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Posts Tagged ‘Livros’

Eu, radialista?

Apresentando o programa de rádio "O Shofar"

MINHA VIDA SEMPRE FOI um desafio. Desde pequeno, por causa de uma falha dentária estética, fui obrigado a nunca sorrir. No máximo, a sorrir disfarçadamente, impedindo que as pessoas percebessem o meu problema ortodôntico.

Também obriguei-me a pouco falar. Evitava as rodas de amigos, preferia o silêncio salvador dos livros, estes sim, meus amigos mais achegados. E que época aquela, em que podia ficar deitado à sombra da mangueira vasta que cobria todo o nosso quintal. Era ali o meu refúgio, onde me perdia nas  histórias que meu olhos insistiam em devorar. Foi ali que aprendi a buscar outras formas de felicidade.

Mas, um dia a gente cresce. Vem, com este fato biológico, os ditames da natureza, a necessidade de comunicar-se para se conseguir algo. Neste algo subentenda-se também as coisas do coração.

Tive que falar! Abrir a boca, até então um grande dilema, era a única forma de poder dizer da minha existência, da necessidade de participar da vida, de tecer com o fio humano, os detalhes de minha própria vida. Sim, eu tive que falar.

Vieram novas chances e formas de expressão. Veio a menina-mulher que hoje faz parte da minha vida, veio também a necessidade de me expôr e mostrar meu potencial profissional, até de falar para um público além das minhas possibilidades vocais utilizando, para isso, um útil instrumento: o rádio.

Bem, vencida a barreira estético-ortodôntica, um dia tive a chance de praticar radialismo amador. Que pânico, meu Deus. Um vexame só, e de repente me vi suando diante o microfone que aguardava minhas palavras tímidas e incertas.Graças a algumas pessoas, especiais para mim, pude desvencilhar-me da carapaça da timidez, dos receios, tanto que hoje me considero alguém que interage com os outros...

Passados alguns anos, me revejo ainda guri, o mesmo garoto sem confiança, sem atitude, que abriu mão de tantos amores infantis por não poder sorrir. Esse menino, perdido nas suas ilusões literárias, buscou o isolamento como forma de proteção, o silêncio como uma auto-imposição social, o vazio como objeto de inspiração.

Mas, um dia resolvi quebrar todas estas barreiras, que de certa forma, impediram minha felicidade. Elas foram boas até o ponto em que ou eu decidia me permitir viver ou simplesmente, desistir-me.

Ainda bem que escolhi a primeira opção.

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O morto continua falando...

LER MACHADO SEMPRE será uma experiência nova. Eu mesmo que tive a insigne oportunidade de poder ler todos os seus romances, na sequência em que foram publicados, posso afirmar com conhecimento de causa: Machado será sempre o nosso melhor escritor!

Nesse instante em que concluo mais uma “treleitura” do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas fico matutando em como alguém pôde escrever grandes livros com uma profundidade tão simplória e, ao mesmo tempo, tão singular. Em como, apesar de já conhecer as histórias machadianas, na medida em que folheio suas páginas magistralmente construídas, um sempre renovado assombro toma a minha mente de leitor claudicante.

Então penso nos infortúnios amorosos porque passou o Brás Cubas. No amor afoito (e caro!) por Marcela. Na beleza estranhamente maculada por uma perna coxa de Eusébia. Na passagem tão inopinada pela vida de Nhã-Loló, beleza pueril subtraída pela febre amarela. Por fim, no trágicômico romance que manteve com Virgília, figura tão enigmática quanto atraente, que acabou tomando todos os espaços da vida – e da morte –  de Brás.

Uma trama assim só poderia mesmo ser sobrepujada pelo maior dos romances concebidos da verve machadiana: Dom Casmurro.

Mas, por enquanto, antes de reler a história de Bentinho e da dúvida jamais sanada que levou-o a duvidar da fidelidade de sua esposa Capitu, vou ficando com Brás e suas elucubrações nada gentis postergadas pelo verme que primeiro roeu as frias carnes de seu cadáver.

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Paulo, o jornalista...

