigo morto…

Confesso que o que me fez ler este livro foi a capa, a cujo cachorro enorme sobre um sofá detonado, cenário bem conhecido por mim que tenho dois pets em casa, me fez querer saber em que viés a autora apresentaria sua história. Apesar de a temática ser pesada, crua, não descamba para o sentimentalismo. A autora consegue manter o equilíbrio entre tratar sobre a dor da perda, sobre os motivos que levam uma pessoa a ceifar a própria vida e sobre a ligação inexplicável que une humanos (nem todos, infelizmente) a cachorros.

A tocante amizade que por fim se criou entre ela e Apolo, em seus últimos dias de vida margeiam uma boa parcela do romance e, acredito eu, a autora consegue transbordar em palavras, toda a gama de sentimentos que acabam por ser construídos quando uma pessoa decide incluir em sua vida a vida de um cachorro. Apolo, de alguma maneira, sabe que seu fim está próximo. Mas ele não se esquiva de cuidar e dar atenção à humana triste que aceitou dividir os dias consigo. Palavras como as conhecemos, perdem o sentido quando se trata de “falar” com o amigo canino. E é justamente essa maravilhosa interação, sobre-humana, o cerne trazido por este romance belo e triste, mas que busca ressignificar a ausência e o silêncio, entes que deixam de ser pelo simples fato de não necessitarem de palavras audíveis para personificar quem se quer por perto. Vale!

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Leitura 19/2021

Serei sempre o teu abrigo [2020]

Valter Hugo Mãe (Protugal, 1971-)

Biblioteca Azul, 2021, 48p

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“As pessoas abrigam-se umas nas outras. Mesmo ausentes, nossos abrigos existem. Estamos debaixo da memória” (Posição Kindle 52).

Valter Hugo Mãe, o prolífico escritor português, me ganhou no único livro que dele li, a saber, “O filho de mil homens”. A prosa multiforme e musical que narra a (des)ventura do Crisóstomo e seu desejo de ser pai foi uma coisa que me marcou deveras, tamanha a força poética das palavras de VHM que — sem vergonha — confesso ter deitado de meus olhos muitas lágrimas!

É claro que já possuo outras cousas dele para ler e farei isso tão logo vá dando andamento aos vários livros que tenho parado na estante….

Então pego essa pequena preciosidade chamada “Serei sempre o teu abrigo”, um pequeno conto de um neto que se perde em poetizar a existência de seus avós. Um olhar ainda pueril, mas capaz de abarcar toda a beleza e as nuances da relação afetiva dos avós que, cada um à sua maneira, dispunha sua forma de amar. VHM é feliz quando consegue transformar as palavras, transcender seus significados, dar uma cor diferenciada a objetos, a emoções, a sutilezas que só um olhar apaixonado é capaz de assim nomear. E tudo isso numa singeleza que não tem como deixar de comover um coração “pouco adornado” pelo amor, no dizer do próprio autor.

Eu não saberia dizer se há algum livro deste escritor magistral que seja ruim, pois é pouco o que dele li, mas esse pouco, de uma cadência emocional absurdamente bela e comovente, é, por si só, combustível suficiente para desejar se embrenhar sem dó em suas palavras. Se vale!

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Leitura 18/2021

Comum de dois [2014]

Noemi Jaffe (BRA, 1962-)

e-Galáxia, 2014, 78p

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“(…) é meio inevitável que, com o tempo, sejam justamente essas as coisas que vão afastando uma pessoa da outra e, ao mesmo tempo, prendendo uma na outra.

— mas afastando por quê? não tô entendendo…

— ah, porque as pessoas vão ficando mais ligadas nas coisas do que no parceiro. mais ligadas em manter as coisas, entende? e isso vai dando raiva do companheiro ou companheira, sei lá, porque parece que é a pessoa que nos prende a essas coisas. é tipo uma prisão que a gente constrói pra gente mesmo. não é um paradoxo?

— nossa, amor, que horrível isso que cê tá falando. é de um pessimismo atroz. uma visão muito fechada e maniqueísta do amor. não precisa ser nem exclusivamente assim.

— então, como? qual é a saída? não ter família nem casa nem dinheiro?

— não, claro que não, amor. isso ainda é maniqueísta. a saída é, todos os dias, tentar não cair nessa emboscada que o mundo arma pra gente.

— mas não dá. cê vai caindo, mesmo sem querer.

— mas isso não é culpa do amor, entende? é culpa da forma como a gente conduz nossa vida e acaba chamando isso de amor, mas não é!

