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Nada mais

    Sinto o ar mais pesado, carregado de ilusões. Uma noite em si. Uma garrafa de vinho. Uma música     escolhida na playlist do iPod. Como esquecer uma noite como aquela? Ali sentia a escuridão me envolver num abraço de saudade, onde percebia o meu verdadeiro anseio: o de ter nos teus braços rebeldes um pouco de compreensão por ter buscado noutros o que só em ti encontro.

Hã? Qual a graça? Não vês que encontrei prazer numa canção estranha? Não te importas o fato que meu coração permitiu a lembrança de mais alguém? Eu… eu bem que desconfiei. A sucessão de meus erros foram um duro golpe. Já não posso mais cuidar do teu vazio, causado pelas tantas mentiras que te disse.

Então, nada nos resta. A mim, apenas a vida daqui para a frente, feia, insossa, sem qualquer poesia; nada de suas falas improvisadas. Sei que você não escolheu o canalha que acabei me tornando. Então, nada nos resta; nada mais.

Amor e tragédia

"Tragédia não é o amor acabar, é sequer insistir no começo dele." Carpinejar

A MANHÃ MAIS FRIA e orvalhada da chuva noturna combinava exatamente com o que sentia: paz. Ao despertar não fez como de costume, levantando num assomo, como se estivesse permanentemente atrasado. Ao invés, ficou deitado um bom tempo ainda, admirando o corpo dela, sob um lençol suavemente embalado por sua respiração tranquila e segura.

Uma onda de carinho tomou seu olhar, fê-lo estender a mão e tocá-la, num gesto e intenção que não se lembrava de ter feito há muito tempo. Seu desejo era poder ficar ali, deitado ao lado daquela mulher que tanto amava e que tão pouco sabia dizê-lo. Quanto a decepcionara? Ao pensar nisso uma sombra passou por seu olhos, relembrando as conversas monológicas dos últimos dias; palavras que feriam mais que tapas e socos…

Quem podia imaginar que quase desistiu, que queria mandar tudo às favas e sumir como um louco vagando sem rumo certo? Mas não é assim o amor? Misto de tragédia e redenção?

Vendo-a dormir tranquila daquele jeito nem parecia a mulher amarga de dias atrás. Que utilizava dos seus hábitos sociopatas para feri-lo, diminuir-lhe o prazer pelo silêncio e ócio que cultivava religiosamente nos dias que se seguiam. Mas agora era diferente. Apurou a audição e escutou o leve ressonar de sua respiração; aquela não era a melhor sinfonia que se podia ouvir, a música de uma mulher feliz?

Consultou o relógio. Logo teria de sair para trabalhar. Pé ante pé, foi para o banheiro, onde tomou um banho rápido e fez a barba, aproveitando o vapor da água quente e revigorante. Vestido, aproximou-se da cama, fitando-a por alguns instantes. Deu-lhe um beijo no seu rosto, sussurrando “eu te amo”. Quase pode perceber uma ponta de sorriso do lábio adormecido dela.

“Tudo agora vai ser diferente”, ele pensa sentindo o coração palpitar ante a redescoberta do amor da sua vida.

Saiu, despedindo-se mentalmente dela.

E nunca mais voltou para casa.

 

*   *   *

 

Duas horas depois, o noticiário mostrava um homem caído no chão de um posto de gasolina, depois de levar dois tiros no peito desferidos por dois homens numa moto, quando tentaram assaltá-lo no momento em que abastecia o carro. Um dos circunstantes o ouviu balbuciar as seguintes palavras, antes que desse o último suspiro: “Me perdoe, Amor, eu…eu sinto muito”.

Menos inteligentes?

CONFESSO: ainda não liA geração superficial – O que a Internet está fazendo com nossos cérebros”, o novo livro do escritor e ensaísta Nicholas Carr. Mas passei muito tempo refletindo sobre a teoria nada convencional dele, que trata de como a internet vem nos tornando mais burros, ou na sua própria definição os rasos, para expressar a ideia de que, com a velocidade da informação, apenar ficamos zapeando pela rede, sem jamais nos aprofundar em nada…

Fiquei absorto nessa ideia, pensando se eu mesmo não teria me tornado um “raso”. De pronto, comecei a rever meus hábitos cibernéticos. E me surpreendi ao perceber que estava praticamente viciado em redes sociais, principalmente no Facebook, uma ferramenta muito boa para interação com outras pessoas, ao contrário do quase-defunto Orkut. Com o fácil manejo e transporte do tablet que possuo, aliado ao acesso à internet em casa e no trabalho, várias vezes ao dia interrompia alguma atividade para checar minha página no Face. Às vezes, nem tinha nada de novo, mas ficava vagueando por postagens mais antigas, como se aquilo fosse aplacar essa sensação de “interatividade” que eu buscava.