QUANDO GURI, SEMPRE que me perguntavam a quem puxei no hábito (e gosto) pelos livros, nunca sabia responder. Na casa materna, eu não tive quem me influenciasse a gostar tanto de ler. Minha mãe só cursara o ensino fundamental; já meu pai, embora tivesse estudado até o segundo ano do antigo ginásio, jamais o vi lendo qualquer coisa na vida. Então, como isso começou, quer dizer, minha fome pelos livros?

A resposta: não sei!

Mas eu cresci. Muita coisa mudou desde aqueles saudosos dias de guri. Só não no que tange aos livros, que sempre estiveram presentes na minha vida. O que mudou, na verdade, foi a forma como leio hoje, bem como a qualidade do que e quando leio. Deixe-me ser mais claro. Quando guri, eu lia de tudo, só que muito dos livros que passaram por minhas mãos eu os li sem a devida maturidade para uma compreensão efetiva. Alguns livros memoráveis tiveram uma segunda, e até terceira releitura de minha parte, então já adulto e com uma percepção mais apurada das belas nuances desses amigos queridos. Como também a qualidade dos livros melhorou: não preciso dizer para minguém que existem livros que jamais deveriam ser escritos, ou lidos, de tão ruins!…

Então, como escolher verdadeiros bons livros, nos dias de hoje, em que há uma infinidade de títulos à disposição?

É aqui que entra meus dois novos velhos amigos: Paulo e Fábio.

...e Fabio, o escritor barato

De Paulo Nogueira, aprendi a buscar e ler livros que tratam da realidade dura e crua bem como aqueles que encerram a sabedoria de grandes escritores que primaram pela compreensão das questões da vida. Sua visão apurada de jornalista experiente, aliada ao imenso arcabouço de leituras que fez e faz, me fizeram desejar ainda mais aprofundar-me em livros importantes da literatura, tanto pela sua robustez literária como por legar aos nossos dias a realidade de uma sociedade dinâmica e em constante mutação que foi à época em que foram produzidos. Livros como A Família Moskat, de Singer, obra que aborda a trajetória de uma abastada família judaica e seu lento declínio ao longo dos cinquenta anos que antecederam à 2ª Guerra Mundial; os Capitães da Areia, do colosso baiano Jorge Amado, um verdadeiro livro-denúncia do descaso social vivido por moleques de rua nos trapiches soteropolitanos.

Já com Fabio Hernandez tenho aprendido a cultivar uma literatura mais sinestésica, livros que buscam olhar para dentro da natureza humana, a perscrutar o cinismo,a cobiça, o hedonismo, como se fossem agentes destiladores dos não virtuosos apetites humanos, dos arquétipos e estereótipos, da eterna e muitas vezes infecunda busca por si mesmo e sua realidade interior. Como exemplo cito o O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, livro que trata da busca pelo poder, pelo dinheiro, pela estabilidade, as metas de Jay Gatsby, ainda que esses alvos sejam distorcidos por sua própria ignorância e pela corrupção encravada na sociedade à qual ele está inserido. Um verdadeiro clássicos da busca pelo amor perdido…

Mas são tantos, há aqui obras monumentais como os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, os livros de Flaubert, a exemplo de Mme. Bovary, e Eça de Queiróz e seu Os Maias, importante obra da literatura portuguesa, que descreve uma sociedade de transição, caracterizada por uma aparência de despreocupada alegria de viver, escondendo um não disfarçado mal do século…

Esses são Paulo e Fabio. Dois apaixonados pela leitura, pelos grandes clássicos. Estar com eles é sentir-se intimado a buscar a profundidade da cultura, das páginas escritas com esmero e talento, próprio dos grandes escritores, que juntos formam uma plêiade incomum, de mortais que, na verdade, nunca morreram.

 

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Em Fortaleza-CE, saboreando o viciante veneno de Salander...