— então o que que é o amor? não acaba sempre virando isso? um relacionamento fraterno adaptado às necessidades?”

Os 60 mini textos que compõem “Comum de dois”, da escritora brasileira Noemi Jaffe, são um primor da fina ironia. Eles buscam captar em ágeis instantes partículas de diálogos entre um casal (não sabemos quem está falando, somente é possível intuir), onde são abordados temas não só casuísticos como questões profundamente existenciais, principalmente no que se refere à reafirmação do amor e o comprometimento com a relação.

Até então eu nada sabia da autora, mas na habitual busca por algo para ler na cama, antes de dormir, me deparei com o ebookezinho na biblioteca do kindle e me pus a ler os textos ágeis que vocês passa rapidamente de uma sentada, ou deitado, como foi meu caso.

Em muitas passagens, o leitor certamente se identificará, enxergando muitos dos dilemas que os casais enfrentam e que são tema de reiteradas conversas. Logo, a relevância do livro está em a autora conseguir falar muito em tão poucas e breves passagens, mostrando que a arte de viver e conviver é um exercício diário de paciência, compreensão e, sobretudo, de riso. Sim, rir, pelo que se pode absorver de “Comum de dois”, é, ainda, um ótimo remédio! Vale!

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Leitura 17/2021

Risíveis amores [1969]

Orig. Směšné lásky

Milan Kundera (Rep. Tcheca, 1929-)

Cia das Letras, 2012, 264p

Trad. Teresa Bulhões C. Fonseca

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“Atravessamos o presente de olhos vendados, mal podemos pressentir ou adivinhar aquilo que estamos vivendo. Só mais tarde, quando a venda é retirada e examinamos o passado, percebemos o que foi vivido, compreendendo o sentido do que se passou” (Posição Kindle 350/12%).

“É sempre o que acontece na vida: imaginamos representar um papel numa determinada peça e não percebemos que os cenários foram discretamente mudados, de modo que, sem saber, devemos atuar num outro espetáculo” (Posição Kindle 2761/93%).

Na pequena coletânea de contos “Risíveis amores”, o escritor tcheco Milan Kundera aborda situações inusitadas e até ridículas relacionadas à arte do amor. São, em conjunto, como uma espécie de estudo de costumes, análise das relações pessoais e amorosas principalmente, que detalham os mecanismos que levam amantes e amados a assumirem papéis e comportamentos baseados na conveniência da ocasião e no interesse escondido sob grossas camadas de boas intenções.

Como o próprio título sugere, alguns dos sete contos que formam o volume não só fazem o leitor cair no riso como também levam à percepção de como são ridículos — e até odiosas, às vezes — as motivações que movem os personagens de Kundera: homens e mulheres acostumados a ludibriar para convencer, a encarar personalidades díspares para “venderem seu peixe” e, enfim, consolidarem os almejados intentos.

Isso porque, não é propriamente o amor o que se busca, nas histórias; há uma maior preocupação em dominar, em chantagear, em enlaçar o outro em amarras emocionais que beiram a insanidade cega ou ao bullying exacerbado (intensifiquei este comportamento de propósito, já que é odioso sua mera prática).

Se em “A insustentável leveza do ser”, obra mais lida e conhecida de Kundera, que sempre que posso, releio, se trata de um romance complexo, recheado de aforismos filosóficos, em “Risíveis amores” impressiona pela linguagem simples, direta, dinâmica e sem qualquer rebuscamento. Como que o autor quisesse desembaraçar os já complexos meandros da relação amorosa e expô-la ao olhar do leitor, sem enfeites nem camadas coloridas, convidando-o a contemplar a vileza disfarçada de amor e refletir sobre “os desejos e intenções do coração”.

O resultado não poderia ser mais satisfatório! O leitor tem em mãos um verdadeiro manual do amor risível, aquele movido por sentimentos equivocados, egoístas, vis e contraditórios. É um primor da literatura, aliás, Kundera é inequivocamente um autor essencial! Vale!

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Leitura 16/2021

A cachorra [2017]

Orig. La perra

Pilar Quintana (Colombia, 1972-)

Intrínseca, 2020, 160p

Trad. Lívia Deorsola

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“Aquela tinha sido sua cachorra: Damaris a tinha resgatado, carregado em seu sutiã, ensinou-a a comer, a fazer as necessidades nos lugares adequados e a se comportar como devia até que ficou adulta e não precisou mais dela. Damaris a seguiu por todo o jardim até a escadaria e a viu descer por ali, cruzar a angra, que estava seca, alcançar o outro lado, se sacudir, seguir seu caminho entre garotos que voltavam da escola e se perder no povoado, já sem olhar mais para trás. Damaris não chorou, mas quase” (Posição Kindle 873/79%).