Percebi ainda que gastava muito tempo saltando de site em site, ou “pulando de galho em galho” como diria Carr na sua teoria fatalista. De repente me vi passando rapidamente os olhos pelos cabeçalhos das notícias, e, quando me dava ao luxo de ler alguma coisa, já não conseguia reter muito da leitura que fazia, isso quando conseguia ter paciência de ler o texto até o final. Estaria Carr com razão? Meu cérebro teria sido corrompido pelo excesso infinito de informação? Teria eu me tornado mais…burro?

Para chegar a alguma certeza, decidi servir eu mesmo de cobaia numa pequena experiência, depois de me fazer a seguinte proposição, à qual acabei compartilhando no Facebook: “Fiquei pensando: será que consigo passar uma semana totalmente desplugado?”.

Os breves segundos que se passaram, depois de conferir meu post ali no Facebook, exposto aos meus contatos, foram para mim um estranho misto de perda aliado a uma sensação de “faltar algo”, que não consegui entender, muito menos explicar. Não pude deixar de suspirar ao pensar que aquela seria uma semana de cão, onde me absteria totalmente da internet, e que nem sequer checaria meu e-mail profissional. Era uma quarta-feira, e enfim, me lancei ao meu –  àquela altura –  indigesto experimento.

Exatamente uma semana depois, retorno ao intenso, interativo e colorido seio da web. Passeei um pouco nos costumeiros sites de notícias; vi quanta coisa foi dita, “curtida” e compartilhada no Facebook (acredito que minha ausência não foi muito sentida, ou pelo menos pouco notada…), gostei de reencontrar  os sempre ótimos posts do meu amigo remoto (adicionado ao meu Face!) Paulo Nogueira, autor do site “Diário do Centro do Mundo”. Baixei alguns ebooks de David Hume, que já estão adicionados na biblioteca do Galaxy Tab. Vida normal!

Mas, como diria meu mestre Paulo Nogueira.

Mas, não obstante tanta coisa para se fazer na rede, não pude deixar de notar que esse período desplugado me trouxe algumas lições. A primeira é que percebi que não estava lendo tanto como devia e gostaria (minha lista de livros – de papel e digitais – inacabados estava crescendo de forma lenta, mas constante). Então retomei algumas dessas leituras interrompidas e fiquei feliz de poder concluí-las nesses dias “vagarosos”. Por que vagarosos? É que, já que não estaria concentrado no ritmo frenético da internet, me pus a gastar todo meu tempo ocioso fruindo deliciosas páginas – ou deslizando o dedo na tela do tab, quando queria ler algum livro digital.

A segunda impressão é que notei como estava tenso, intelectualmente inquieto, quase não conseguindo relaxar, fruto da inútil tentativa de me manter permanentemente informado. Não foi muito fácil trocar toda essa agitação digital por tardes tranquilas, sentado nos fundos da casa, um livro na mão, que eu vencia vagarosamente, ao tempo que bebericava uma fumegante xícara de café…

E por último, a mais importante das lições: embora não irei deixar de gastar um tempo considerável navegando na web, não vou desconsiderar o tempo gasto com uma higiene mental mais profícua e natural. Lerei os livros que me esperam numa lista interminável, embora escolhidos por um critério mais rigoroso: os que me acrescentem mais sabedoria para lidar com a vida, a exemplo dos clássicos ensaios Sobre a brevidade da vida, e os Aforismos, ambos do pensador romano Sêneca, de onde cito uma passagem que pretendo guardar por toda a vida:

“Concentra-te, durante a tua curta vida, nas coisas essenciais, e vive em paz contigo próprio e com o mundo”.

Carr pode até provar que a internet é prejudicial ao cérebro humano. Mas, como tudo o que está à nossa disposição, se utilizada com equilíbrio, pode nos abrir possibilidades úteis e benéficas, como os tantos bons livros à disposição a quem quiser se embrenhar por páginas magistralmente bem escritas.

Descoberta

...mas uma decisão...

O poeta faz do verso perfeito a busca de toda sua vida;

assim também o artista pela palavra em forma de arte…

E então descubro que há muito descobri o verso perfeito;

e que minha arte não tem palavra,

mas apenas um TUDO em tão pouco,

um ENCONTRO num quase perder-se,

um EM estar-nos a cada instante,

no meu mudo falar que tanto diz: tanto ama VOCÊ!

