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Posts Tagged ‘papai; mistério; passado; idílio; Jairo; Alberto; café’

"Por trás da porta mistérios há..."

“Por trás da porta mistérios há…”

FORAM EXATOS 20 ANOS até decidir-me abrir aquele quarto. Não porque receasse encontrar ali algo inconcebível, ou mesmo absurdo. Era apenas o medo de enfrentar o passado, o mesmo medo que meu pai levara no peito e que jazia naquele pequeno cubículo há duas décadas.

Acredito que demorei mais que o esperado à frente da grande porta de carvalho. A chave dourada estava fria nas minhas mãos; ou então eram minhas mãos que transmitiam ao metal todo o torpor que o corpo sentia.

Olho para aquela chave, me lembrando das muitas vezes que a vi sumir no bolso de papai, sempre depois de sair daquele quarto hermeticamente entalado de velhas lembranças. Em todas as vezes que ele saia de lá estava mais cismarento, o olhar como que perdido em algum ponto do passado. Em mais de uma oportunidade flagrei-o com os olhos molhados – estivera chorando? – e aquele sofrimento incontido, solitário e mudo me abatia também. O que haveria naquele quarto, trancado há pelo menos duas décadas? Que poder os objetos ali sepultados tinham sobre o quase sempre inalterável humor do meu velho?

Numa ocasião, já quase perto do seu fim, papai falara-me de uma época de sua vida, quando ele fora completo. O tempo em que ele descobrira que os invernos podiam ser belos, em que não precisara mais ouvir o eco da sua solidão, uma época em que ele foi um “pertencente”. “Ao que, a quem, papai”, perguntei-lhe. Ele fitou-me bem nos olhos,e percebi-os marejados. “Não sei mais, filho. Acho que aquela lâmpada jamais devia ter-se apagado, mas foi o que aconteceu”, ele disse, a voz inaudível, quase um sussurro.

Alguns anos depois que ele se foi, soube que papai amara uma mulher, bem antes de conhecer mamãe. Não sei ao certo o que aconteceu, mas seja lá o que for, fe-lo se tornar um homem circunspecto, perdido nos seus devaneios, acostumado a fruir a solidão. Apesar de ser uma boa pessoa, papai acostumou-se a carregar uma dor que nem o tempo foi capaz de curar. Preferia passar seu dias de aposentado embrenhado na sua biblioteca, a inseparável xícara de café, esvaziada de instante a instante; o velho violão, presente do seu fiel amigo Alberto, pendurado na parede, como um troféu; a voracidade com que lia todos aqueles livros velhos e empoeirados, preocupava mamãe, que o obrigava a deixar o escritório e respirar um ar, segundo ela, mais saudável. Mas ele era um incorrigível. Era como se estar ali, perdido naquela vastidão de páginas amarelecidas, o protegesse do que ele mais tinha medo: a busca de si mesmo.

A porta. Uma profusão de sentimentos me invadem, diante daquela porta. Ao mesmo tempo que sinto que, de alguma forma, o que estiver ali dentro me pertence, agora que papai não está mais aqui; mas é como se também eu estivesse violando um segredo do qual sou indigno conhecer. Ao tempo em que a curiosidade me impele a adentrar o universo misterioso de papai, é como se ele estivesse me dirigindo um olhar reprovador ao que estou prestes a fazer.

Ele nunca revelou o que guardou ali por tanto tempo. Acredito que talvez Alberto e um outro amigo seu, esquisitão, acho que Jairo era seu nome, sabiam desse segredo. Mas desconfio que tenha a ver com seu amor do passado. Bastava saber o que…

Um sorriso esboça-se de meus lábios ao me recordar as tantas vezes que insisti com o velho para que me contasse o que mantinha guardado a sete chaves ali. Ficava irritado comigo, mas não mais que eu, que sentia uma curiosidade ácida corroer-me.

E agora a porta à minha frente, da qual possuo a chave. O que estarei esperando? Por que não introduzi-la ne fechadura, girá-la e acabar logo com tudo? O que me impede, afinal?

Então penso nele. Nas tantas vezes que saimos juntos, tomar sorvete, conversarmos na beira do cais, vendo o fim do dia perder-se com o céu alaranjado. Retrocedendo ainda mais, posso vê-lo me levando ao parquinho, onde ficava me vendo brincar no balanço, correr pela grama até as pernas não aguentarem mais. Ele estava lá, sempre esteve, disso eu tinha certeza. Quantas não foram as vezes que suas mãos paternais afastaram o medo, a incredulidade, a falta de esperança. Quantas vezes me senti mais seguro ao ouvir sua voz, ao chegar a casa. Mas, da mesma forma como o conhecia, também havia um lado escuro nele, que eu não conhecia. Essa faceta ficava mais evidente nas suas frequentes visitas ao quarto misterioso. Toda sua vida foi assim, um misto de presença e mistério. Até que ele partiu.

Entre o seu inventário está esta casa, onde viveu toda sua vida e onde vivi parte da minha. Levarei sempre boas lembranças desta casa, onde foram cristalizados quase todos os meus idílios. Conhecia a casa paternal nos mínimos detalhes, mas apenas o quarto misterioso de papai era-me negado acesso. E agora estou aqui, parado, sem saber o que fazer…

*   *   *

[Continua]

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