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Posts Tagged ‘Memórias’


Em Fortaleza-CE, saboreando o viciante veneno de Salander...

Todos que me conhecem sabem o quanto gosto de ler. Uma paixão que trago desde os tempos meninos na distante (tanto territorialmente quanto sentimentalmente) Floriano. Na casa materna, exatamente sob a sombra da grande mangueira que reinava em nosso quintal, me perdia fecundamente nas páginas que não cansava de devorar. Ali conheci um pouco do mundo, sem, contudo, sair sequer do meu quintal sombreado…

Muitos jovens, naquela época, nunca chegaram a conhecer o Pequeno Príncipe, ou só o fizeram pela TV. Eu preferi ver o colorido das páginas encantadoras da historieta embargada de emoção e profundas verdades, do Saint-Exupèry. Ali soube da responsabilidade que é o cativar alguém. Mesmo que nunca tenha sabido por isso em prática.

Um dia, quem sabe…

Mas muitos outros autores e livros passariam por minha vida, desde então. Alexandre Dumas, Machado de Assis – que li quase que na íntegra, a famosa trilogia de Victor Hugo – Os miseráveis, Os trabalhadores do mar, Nossa Senhora de Paris. Também Milan Kundera, F. Scott Fitzgerald, Franz Kafka, e tantos outros, que não saberia listá-los todos.

E não quero parecer pedante ou fazer apologia a alguns livros, muito embora todos os autores acima deveriam ser lidos por todos. Mas li muitos outros, que numa classificação, estariam posicionados como livros e autores secundários. Um exemplo? O atual sucesso de vendas, que são os três livros mais relevantes da obra de Dan Brown, O Código da Vinci, Anjos e demônios, O símbolo perdido. São livros que, embora sejam construídos com muitos clichês e lugares-comuns, fascinam o leitor, sobretudo aquele que é fissurado por histórias de conspirações. Que o diga o personagem central, professor Robert Langdon…

Outro exemplo ainda, a explosiva Trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson, que conheci através do grande jornalista Paulo Nogueira, quando em visita ao seu blog. A cativante e não pouco excêntrica Lisbeth Salander, com suas habilidades de hacker, encheram exatos dezoito dias, em que li a trilogia inteira (mais ou menos 1.800 páginas!).

Diante de tantos problemas, de um mundo onde virou modismo cultivar valores decaídos e superficiais, ler é um alívio. Aristóteles, um dos mais importantes filósofos de todos os tempos, dizia que o livro é um animal vivo. Então convido você a empreender caçadas mais e mais ousadas a esses animais que valem a pena serem cultivados.

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Alberto

O louco em transe...

ALBERTO NÃO É exatamente alguém que possa ser definido. A não ser por sua figura esguia, as sobrancelhas de taturana, a barba sempre por fazer e, o que mais chama a atenção em meu amigo, o olhar perdido em algum lugar que não posso advinhar.

Sempre com os tênis All Star pretos e canhestos, Alberto era uma espécie de ícone pop da atualidade. O cabelo desgrenhado e os óculos de aros pretos causavam uma estranha combinação de intelectual maluco, desses que ficam mais tempo vagando por seu universo próprio. Também tinha hábitos noctívagos, preferindo muitas vezes gastar suas noites acompanhado de uma garrafa de vinho, o cigarro pregado na parte inferior dos lábios, os olhos míopes devorando páginas e páginas dos clássicos da psicologia e sua maior paixão: a literatura. Sim, Alberto era também estudante de Psicologia. Não por vaidade própria ou para, algum dia, ter algum ofício, mas para tentar se entender…

Não fosse a aparência desleixada, de dia não era nada mais que um estudante comum, empenhado em garantir boas notas e manter sua bolsa de estudos na faculdade. Quando era chegada a noite, Alberto podia, enfim, libertar-se. Podia abandonar o estereótipo do bom garoto, estudante dedicado, filho que traz orgulho para sua mãe. Podia deixar aflorar seu verdadeiro universo: um caos próprio, singular, único. Sua mente deixava de lado os principais expoentes do estudo da mente; ignorava Pavlov, Skinner e Freud. Substituía-os por Cony, J.R. Duran, Garcia Marquez, Joyce. Sempre com uma xícara de café cuja fumaça cheirosa ampliava-se na casa diminuta. Sempre ouvindo uma música no seu iPod. Sempre cercado de talvezes e se’s. Sempre ofuscado pela lembrança do sorriso metálico que era o abismo de seu fim…

Perdas...

Os fins de semana eram particularmente difíceis para ele. Lutando contra todos os fantasmas que tentavam abocanhá-lo, Alberto não tinha outra opção, senão aumentar a dose de sua anestesia alcoólica, e, olhando para as telhas escuras de seu quarto moribundo, extrair sua redenção nas cordas de sua acoustic guitar. Uma canção trazia outra, e mais outra, ao tempo que o tempo ia retrocedendo, para trás, para trás, até lembrar-se de uma fase de sua vida onde era genuinamente feliz. Ou pelo menos, pouco triste. Justamente na lembrança da velha casa dos idílios, como Pablo se referia àquele lar onde o tempo não era problema, Alberto sentia que seu peito era mais livre, tanto da nicotina que vai roubando a sua capacidade de absorção de oxigênio quanto dos amores que hoje se constituem em sua perdição.

O que daria para voltar atrás, para aquela casa, já de todo esquecida?, pensa ele. Nada. Não seria mais capaz de ser o mesmo garoto de outrora; antes, vivera bons momentos ao lado d e Jairo e Pablo, dois malucos que numa manhã de março apareceram na sua vizinhança; ficava efusivamente satisfeito com as aulas de violão que Jairo lhe dava, ou ria-se consigo próprio das verborrágicas explanações literárias de Pablo. O ingênuo Alberto daquele tempo não existe mais.  O Alberto daquele tempo se foi. Nunca mais voltará. Ele próprio se mutilara, com uma lista interminável de pecados morais, cada vez menos se vendo no espelho do antes.

Quanto tempo o Alberto de hoje irá sobreviver até a próxima perda de si mesmo?

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charlles campos

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