Em “A cachorra”, a escritora colombiana Pilar Quintana conta o drama existencial de Damaris, uma mulher que teve de se acostumar com tragédias. Sua vida é entremeada pela rotina dura de doméstica da casa de veraneio de uma família rica e pela culpa nunca vencida por uma tragédia que crê ter tido parte. A morte de Nicolasito, um menino amigo seu de infância, é parcialmente arrefecido pela rotina de limpar e arrumar a que se submete. É uma forma de também lidar com a frustração de não ter conseguido ter o filho que sempre sonhou e, por isso, resolveu repentinamente adotar uma cachorra da ninhada de uma vizinha sua.

Damaris acredita que adotar a cachorra poderá ajudá-la a dissipar um pouco de seus dramas mas, pelo contrário, a fêmea que aparentemente invade e toma todos os vãos do casebre que divide com seu companheiro Rogelio, parece ser estopim para aflorar sentimentos e comportamentos que inevitavelmente levam o leitor a pensar na maternidade. Como que “Chirli”, a cachorra, servisse para aprofundar perdas e ganhos na vida de Damaris. E é nessa ambivalência que a personagem se vê enredada, transitando entre a alegria da presença da cachorra no seu dia a dia e uma espécie de sentimento de afronta quando a cachorra aparece um dia prenhe, fazendo com que sua dona nutra certa inveja por possuir um “ventre seco”, impossibilitando ela própria de ter filhos.

Nas breves 160 páginas que compõem este romance, vemos muito mais que uma mulher comum que aceita a tarefa de criar uma cachorra. Como que a autora buscasse brincar com a dualidade de emoções, da beleza e violência latente nessa relação entre dona e animal (ou será animal e animal?), na própria atitude de Damaris ao contemplar o ventre generoso da cachorra ao parir a farta ninhada rebentos, coisa que ela nunca teria. Até mesmo o título do livro (La Perra, em espanhol) faz-nos pensar na própria essência de Damaris, uma mulher que acredita ser mal falada pelos na pequena aldeia onde vive pelo fato de não poder ter tido filhos, e que busca em curandeiros locais beberagens capazes de devolver-lhe a fertilidade. Um pequeno microcosmo que tanto fala sem quase nada dizer, um ótimo “regalo”, que dá o que pensar. Vale

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Leitura 15/2021

Por que ser feliz quando se pode ser normal? [2011]

Orig. Why Be Happy When You Could Be Normal?

Jeanette Winterson (Inglaterra, 1959-)

Record, 2014, 256p

Trad. José Gradel

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“Tempos felizes são ótimos, mas tempos felizes passam — têm de passar —, porque o tempo passa. A busca da felicidade é ilusória; dura a vida toda e não está centrada em um objetivo. O que você está buscando é sentido — uma vida que tenha sentido” (Posição Kindle 359/12%).

No livro, a escritora britânica Jeanette Winterson revela as suas memórias mais antigas, cuja infância precária foi profundamente marcada por sua adoção por um casal desajustado e cuja mãe adotiva era extremamente religiosa e autoritária.

A infância e adolescência de Jeanette, comum a tantas crianças relegadas a pais adotivos, não foi marcada por tantas lembranças boas. Antes, foi um período muito complexo e, de alguma forma, traumático para a futura escritora de prestígio que ela se tornaria.

Refém de “Mrs. Winterson”, a mãe adotiva inflexível, excêntrica e por vezes abusiva, Jeanette teve de enfrentar os dramas do autoconhecimento, da descoberta da sua homossexualidade ainda na tenra idade, do preconceito vindo sobretudo da própria mãe adotiva, que chegou a organizar uma sessão de exorcismo por achar que Jeanette estava possuída por demônios, e a decisão — difícil para uma adolescente de 16 anos — de sair de casa e buscar sentido para a sua vida conturbada. Nessa caminhada, ela encontrou amores, alguns fugidios, a salvação pela literatura, que desde cedo aprendeu a amar e cultivar, mas, sobretudo, a resposta para sua eterna dúvida: a de porquê foi rejeitada por sua mãe verdadeira.