Todos que me conhecem sabem o quanto gosto de ler. Uma paixão que trago desde os tempos meninos na distante (tanto territorialmente quanto sentimentalmente) Floriano. Na casa materna, exatamente sob a sombra da grande mangueira que reinava em nosso quintal, me perdia fecundamente nas páginas que não cansava de devorar. Ali conheci um pouco do mundo, sem, contudo, sair sequer do meu quintal sombreado…

Muitos jovens, naquela época, nunca chegaram a conhecer o Pequeno Príncipe, ou só o fizeram pela TV. Eu preferi ver o colorido das páginas encantadoras da historieta embargada de emoção e profundas verdades, do Saint-Exupèry. Ali soube da responsabilidade que é o cativar alguém. Mesmo que nunca tenha sabido por isso em prática.

Um dia, quem sabe…

Mas muitos outros autores e livros passariam por minha vida, desde então. Alexandre Dumas, Machado de Assis – que li quase que na íntegra, a famosa trilogia de Victor Hugo – Os miseráveis, Os trabalhadores do mar, Nossa Senhora de Paris. Também Milan Kundera, F. Scott Fitzgerald, Franz Kafka, e tantos outros, que não saberia listá-los todos.

E não quero parecer pedante ou fazer apologia a alguns livros, muito embora todos os autores acima deveriam ser lidos por todos. Mas li muitos outros, que numa classificação, estariam posicionados como livros e autores secundários. Um exemplo? O atual sucesso de vendas, que são os três livros mais relevantes da obra de Dan Brown, O Código da Vinci, Anjos e demônios, O símbolo perdido. São livros que, embora sejam construídos com muitos clichês e lugares-comuns, fascinam o leitor, sobretudo aquele que é fissurado por histórias de conspirações. Que o diga o personagem central, professor Robert Langdon…

Outro exemplo ainda, a explosiva Trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson, que conheci através do grande jornalista Paulo Nogueira, quando em visita ao seu blog. A cativante e não pouco excêntrica Lisbeth Salander, com suas habilidades de hacker, encheram exatos dezoito dias, em que li a trilogia inteira (mais ou menos 1.800 páginas!).

Diante de tantos problemas, de um mundo onde virou modismo cultivar valores decaídos e superficiais, ler é um alívio. Aristóteles, um dos mais importantes filósofos de todos os tempos, dizia que o livro é um animal vivo. Então convido você a empreender caçadas mais e mais ousadas a esses animais que valem a pena serem cultivados.

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Alberto

O louco em transe...

ALBERTO NÃO É exatamente alguém que possa ser definido. A não ser por sua figura esguia, as sobrancelhas de taturana, a barba sempre por fazer e, o que mais chama a atenção em meu amigo, o olhar perdido em algum lugar que não posso advinhar.

Sempre com os tênis All Star pretos e canhestos, Alberto era uma espécie de ícone pop da atualidade. O cabelo desgrenhado e os óculos de aros pretos causavam uma estranha combinação de intelectual maluco, desses que ficam mais tempo vagando por seu universo próprio. Também tinha hábitos noctívagos, preferindo muitas vezes gastar suas noites acompanhado de uma garrafa de vinho, o cigarro pregado na parte inferior dos lábios, os olhos míopes devorando páginas e páginas dos clássicos da psicologia e sua maior paixão: a literatura. Sim, Alberto era também estudante de Psicologia. Não por vaidade própria ou para, algum dia, ter algum ofício, mas para tentar se entender…

Não fosse a aparência desleixada, de dia não era nada mais que um estudante comum, empenhado em garantir boas notas e manter sua bolsa de estudos na faculdade. Quando era chegada a noite, Alberto podia, enfim, libertar-se. Podia abandonar o estereótipo do bom garoto, estudante dedicado, filho que traz orgulho para sua mãe. Podia deixar aflorar seu verdadeiro universo: um caos próprio, singular, único. Sua mente deixava de lado os principais expoentes do estudo da mente; ignorava Pavlov, Skinner e Freud. Substituía-os por Cony, J.R. Duran, Garcia Marquez, Joyce. Sempre com uma xícara de café cuja fumaça cheirosa ampliava-se na casa diminuta. Sempre ouvindo uma música no seu iPod. Sempre cercado de talvezes e se’s. Sempre ofuscado pela lembrança do sorriso metálico que era o abismo de seu fim…

Perdas...