 

 

*A Elânia Alves, alvo dessas imprecisas palavras…

tempos em que tudo era durável...

COMPREI, recentemente, uma TV nova. Bem fina, full HD, ausência de botões e uma infinidade de funções, muitas delas um verdadeiro desafio para tecnologicamente inábeis como eu.

Enquanto quebro a cabeça para entender como fazer o troço exibir as imagens, penso no velho “tubo” que tínhamos em casa, lá na Floriano do final dos anos 80. Era uma TV da marca alemã Telefunken (creio que esta marca deixou de produzir Tv’s, ou até mesmo deixou de existir!), bem ao estilo: caixa de madeira, três pequenos botões e o grande seletor na frente do lado direito. Me lembro particularmente de um botãozinho que ficava atrás da Tv, que servia para “parar” a imagem, quando esta ficasse rodando com aquelas listras que atormentava todos justamente nos momentos decisivos dos programas que assistíamos.

Mesmo a imagem em preto e branco não tirava a magia que era assistir a TV. Crianças que éramos, não perdíamos por nada a programação infantil, naquela época bem mais interessante que a que as crianças hodiernas são obrigadas a suportar. Só para citar os quesitos qualidade e criatividade, o que se vê hoje na TV muito deixa a desejar quando penso na “Vila Cézamo”, nos “Mupetts”, na versão original do Sítio do Pica-pau amarelo e na programação da antiga Rede Manchete, onde vi a ascensão dos seriados japoneses, como Jaspion, Jiraia, entre tantos…

Foi ainda na nossa velha Telefunken que assisti a boas cenas de amor  nas novelas veiculadas – quando ainda as assistia. Para um jovem adolescente, era o ingrediente perfeita para minhas intermináveis digressões nas tardes que passava à beira do “cano”. Ficava absorto com as histórias novelescas, marcadas na minha lembrança pelas músicas que acompanhavam o desenrolar do folhetim. Dessa experiência cultivaria anos depois o hábito de dormir com um rádio de pilhas ao pé do ouvido, sintonizado numa emissora que tocava as músicas das antigas novelas que assistia. Foram muitas as noites, várias delas insones, onde, já deitado, sentia o peito arder de uma inexplicável saudade e exausta solidão, sob o som de músicas como a canção italiana Al dilá, de Emílio Pericolli. Nessas ocasiões, me deixava levar pela maré inexpugnável de lembranças, quando revia caminhos feitos por mim, nem sempre repletos de cor e vida, mas muitos deles embargados por uma cinzenta sensação de perda e vazio…

A TV recém comprada, que me chateia com tantos dispositivos, muitos dos quais nunca irei usar, me faz pensar em algo mais soturno, porém, verdadeiro: em como tudo hoje em dia é feito para não durar. Utensílios de uma casa, que antes duravam várias décadas, hoje não duram cinco anos; brinquedos que se levavam consigo por uma vida inteira, são facilmente quebrados. O que dizer sobre isso?  Que o preço do desenvolvimento traz consigo uma voraz consequência: as lembranças, assim como quem nada pode sentir, é tragado pelo ostracismo, um monstro intangível que tanto estrago faz para a memória…

O que dizer de tantas outras coisas, que acabaram sendo substituídas por outras mais novas e menos duráveis? Assim como a velha TV, que ficou para trás como um símbolo imortalizado de um tempo onde a vida corria mansa e os dias eram tranquilos, às vezes tenho a impressão que, ou fui eu que me tornei descartável ou o pior: sou um ser efêmero, uma figura de outros tempos deslocada no atual, destoando de um agora tão profundo como a superfície de um pirex.

O pai

um herói sem honra...

