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Posts Tagged ‘saudade’

Solo con Te…

arte da solidão... quem a entenderá?

DE REPENTE, é você que vejo, os passos lentos na escuridão dos meus sonhos. Um farfalhar me tira deste transe de saudade, dessa interminável quimera que surpreende meu naufrágio solitário…

Te vejo, tu tens nas mãos um branquíssimo véu, fino, levado pelo tênue movimento de tuas mãos, numa dança própria, que eu levarei para sempre na intragável lembrança de nós dois. Os meus olhos, como que hipnotizados pela beleza deste momento, onde és figura central, envolta de toda a força de meu sentimento, espargido por entre os dias antigos do passado, uma intrépida caminhada embevecida pelo que construí com meu impoluto sentir.

De repente, eu posso sentir o perfume que emana dessa dança, um cheiro de saudade invade meus pulmões, inertes e incapazes de explodir a multidão das minhas lágrimas, embargadas de nostálgica falta…

Martelo ao piano a canção do coração. A cada compasso, um descompasso de meu ser interrompe a melodia do fim, mártir único desse inverno intransponível de lágrimas frias, de indeléveis rancores, de um vazio inexplicável, como uma poesia sem o verso perfeito.  Sim, a palavra me falha, uma súbita mudez de sentimentos, apenas a música que enche meus ouvidos e que me esvazia a esperança na tarde antiga, tarde incompleta, tarde da tua ausência…

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O tal paraíso

Perdido?

CONTA-NOS A BÍBLIA que o primeiro homem e a primeira mulher foram abolidos do Éden, o paradísico jardim criado pelas próprias mãos de Deus. A desobediência, personificada pelo desejo (e posterior prática) de degustar da árvore do conhecimento do bem e do mal custaram ao primeiro casal humano uma vida relegada de paz e fartuna. Ao invés da existência eternamente perfeita, eles passaram a extrair de suas próprias mãos tudo o que necessitassem para sobreviver. Eis o preço por sua inadvertida decisão.

Então penso no hoje que sou e no ontem que fui. Um descomunal hiato surge ao fazer esta comparação. Não pela quantidade de anos de vida acumulados, mas pela quantidade de erros cometidos e repetidos. Neste instante me esforço para recuperar, na memória, um pouco da lembrança do guri de outros tempos, um menino ainda envolto pelo manto da ingenuidade e pureza.

As lembranças, ainda que turvas, conseguem me fazer ver outra vez aquele menino. Bem lá para trás, ele existiu, e ainda posso vê-lo sentado, num fim de tarde,  na velha cadeira de balanço de macarrão verde, esperando por aqueles que iriam buscá-lo. Aquele menino não conhecia as densas e maquiavélicas maquinações da vida adulta; nem tampouco era capaz de criar ardilosos subterfúgios para manter a máscara que impedia os outros de vê-lo como é. Não. Aquele garoto pobre, nascido nas plagas piauienses, tinha tudo para se tornar um bom homem, a despeito de sua condição social desfavorável. Porque falta de recurso não é motivo para alguém esquivar-se das grandes virtudes exaltadas por tantos e tão grandes pensadores. Mas o que fê-lo ser  o que hoje é, foi resultado de suas escolhas, muitas delas equivocadamente decididas sob lampejos de puro hedonismo.

Então o menino se foi. Devido aos inevitáveis ditames da natureza, o menino partiu, dando lugar ao homem. Toda aquela casta ingenuidade fora trocada pelo conhecimento do bem e do mal, como citados lá na Bíblia. Vieram as ardilosas mentiras, os asquerosos enganos, e daí os erros advindos, que se acumularam por tantos anos. O bom menino transmutara-se em homem. Homem imperfeito, mais afeito ao que sua natureza impura anseia do que sua pronta consciência condena. “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”, me lembra os versos bíblicos de Jeremias 17:9. Saberei eu mesmo quem sou?…

Talvez por isso mesmo eu tenha perdido meu paraíso. Não me refiro àquele, da Bíblia, repleto de árvores frutíferas e transbordantes mananciais de água pura. Estou falando de uma consciência tranquila, benigna, desprovida dos calos da falta de virtude. Estou falando de ser uma bona persona, alguém empenhado na busca incessante das virtudes e que sinta-se livre dos pesados fardos da condição humana; alguém livre dos monstruosos ditames causados pelas máscaras que teimo em usar; alguém livre para amar.

Ao que me lembro aquele casal jamais voltou para o paraíso, pelos menos é o que está escrito na Santa Escritura. Também não sei dizer se eles buscaram ser melhores do que foram quando preferiram decidir suas próprias escolhas. O que dizer de mim mesmo? Sei que nunca mais voltarei a ser o pequeno guri, que olhava a tarde ir-se devagar, à espera dos seus. Mas sei, também, que a busca pelas virtudes, o que há de bom no mundo, depende unicamente de uma escolha partida de mim…

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perdido em si mesmo...

A rotina quase nunca é diferente: o mostrador luminoso do despertador anuncia uma nova manhã; o desjejum composto por pão, queijo, café e torradas; tudo era sorvido em grandes bocados, juntamente com as notícias recentes do Diário Matinal.

Antes de sair, um rápido check-up na maleta: agenda, o iPad 2 recentemente adquirido depois de ter enfrentar uma longa fila defronte à Apple Store, papéis tratando de negócios rentáveis; consulta ao relógio de pulso Calvin Klein: oito e meia; logo ao deixar a garagem do prédio, duas quadras adiante, o primeiro grande desafio do dia: outro engarrafamento; momentos assim só mesmo suportados com música ambiente… Sintoniza várias estações, até parar em uma que toca uma música conhecida; o stress do início do dia logo se transforma numa saudade latente que se desprende do seu peito…

Quase duas horas e meia depois, enfim, o escritório; as mesmas banalidades são ditas aos colegas de firma; a mesa à sua espera abarrotada de papéis: malditos problemas impressos. Senta-se na sua confortável poltrona Nashville, liga o pc, checa e-mails, na maioria tratando sobre indigeríveis propagandas. Conecta o fone de ouvido no iPhone, uma faixa é selecionada, Enya, seja bem vinda…

Findo o dia, uma rápida passada no Bar do Tony para um chopp gelado onde pode deixar seus olhos vagarem pelas distantes luzes da Avenida Campos Sá. Enfim casa. Checa a secretária eletrônica; tio Werther mais uma vez prometendo uma visita no fim de semana; um banho gelado vai cair bem; depois, talvez, um bom livro, acompanhado de uma taça de Don Arturo tinto.

Uma rápida olhadela pela estante de carvalho apinhada de volumes, retira um; confere o título: Tarde da sua ausência, do Cony. Pequeno grande livro, pensa. Não é o título nem a história que lhe chamam a atenção, mas a dedicatória, logo na primeira página, escrita em vermelho, numa caligrafia conhecida e que o faz sentir saudade:

“Ao mais que amado Pablo. L.”

De repente, tudo é ruína e lágrimas.

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charlles campos

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