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Posts Tagged ‘guri’

O tal paraíso

Perdido?

CONTA-NOS A BÍBLIA que o primeiro homem e a primeira mulher foram abolidos do Éden, o paradísico jardim criado pelas próprias mãos de Deus. A desobediência, personificada pelo desejo (e posterior prática) de degustar da árvore do conhecimento do bem e do mal custaram ao primeiro casal humano uma vida relegada de paz e fartuna. Ao invés da existência eternamente perfeita, eles passaram a extrair de suas próprias mãos tudo o que necessitassem para sobreviver. Eis o preço por sua inadvertida decisão.

Então penso no hoje que sou e no ontem que fui. Um descomunal hiato surge ao fazer esta comparação. Não pela quantidade de anos de vida acumulados, mas pela quantidade de erros cometidos e repetidos. Neste instante me esforço para recuperar, na memória, um pouco da lembrança do guri de outros tempos, um menino ainda envolto pelo manto da ingenuidade e pureza.

As lembranças, ainda que turvas, conseguem me fazer ver outra vez aquele menino. Bem lá para trás, ele existiu, e ainda posso vê-lo sentado, num fim de tarde,  na velha cadeira de balanço de macarrão verde, esperando por aqueles que iriam buscá-lo. Aquele menino não conhecia as densas e maquiavélicas maquinações da vida adulta; nem tampouco era capaz de criar ardilosos subterfúgios para manter a máscara que impedia os outros de vê-lo como é. Não. Aquele garoto pobre, nascido nas plagas piauienses, tinha tudo para se tornar um bom homem, a despeito de sua condição social desfavorável. Porque falta de recurso não é motivo para alguém esquivar-se das grandes virtudes exaltadas por tantos e tão grandes pensadores. Mas o que fê-lo ser  o que hoje é, foi resultado de suas escolhas, muitas delas equivocadamente decididas sob lampejos de puro hedonismo.

Então o menino se foi. Devido aos inevitáveis ditames da natureza, o menino partiu, dando lugar ao homem. Toda aquela casta ingenuidade fora trocada pelo conhecimento do bem e do mal, como citados lá na Bíblia. Vieram as ardilosas mentiras, os asquerosos enganos, e daí os erros advindos, que se acumularam por tantos anos. O bom menino transmutara-se em homem. Homem imperfeito, mais afeito ao que sua natureza impura anseia do que sua pronta consciência condena. “Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?”, me lembra os versos bíblicos de Jeremias 17:9. Saberei eu mesmo quem sou?…

Talvez por isso mesmo eu tenha perdido meu paraíso. Não me refiro àquele, da Bíblia, repleto de árvores frutíferas e transbordantes mananciais de água pura. Estou falando de uma consciência tranquila, benigna, desprovida dos calos da falta de virtude. Estou falando de ser uma bona persona, alguém empenhado na busca incessante das virtudes e que sinta-se livre dos pesados fardos da condição humana; alguém livre dos monstruosos ditames causados pelas máscaras que teimo em usar; alguém livre para amar.

Ao que me lembro aquele casal jamais voltou para o paraíso, pelos menos é o que está escrito na Santa Escritura. Também não sei dizer se eles buscaram ser melhores do que foram quando preferiram decidir suas próprias escolhas. O que dizer de mim mesmo? Sei que nunca mais voltarei a ser o pequeno guri, que olhava a tarde ir-se devagar, à espera dos seus. Mas sei, também, que a busca pelas virtudes, o que há de bom no mundo, depende unicamente de uma escolha partida de mim…

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Eu, radialista?

Apresentando o programa de rádio "O Shofar"

MINHA VIDA SEMPRE FOI um desafio. Desde pequeno, por causa de uma falha dentária estética, fui obrigado a nunca sorrir. No máximo, a sorrir disfarçadamente, impedindo que as pessoas percebessem o meu problema ortodôntico.

Também obriguei-me a pouco falar. Evitava as rodas de amigos, preferia o silêncio salvador dos livros, estes sim, meus amigos mais achegados. E que época aquela, em que podia ficar deitado à sombra da mangueira vasta que cobria todo o nosso quintal. Era ali o meu refúgio, onde me perdia nas  histórias que meu olhos insistiam em devorar. Foi ali que aprendi a buscar outras formas de felicidade.

Mas, um dia a gente cresce. Vem, com este fato biológico, os ditames da natureza, a necessidade de comunicar-se para se conseguir algo. Neste algo subentenda-se também as coisas do coração.

Tive que falar! Abrir a boca, até então um grande dilema, era a única forma de poder dizer da minha existência, da necessidade de participar da vida, de tecer com o fio humano, os detalhes de minha própria vida. Sim, eu tive que falar.

Vieram novas chances e formas de expressão. Veio a menina-mulher que hoje faz parte da minha vida, veio também a necessidade de me expôr e mostrar meu potencial profissional, até de falar para um público além das minhas possibilidades vocais utilizando, para isso, um útil instrumento: o rádio.

Bem, vencida a barreira estético-ortodôntica, um dia tive a chance de praticar radialismo amador. Que pânico, meu Deus. Um vexame só, e de repente me vi suando diante o microfone que aguardava minhas palavras tímidas e incertas.Graças a algumas pessoas, especiais para mim, pude desvencilhar-me da carapaça da timidez, dos receios, tanto que hoje me considero alguém que interage com os outros...

Passados alguns anos, me revejo ainda guri, o mesmo garoto sem confiança, sem atitude, que abriu mão de tantos amores infantis por não poder sorrir. Esse menino, perdido nas suas ilusões literárias, buscou o isolamento como forma de proteção, o silêncio como uma auto-imposição social, o vazio como objeto de inspiração.

Mas, um dia resolvi quebrar todas estas barreiras, que de certa forma, impediram minha felicidade. Elas foram boas até o ponto em que ou eu decidia me permitir viver ou simplesmente, desistir-me.

Ainda bem que escolhi a primeira opção.

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charlles campos

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