A SALA ESTAVA SILENCIOSA, repleta de sombras. Nela, apenas eu e o Pai, mudos como duas outras sombras que coexistem. Ele, examinando detidamente a perna recém operada; eu, observando cada gesto seu. Estávamos na mesma sala, sentados em poltronas, um defronte o outro. Porém, não havia diálogo, uma palavra sequer, nada. Talvez porque o modo como eu estava sentado – escarrapachado no pequeno sofá – era um sinal de que não estava para conversas, que queria mesmo era continuar mantendo aquela mudez intragável. Contudo, queria muito falar-lhe. Acho que observando-o, seu cuidado em examinar os minúsculos cortes e os pontos na perna, me fez pensar como seria bom externar algumas palavras de carinho e ternas que sentia brotar naquele momento. Enquanto o olhava, várias lembranças passaram por minha cabeça. Flashes pipocavam na minha mente: neles momentos diversos, decorridos nos vários anos de minha infância menina, quando sentíamos – eu e meus irmãos – nosso pai mais presente. Naquela época tínhamos receio de crescer, nos tornar adultos, deixando para trás um rastro de lembranças das muitas faceirices que aprontávamos. Mas, enfim, um dia cresci. Vieram as dificuldades, comuns para adolescente novatos; um misto de rebeldia e medo tomavam cada ato meu; e, em consequência, me afastei dele, do Pai. Vi então que muitas vezes – na verdade a maioria delas – eu fora ríspido com ele, o Pai. Permitira que as tensões da vida fossem diversas vezes descarregadas sobre aqueles ombros que me carregaram quando criança. Muitas ocasiões fui intratável, sucinto diante simples perguntas, estava preocupado somente comigo mesmo, e com os problemas que achava serem maiores que os do mundo. Me tornei um adulto cinzento e azedo…

Agora ali, observando-o, imagino o que deve passar por sua cabeça. Que idéia ele tem de mim? Como ele enxerga o seu filho mudo, sentado diante de si, incapaz de ser ao menos sociável? Num espaço tão confinado como não pode haver uma troca sequer de palavras?…

Me envergonho ao pensar que aquele homem, aparentemente rude e insípido tantas vezes demonstrou amor por mim. Que não foram poucas as vezes que ele abrira mão de tudo para que eu tivesse o mínimo possível.  Sinto algo subir pela garganta, então luto contra lágrimas invasoras. Uma constatação terrivelmente real me traz um torpor de insuportável amargor: em verdade, acho que nunca fui um bom filho.

Verguei a cabeça, embaraçado…

 

 

Aos dois Pais, meus sempre presentes…

instrumento do mal?...

NÃO É NOVIDADE, O TEMPO é o maior inimigo do passado! Aquilo que agora é o deixa de ser daqui a um segundo, me lembra o verso da música de Lulu Santos. Também as lembranças são profundamente avariadas pela passagem deste ser invisível que mexe com a cabeça de muita gente. Cada dia elas perdem um pouco de seu colorido, de sua textura; no máximo uma imagem amarelecida e borrada se preserva nos recônditos de nossa memória…

O tempo é implacável! Sua maior vítima é a lembrança. Sei disso e essa certeza me tolhe um pouco a alegria de tempos há muito passados. A cada novo dia me lembro menos do guri desse outro tempo. Quase é impossível enxergar neste emaranhado de lembranças velhas e carcomidas a face pueril do eu que um dia fui. Aquele mesmo guri que se brindava com tardes alegres à sombra das mangueiras no imenso quintal da casa antiga. Restou apenas a imagem cansada do eu de agora, borrada também por lágrimas e delírio. O guri se foi. E agora não passa de um velho slide mental!…

À passagem do tempo estamos todos condenados. Ou será redimidos? Porque o nosso atual modus vivendi nos diz para correr, correr ainda mais, para não perdermos tempo, pois o tempo passa. Perdermos tempo? Não há maior engano do que nessa afirmativa. Porque não perdemos tempo nessa nossa vida louca; perdemos é a vida quando desperdiçamos tempo. E o tempo jamais será benevolente para os desavisados. Deles serão arrancados a mocidade, a realização, a esperança. Viverão uma derrocada pessoal, rumo ao abismo do esquecimento…

Eu por mim tenho desafiado o tempo. É uma luta desigual, ridícula até. Mas nego-me a cruzar os braços, ao invés ofereço-me como mártir de mim mesmo nesse embate claudicante. O faço me refugiando nas velhas lembranças, nos dias mais antigos do passado. Esta é minha forma de revolução, minha resposta à ordem de esquecer: olhar sempre para trás e ver ainda a velha casa dos meus idílios, a roda de amigos cantando canções saudosas que Alberto extraía do seu violão sentimental; sentir o hálito fresco das tardes serenas sob a sombra da “castanhola”; me embrenhar por mundos surreais e aventuras incomuns nos livros que sempre me rodearam; viver as madrugadas regadas a café e waffer, ou adormecer ouvindo Emilio Pericolli cantar Al dilá do meu radinho amarelo…

Quanto ao guri, o tempo tem vencido, pois já não é possível revisitá-lo. O que posso fazer é contemplar dia após dia a morte derradeira duma época quando não tinha medo da passagem do tempo. E pensar como era bom esperar um novo dia.

 

 

Crônica repentinamente encontrada em meio a papéis avulsos…

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