Os fins de semana eram particularmente difíceis para ele. Lutando contra todos os fantasmas que tentavam abocanhá-lo, Alberto não tinha outra opção, senão aumentar a dose de sua anestesia alcoólica, e, olhando para as telhas escuras de seu quarto moribundo, extrair sua redenção nas cordas de sua acoustic guitar. Uma canção trazia outra, e mais outra, ao tempo que o tempo ia retrocedendo, para trás, para trás, até lembrar-se de uma fase de sua vida onde era genuinamente feliz. Ou pelo menos, pouco triste. Justamente na lembrança da velha casa dos idílios, como Pablo se referia àquele lar onde o tempo não era problema, Alberto sentia que seu peito era mais livre, tanto da nicotina que vai roubando a sua capacidade de absorção de oxigênio quanto dos amores que hoje se constituem em sua perdição.

O que daria para voltar atrás, para aquela casa, já de todo esquecida?, pensa ele. Nada. Não seria mais capaz de ser o mesmo garoto de outrora; antes, vivera bons momentos ao lado d e Jairo e Pablo, dois malucos que numa manhã de março apareceram na sua vizinhança; ficava efusivamente satisfeito com as aulas de violão que Jairo lhe dava, ou ria-se consigo próprio das verborrágicas explanações literárias de Pablo. O ingênuo Alberto daquele tempo não existe mais.  O Alberto daquele tempo se foi. Nunca mais voltará. Ele próprio se mutilara, com uma lista interminável de pecados morais, cada vez menos se vendo no espelho do antes.

Quanto tempo o Alberto de hoje irá sobreviver até a próxima perda de si mesmo?

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Faz bem para o coração...

LER, PARA MIM, sempre foi algo muito fácil. Não porque tive muita influência em casa ou por qualquer outro motivo que não fosse o prazer de viajar pelo universo maravilhoso da página impressa.

Dentre as muitas aventuras em que me lancei nesses anos todos, posso dizer (sem falsa modéstia) que ler “A Cabana”, de William P. Young, foi uma experiência muito interessante e diferente. Não pela história – até comum –  contida nas páginas desse pequeno grande livro; não por encará-lo como mais um livro de auto-ajuda, que, ao meu ver, não é a única classificação que posso fazer em “A Cabana”. Mas justamente por ser um livro escrito (acredito!) com o coração para tantos corações que desaprenderam a arte da reflexão.

Não é novidade que passamos a vida inteira nos abarrotando de conceitos, de preconceitos, de achismos e suas conjugações. Como também transformamos, nessa caminhada, algumas coisas bem gostosas de se fazer, num mero clichê. Como o curtir a solidão. A solidão boa, é claro. E onde quero chegar com isso? Justamente no ato de esvaziar-se a si mesmo, de uma forma tal que possamos enxergar nossa própria imagem, sem máscaras, sine cera, ou sem cera, como diziam os atores helênicos. Enxergar-se tal como somos talvez seja a tarefa mais difícil, sobretudo nesse nosso mundo moderno, onde reina o culto da superficialidade e dos relacionamentos via redes sociais.

Mas onde ficamos com tudo isso? Por que o medo de ouvirmos aquela vozinha que vem lá de dentro, que costumamos sufocar com o som do iPod, com a correria da era moderna, com a internet e a tv invadindo este momento a sós consigo mesmo?

Ler “A Cabana” me fez refletir em tudo isso. Foi bom. Com certeza o será para quem tiver a coragem de se ver além de apenar olhar-se.

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Perdendo-se...

Parar… Rever… Pesar as conseqüências. Pablo sentiu-se perdido por esta possibilidade. Enxergar-se ao espelho. O espelho da sua consciência, às vezes cruel, às vezes condescendente. E sentia-se confuso com o peso de uma voz igual à sua, dizendo-lhe o que deveria fazer. Mas, pra quê?