Eu realmente fiquei impressionado pela coragem, força poética e desprendimento da autora que tão belamente se expôs nestas páginas repletas de palavras potentes, marcantes e verdadeiras. Não é fácil, nunca foi na verdade, estar defronte nossos fantasmas, olhar nos olhos, enfrentá-los e fazer as pazes com o passado. Jeanette acredita que não tenha conseguido tal intento, mas sua decisão de voltar ao começo de tudo, ao berço original de sua existência, pode ser a chave para o grande mistério que é a resposta para a pergunta que nomeia o livro e que foi cunhada por Mrs. Winterson à filha que queria viver o amor de forma livre. Fantástica, essa Jeanette!

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Leitura 14/2021 – #lista1001✅

Bartleby e companhia [2000]

Orig. Bartleby y compañia

Enrique Vila-Matas (Espanha, 1948-)

Cia das Letras, 2021, 184p.

Trad. Josely Vianna Baptista e Maria Carolina de Araújo

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“Tudo já foi dito — sobre o que era importante e simples de dizer — nos milênios em que os homens passaram pensando e se esforçando. Já foi dito tudo sobre o que era profundo em relação à elevação do ponto de vista, isto é, abrangente e extenso ao mesmo tempo. Hoje em dia, só nos cabe repetir. Só restam alguns poucos detalhes ínfimos ainda inexplorados. Ao homem atual só resta a tarefa mais ingrata e menos brilhante, a de preencher os vazios com uma algaravia de detalhes” (Posição Kindle 1842/79%).

De Enrique Vila-Matas eu já li “A viagem vertical”, romance que conta a saga do septuagenário Federico Mayol e sua derrocada ao mundo da insignificância. A narrativa é intensa, pois trata das memórias do personagem e seus eternos ecos no agora.

Já quem leu a novela de Herman Melville, o autor de Moby Dick, deve se lembrar que “Bartleby, o escriturário” é um texto que aborda o incomensurável e a excentricidade exacerbada na pessoa do funcionário que se nega a fazer tudo que lhe pedem, e que vai se isolando cada vez mais, até sequer sair mais do escritório onde trabalha.

Vila-Matas cria em “Bartleby e Companhia” uma curiosa lista de escritores que sofrem mais ou menos do mesmo mal que o personagem de Melville: a de escritores que, por algum motivo, se negaram a produzir literatura, abandonando de vez o ofício de escritor. Nas 85 “notas sem texto”, como gosta de se referir o narrador Marcelo a seus mini-textos, vamos percorrendo uma miríade de escritores que após terem produzido dois ou três romances, ou mesmo alguns que sequer chegaram a publicar algo, disseram adeus à arte de escrever, se tornaram escritores do NÃO escrever, por julgarem improvável e descartável tal faina.

Nessa lista, ou melhor, notas, alguns autores são bastante conhecidos e consagrados, como o próprio Melville, lista ainda abrilhantada por Robert Walser, J. D. Salinger, Franz Kafka e Nathaniel Hawthorne, e mais uma boa quantidade de escritores menos conhecidos que, sinceramente, não sei dizer se são reais ou invenção do autor catalão.

Mas o que ficou latente nesta leitura, que gostei bastante, foram os comentários de Marcelo que discorrem sobre os vários motivos que fizeram tantos renomados romancistas optarem pelo esquecimento inveterado, por uma forma de isolamento consentida, motivos que nosso narrador busca entranhar em suas anotações, muitas delas tão curtas que até parecem ser inverossímeis, mas é interessante (e bem divertida) a criatividade de como Vila-Matas operou no livro, ligando o comportamento antissocial e nada convencional de Bartleby a escritores que, muitos já no auge da fama, chegaram à conclusão que o mundo seria bem mais saudável sem tantas páginas publicadas, sem tantas repetições inúteis e descartáveis. Se vale!!!

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Leitura 13/2021 – #lista1001✅

O Castelo [publicado postumamente em 1926]

Orig. Das Schloss

Franz Kafka (Rep. Tcheca, 1883-1924)

Cia das Letras, 2009, 368p.

Trad. Modesto Carone

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“Mas o que é o senhor, que nos solicita aqui com tanta humildade permissão para se casar? O senhor não é do castelo, o senhor não é da aldeia, o senhor não é nada. Infelizmente porém o senhor é alguma coisa, ou seja, um estranho, alguém que está sobrando e fica no meio do caminho, alguém que sempre causa aborrecimento” (Posição Kindle 978).

A narrativa de “O Castelo”, último livro escrito – e incompleto – pelo escritor tcheco Franz, se resume à chegada do agrimensor “K” a uma aldeia fictícia que envolve um castelo. Logo de cara, o leitor percebe que o estranho não é bem quisto, atitude que ganha ainda mais envergadura quando o agrimensor externa sua intenção de falar pessoalmente com o senhor do Castelo, Klamm.

