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O Grande Adroaldo

Nos últimos dias fiz a releitura (uma de muitas!) do ótimo livro Páginas Escolhidas – 200 crônicas e dois contos do saudoso cronista baiano Adroaldo Ribeiro Costa.

 

Como das outras vezes, acabei sendo tomado pelo panorama soteropolitano tão lindamente descrito pelo advogado que nunca chegou a utilizar seu diploma do Curso de Ciências Jurídicas da Faculdade de Direito da Bahia,  trocando as letras jurídicas pela crônica de reminiscência. E, de uma maneira um tanto absurda, fico a matutar quantas pessoas já leram alguma de suas crônicas, ou, pior, se foram muitas ou apenas um punhado de pessoas que chegaram a ouvir falar de Adroaldo. Talvez, para facilitar as coisas, o grande cronista das terras da Baía de Todos os Santos seja mais facilmente reconhecido por ser o autor do hino do tricolor baiano, o Bahia…

Mas, e quanto a tantos outros feitos deste amante da educação, dos livros e das “conversas de esquinas” magistralmente imortalizadas nas Páginas Escolhidas, livro organizado pelo sobrinho do autor, Aramis Ribeiro Costa, além, é claro, da impressionante marca de 25 anos ininterruptos dedicados à crônica no Jornal “A Tarde”?

Adroaldo não dedicou-se somente a registrar o dia-a-dia da Salvador dos anos 50, 60 e 70, mas como disse era um ávido entusiasta das questões sociais, utilizando muitas vezes de uma fina ironia para tratar de problemas de ordem política e ambiental. Esse Adroaldo engajado pode ser facilmente percebido em crônicas como “Moleque da rua”, “Em defesa do mar“, ou “A criança aleijada”, quando denunciou o descaso social das crianças marginalizadas nas ruas de Salvador (e não é preciso nem citar os Capitães da Areia, de Jorge Amado para poder ver isso) ou as agressões à natureza, como a poluição do mar que tanto amava…

Possuidor de intensa veia humorística, Adroaldo conseguia arrancar facilmente risos dos seus interlocutores com suas “estórias”, oriundas, segundo ele próprio, dos personagens de sua infância recheada pelos livros que coloriram sua fértil imaginação. No jornal, muitas de suas crônicas traziam essa característica espirituosa, como Não entendo”, Os pés e os sapatos”, “Balão” e “O caso do Charuto”, todos de uma espontaneidade que somente este grande representante da crônica, na Bahia, foi capaz de legar.

Contudo, posso afirmar que Adroaldo foi melhor no falar de si mesmo. Não na verborrágica e nada humilde tentativa de se auto-engrandecer. Não é isso. Ninguém foi tão sensível em retratar com poética nostalgia a sua própria existência, tecendo com a tinta das lágrimas da saudade os seus dias meninos, como o fez Adroaldo. Deixando de lado a decisão do anonimato comum entre os cronistas, Adroaldo resolveu seguir o caminho contrário, como ele mesmo disse: “Pensei, então, que deveria decidir logo sobre o rumo que imprimiria a estas crônicas. Poderia colocar-me na posição impessoal do cronista que apenas se propõe a divertir e comentar, mas não se põe dentro do que escreveu. Mas preferi o caminho oposto: eu deveria pôr-me, de corpo inteiro, nestas colunas.” – Grifo meu.

E o fez exatamente como o dito acima: crônicas como o Menino do retrato, A mesa vazia, Amoroso, O carrinho de louça e tantas outras páginas, embargadas de emoção e sincera nostalgia pelos dias antigos do passado, no dizer de Carlos Heitor Cony.  Adroaldo, em síntese, foi aquele que não temeu mostrar-se como era, trazendo ao leitor não a tentativa de parecer sem ser, mas, ao invés, pintou o seu retrato com a tinta do coração, não se importando em parecer fraco, imperfeito, humano…

O grande homem que jamais esqueceu-se de ser criança, que adorava ler Monteiro Lobato, que também não desprezara a crônica esportiva e o ser torcedor de coração do “Baêa”, foi mestre em divertir as crianças. Para sempre suas maiores contribuições, a Hora da Criança e a peça Narizinho – adaptação teatral da personagem de Lobato – vinda do Sítio do Pica Pau Amarelo serão lembradas, ao menos pela Salvador que Adroaldo tanto amou. Muitos escritores talentosos marcaram suas épocas e as gerações seguintes com personagens e lugares frutos de uma fértil e criativa imaginação. Adroaldo marcou seu tempo apenas com o que tinha de melhor: saber viver.

Por Pê Sousa

 

Nota: Adroaldo Ribeiro Costa nasceu em Salvador no dia 13 de abril de 1917 e passou quase toda a infância em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Formou-se na antiga Faculdade de Direito da Bahia em 1936, sem nunca advogar. Exerceu a profissão de professor e fundou uma escola que hoje leva seu nome. Foi, ainda o autor do Hino do Bahia, do programa “A Hora da Criança” e produziu diversas peças teatrais, se destacando a peça “Narizinho”. Adroaldo publicou, em 25 anos e dois meses de profissão, a impressionante marca de 7.200 crônicas, mantendo-se ativo de dezembro de 1958 até 27 de fevereiro de 1984, quando faleceu devido a um câncer na laringe.

 

Dados biográficos extraídos do livro “Páginas Escolhidas – 200 crônicas e dois contos”, seleção, organização e introdução de Aramis Ribeiro Costa.

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