A tarde se aproximava, era hora de sair e espairecer, olhar um pouco o mar, desmanchar-se na praia em marolas brancas e salgadas. Escolheu uma música no seu iPod, uma canção bem apropriada para seu estado de espírito: I love you de Sarah Mclachlan.

Enquanto caminhava sem direção, via as pessoas às dezenas, indo para destinos que ele ignorava, imersas em seus pensamentos. Pelos seus semblantes, tinha uma vaga ideia de como se sentiam, ou no que pensavam. Conjecturou se também não estaria passando uma mensagem de seus mais íntimos pensares… Parou diante de uma porta espelhada e se viu por alguns segundos. A calça jeans rasgada na perna direita, um sinal de sua rebeldia; a camisa cinzenta com os dizeres Ideology: a want one to live!; a barba de quase um mês que deixava seu rosto ainda mais sombrio.

Desistir-se...

Há muito Pablo decidira desistir-se. Não era caso de suicídio, mas simplesmente decidiu desistir de si mesmo, abrindo mão do amor, do que alguns chamam de felicidade, de uma vida ligada a outra pessoa. Chegara à conclusão que não fora feito para uma vida a dois, era um eremita moderno, um homem de todos os lugares e de um só lugar. Preferia passar horas plugado a seu iPad, lendo na sua biblioteca virtual, a gastar míseros minutos numa DR (leia-se discussão de relacionamento). Não pensava duas vezes em dedicar-se a ler os livros de sua lista que não parava de crescer. Não fora feito para amar; amar para ele, só nos romances de Garcia Marquez, a exemplo dos Buendia da Macondo tão bem descrita pela imaginação do escritor colombiano.

Pablo jamais abriria mão das suas andanças, dos amores extemporâneos e efêmeros que vivia aqui e ali. Sua vida se resumia a unicamente dar vazão à sua forma de viver hedonística. Sexo? Não era problema para ele, que via no sexo a possibilidade de descobrir a milésima parte de diferença entre as mulheres, como escrevera Kundera. A milésima parte, pensava consigo, só isso bastava. Era o mais profundo que poderia ir num relacionamento: o  instante exato do gozo, do fugidio segundo em que perdia a consciência intelectualizada e trazia alívio ao seu corpo magro e maltratado pela escassez de sono e excesso de café. Era nisso que consistia sua desistência. Uma forma de vingança atroz, muda, fugaz. Uma forma de dizer que estava cansado de fingir a todo o momento, de rir quando na verdade queria era fugir de tudo e todos. Nisso consistia sua busca. Não por dinheiro, por felicidade, por amar um ser que jamais seria capaz de entendê-lo. Era uma busca trôpega, dolorosa, mas necessária. Era a busca dele mesmo. Uma busca por si mesmo…

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O Grande Adroaldo

Nos últimos dias fiz a releitura (uma de muitas!) do ótimo livro Páginas Escolhidas – 200 crônicas e dois contos do saudoso cronista baiano Adroaldo Ribeiro Costa.

 

Como das outras vezes, acabei sendo tomado pelo panorama soteropolitano tão lindamente descrito pelo advogado que nunca chegou a utilizar seu diploma do Curso de Ciências Jurídicas da Faculdade de Direito da Bahia,  trocando as letras jurídicas pela crônica de reminiscência. E, de uma maneira um tanto absurda, fico a matutar quantas pessoas já leram alguma de suas crônicas, ou, pior, se foram muitas ou apenas um punhado de pessoas que chegaram a ouvir falar de Adroaldo. Talvez, para facilitar as coisas, o grande cronista das terras da Baía de Todos os Santos seja mais facilmente reconhecido por ser o autor do hino do tricolor baiano, o Bahia…

Mas, e quanto a tantos outros feitos deste amante da educação, dos livros e das “conversas de esquinas” magistralmente imortalizadas nas Páginas Escolhidas, livro organizado pelo sobrinho do autor, Aramis Ribeiro Costa, além, é claro, da impressionante marca de 25 anos ininterruptos dedicados à crônica no Jornal “A Tarde”?

