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Leitura 24/2020

A cidade solitária [2016]

Orig. The lonely city: Adventures in the Art of Being Alone

Olívia Laing (UK, 1977-)

Editora Anfiteatro, 2017, 304 p.

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“E a dor dos outros? É mais fácil fingir que não existe. Mais fácil se recusar a fazer o esforço da empatia, acreditar, em vez disso, que o corpo do estranho na calçada é simplesmente uma imagem processada em computador, uma acumulação de pixels coloridos que deixa de existir quando viramos a cabeça, mudando o canal de nosso olhar” (Posição no Kindle 3215/77%).

“Há muita coisa que a arte não pode fazer. Não pode trazer os mortos de volta à vida, não pode remendar brigas entre amigos, ou curar a Aids, ou conter o ritmo das mudanças climáticas. Mesmo assim, a arte tem funções extraordinárias, uma estranha habilidade de negociação entre pessoas, incluindo pessoas que nunca se encontram, mas que se infiltram na vida umas das outras e a enriquecem. Tem uma capacidade de criar intimidade; tem uma maneira de curar feridas e, melhor ainda, de tornar evidente que nem todas as feridas precisam ser curadas, e nem todas as cicatrizes são feias” (Posição no Kindle 3546/85%).

Cheguei ao livro unicamente pela capa, já que nada sabia da autora nem do que se tratava. Nesses tempos de pandemia, quarentena e lockdown, foi natural o interesse em ler um livro com capa e título tão chamativos.

Em “A cidade solitária” a escritora britânica Olívia Laing narra o período em que se “refugiou” em alguns dos bairros de Nova York, uma diacrônica experiência solitária em uma das cidades mais populosas do mundo. Ela começa falando sobre como a solidão é um elemento real e presente na vida das pessoas, sobretudo em tempos onde todos buscamos construir as relações com outras pessoas através do confortável e seguro distanciamento provido pelas telas retroiluminadas de nossos smartphones.

Mas ela vai além, adensa sua prosa dinâmica e galante adentrando o universo de alguns artistas, como Edward Hopper, o supremo pintor da solidão americana, a cujas pinturas – olhares atentos aos pormenores de um abajur acesso – são as minhas preferidas ao lado das de Monet, tudo para falar como a cidade, apesar da dicotomia existente num lugar superpovoado, pode ser fatal para a evisceração dos indivíduos. Para embasar sua ideia, parte de episódios da vida de Hopper, já citado, do multiartista Andy Warhol, de quem já ouvira falar mas sem saber muito sobre suas peças e serigrafias, e outros a cujos nomes nunca havia ouvido antes, como o excêntrico cantor lírico Klaus Nomi, do escritor outsider Henry Darger, do pintor, escritor e fotógrafo David Wojnarowicz, da cantora negra Billie Holiday. Todos grandes e talentosos artistas. Todos com algo em comum: o sentimento de, por causa dos desajustamentos íntimos que levavam, eram tidos como problemáticos, excêntricos, incomuns e, por se sentirem como párias em seu tempo, usaram da arte como uma forma de linguagem que os permitisse se sentirem parte dos demais.

Entremeando experiências pessoas, Laing discorre largamente sobre esses artistas. O leitor é apresentado a trabalhos surpreendentes na pintura, na música, na colagem, na arte publicitária, na literatura. Particularmente me chamou a atenção sobre o “caso” de Henry Darger, um faxineiro que nas horas vagas coletava e acumulava objetos no lixo da cidade. Nesse ínterim, compôs painéis, montagens e também um livro com cerca de 16 mil páginas que retrata um universo paralelo onde abundam elementos sensoriais, violentos e de certa forma desconfortantes mostrando crianças sendo abusadas, o que foi considerado como fruto da mente de um pedófilo. Mas Darger na verdade buscava a paz com seus próprios fantasmas, retratando sua própria experiência quando criança numa espécie de orfanato. O livro um primor segundo a autora, só foi descoberto depois da morte de Larger, aliás algo tão comum com tantos artistas que, por não terem o reconhecimento devido em vida, se tornam estrelas da noite para o dia, um reconhecimento tardio e canhestro.

Warhol talvez seja o caso mais famoso, mas nem por isso, menos dramático, citado no livro de Laing. Ele buscou na arte que produziu, entre colagens, filmes e arte publicitária, disfarçar o enorme desconforto que sentia por sua natural excentricidade. Se não bastasse sua aparência, feia para os “padrões”, e que ele disfarçava com maquiagem e perucas, ainda sofreu uma tentativa de homicídio que o obrigou a usar cintas pelo resto da vida, para suportar as sequelas que a bala deixou em seu abdômen, disparada por uma outra artista, a militante feminista e lésbica Valerie Solanas, que não soube lidar com sua essência singular e o fracasso de sua obra, tida como excêntrica demais.

Cada pessoa citada no livro, todos artistas, alguns famosos e outros não, buscaram, segundo a autora, uma forma de pertencimento numa época em que ser gay, ter contraído Aids (então sem tratamento) e ser “diferente” eram elementos causadores de reclusão, de isolamento. Não bastassem toda uma carga de preconceito, dos olhares canhestros, da intolerância, esses personagens tiveram de improvisar, através da arte que produziam, maneiras diferentes de mostrar sua face, de cativar olhares mais amigáveis e calar o silencioso grito da necessidade de aceitação que todos uma vez ou outra temos. A cidade não é exatamente o lugar do acolhimento sendo, antes, o produtor de humanos cada vez mais perdidos, cada vez mais desfigurados em suas matizes, cada vez mais sozinhos estando rodeados de outros humanos. É um livro bonito, poético, mas que emana uma sútil dor, um coro sussurrado dos desvalidos, dos que se perderam de si mesmos, dos que foram obrigados a engolir sua verdade mais íntima a fim de produzirem personagens com os quais poderiam ser capazes de atingir a coexistência e lidar com a sociedade feroz que os criou e os afastou do seu seio. Belíssimo livro, essencial, eu diria.

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