É a partir daí que o absurdo toma conta da narrativa, que vai sendo desenvolvida com uma estranha mistura de suspense em crescendo, enigmas nunca desvendados e a hostilidade exacerbada pelos moradores locais que de tudo fazem para impedir que “K” acesse o Castelo. Eles não se cansam de lembrar-lhe que sua estada ali não é bem-vinda e que tal atitude inflexível é motivo para desconfortos vários tanto para as classes mais baixas quanto entre os altos funcionários do feudo.

Sim, Kafka consegue misturar a este caldeirão de perenes inquietudes uma estrutura burocrática sem igual, beirando à insanidade e o real, quando é quase possível acreditar que os personagens do romance estão, na verdade, encenando uma peça teatral repleta de matizes indigestos. É nesse sistema hermético que nosso protagonista tem de se imiscuir e onde busca meios de pedir a tal autorização para exercer sua profissão como agrimensor que, ainda seria dificultada pela neve que constantemente cai na aldeia. Mas “K” é intransigente, não percebe que o sistema está justamente ali para lhe dificultar os intentos; ele como um herói solitário que ousa enfrentar o sistema, encontra tantas adversidades, tantos obstáculos, sua teimosia o leva a viver vários dissabores, seja nas tavernas onde busca algum refúgio do frio insolente que castiga o povoado, seja no estranho amor de Frieda, uma ex-amante de Klamm, em quem “K” vê uma possibilidade de saber mais sobre o enigmático e recluso fidalgo.

Faz um bom par de anos desde que li “A metamorfose”, o estranhíssimo relato da transformação de Gregor Sansa numa barata gigante. Recordo que saí do romance confuso e assustado, tamanho o grau de impossibilidade criado pelo escritor. Não foi diferente agora, quando termino este romance nada convencional: mesmo durante os longos diálogos entre “K” e alguns interlocutores como Olga e Frieda, que confesso terem sido maçantes e cansativos, “O Castelo” é sim um livro interessante, que faz jus à série A da literatura contemporânea tamanha sua importância. É uma pena que o autor tenha morrido sem completar o livro, o que o torna ainda mais enigmático e, por isso mesmo, tão marcante.

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Leitura 12/2021

Sem sangue [2002]

Orig. Senza sangue

Alessandro Baricco (Itália, 1958-)

Alfaguara, 2008, 80p

Trad. Rosa Freire d’Aguiar

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“(…) por mais incompreensível que seja a vida, provavelmente nós a cruzamos com o único desejo de retornar ao inferno que nos gerou, e de viver ali, ao lado de quem, uma vez, nos salvou daquele inferno” (pág. 79).

Pego para ler mais um livro do escritor italiano Alessandro Baricco. O quinto romance dele que leio. Entre os anteriores estão “Seda”, “Mr. Gwyn”, “Três vezes ao amanhecer” e a “A noiva jovem”, todos belos, lúgubres e fascinantes.

Em “Sem sangue”, o que o leitor irá encontrar é uma atmosfera de suspense em crescendo, um thriller psicológico envolto em tragédia e vingança, entre perda e redenção. A história, curta – e que se lê de uma sentada, é mais uma trama contendo o habitual estilo de Baricco em descrever um abrupto corte temporal logo no início do livro e ir revelando aos poucos o motivo que deu origem à novela. Suas frases são curtas, mas poderosas, filosoficamente profusas, repletas de uma carga emocional, que vão descrevendo sob uma espécie de névoa os acontecimentos – quase sempre trágicos – que permeia em seus livros.

A história sendo curta, inevitavelmente levaria a revelações desnecessárias, mas o mote trata de uma jovem senhora que, após perder sua infância devido a uma barbárie em nome da guerra, busca, já no alto de sua quase velhice, cobrar o alto legado de sua desgraça. Mais não conto, pois seria injusto estragar tão belo enredo; daí a importância de exaltar a capacidade de Baricco de operar uma historieta que pega o leitor pelo pé, assombrado com tamanha engenhosidade nos seus desfechos. “Sem sangue” pode parecer desprestigiado mas, à medida em que avança-se pelas páginas, várias cortinas são descerradas e o que vemos é uma prosa inegavelmente bela, inesquecivelmente marcante. Saio dessa leitura uma vez mais embevecido com esse escritor dos diabos que é Alessandro Baricco. Vale!

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charlles campos

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