Adroaldo não dedicou-se somente a registrar o dia-a-dia da Salvador dos anos 50, 60 e 70, mas como disse era um ávido entusiasta das questões sociais, utilizando muitas vezes de uma fina ironia para tratar de problemas de ordem política e ambiental. Esse Adroaldo engajado pode ser facilmente percebido em crônicas como “Moleque da rua”, “Em defesa do mar“, ou “A criança aleijada”, quando denunciou o descaso social das crianças marginalizadas nas ruas de Salvador (e não é preciso nem citar os Capitães da Areia, de Jorge Amado para poder ver isso) ou as agressões à natureza, como a poluição do mar que tanto amava…

Possuidor de intensa veia humorística, Adroaldo conseguia arrancar facilmente risos dos seus interlocutores com suas “estórias”, oriundas, segundo ele próprio, dos personagens de sua infância recheada pelos livros que coloriram sua fértil imaginação. No jornal, muitas de suas crônicas traziam essa característica espirituosa, como Não entendo”, Os pés e os sapatos”, “Balão” e “O caso do Charuto”, todos de uma espontaneidade que somente este grande representante da crônica, na Bahia, foi capaz de legar.

Contudo, posso afirmar que Adroaldo foi melhor no falar de si mesmo. Não na verborrágica e nada humilde tentativa de se auto-engrandecer. Não é isso. Ninguém foi tão sensível em retratar com poética nostalgia a sua própria existência, tecendo com a tinta das lágrimas da saudade os seus dias meninos, como o fez Adroaldo. Deixando de lado a decisão do anonimato comum entre os cronistas, Adroaldo resolveu seguir o caminho contrário, como ele mesmo disse: “Pensei, então, que deveria decidir logo sobre o rumo que imprimiria a estas crônicas. Poderia colocar-me na posição impessoal do cronista que apenas se propõe a divertir e comentar, mas não se põe dentro do que escreveu. Mas preferi o caminho oposto: eu deveria pôr-me, de corpo inteiro, nestas colunas.” – Grifo meu.

E o fez exatamente como o dito acima: crônicas como o Menino do retrato, A mesa vazia, Amoroso, O carrinho de louça e tantas outras páginas, embargadas de emoção e sincera nostalgia pelos dias antigos do passado, no dizer de Carlos Heitor Cony.  Adroaldo, em síntese, foi aquele que não temeu mostrar-se como era, trazendo ao leitor não a tentativa de parecer sem ser, mas, ao invés, pintou o seu retrato com a tinta do coração, não se importando em parecer fraco, imperfeito, humano…

O grande homem que jamais esqueceu-se de ser criança, que adorava ler Monteiro Lobato, que também não desprezara a crônica esportiva e o ser torcedor de coração do “Baêa”, foi mestre em divertir as crianças. Para sempre suas maiores contribuições, a Hora da Criança e a peça Narizinho – adaptação teatral da personagem de Lobato – vinda do Sítio do Pica Pau Amarelo serão lembradas, ao menos pela Salvador que Adroaldo tanto amou. Muitos escritores talentosos marcaram suas épocas e as gerações seguintes com personagens e lugares frutos de uma fértil e criativa imaginação. Adroaldo marcou seu tempo apenas com o que tinha de melhor: saber viver.

Por Pê Sousa

 

Nota: Adroaldo Ribeiro Costa nasceu em Salvador no dia 13 de abril de 1917 e passou quase toda a infância em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Formou-se na antiga Faculdade de Direito da Bahia em 1936, sem nunca advogar. Exerceu a profissão de professor e fundou uma escola que hoje leva seu nome. Foi, ainda o autor do Hino do Bahia, do programa “A Hora da Criança” e produziu diversas peças teatrais, se destacando a peça “Narizinho”. Adroaldo publicou, em 25 anos e dois meses de profissão, a impressionante marca de 7.200 crônicas, mantendo-se ativo de dezembro de 1958 até 27 de fevereiro de 1984, quando faleceu devido a um câncer na laringe.

 

Dados biográficos extraídos do livro “Páginas Escolhidas – 200 crônicas e dois contos”, seleção, organização e introdução de Aramis Ribeiro Costa.

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charlles campos

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