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Archive for the ‘Memória’ Category

Casa Havaneza, no Chiado, em 1871, um dos locais visitados pelos personagens de Os Maias.

Casa Havaneza, no Chiado, em 1871, um dos pontos de encontro visitados pelos personagens de Os Maias.

CONCLUO A LEITURA DE OS MAIAS, depois de abandonar o clássico realista do escritor luso Eça de Queiros por duas vezes. Conheci o Eça há alguns anos, quando li outro livro seu, O primo Basílio. Se à época, ficara enlevado por aquelas páginas, muito mais agora, depois de não sei por que frustradamente abandonar Os Maias por duas vezes conseguir, enfim, percorrer os parágrafos descritivos da sociedade lisboeta do século XIX.

Mesmo que alguém nunca tenha lido o livro, certamente estará familiarizado com seu enredo, recentemente adaptado para uma minissérie televisiva. Conta, basicamente, a história do amor incestuoso entre os descendentes da terceira geração da família Maia, Carlos e Maria Eduarda. Os dois, irmãos consanguíneos, foram separados ainda bebê, quando a mãe, Maria Monforte, fugira com um italiano, abandonando o marido, Pedro da Maia e o filho Carlos.

Um enredo assim seria lugar-comum, não fosse o magistral talento queirosiano. Eça era um escritor refinado, seus textos são embargados de uma solar crítica ao clericalismo, à hipócrita burguesia lusitana – de quem era profundo conhecedor – que se gabava em ostentar falsos valores morais. E como era irônico, o Eça! Agora mesmo, me recordo com um começo de sorriso das peripécias de Teodorico Raposo, o caricato personagem de A Relíquia, outro Eça que li não faz nem um ano.

Mas é em Os Maias que concentro minha atenção. Sobretudo à parte final, quando Carlos, depois de alguns anos de exílio, retorna a Lisboa e, junto com seu amigo fiel Ega, erra pelas ruas lisboetas, numa tentativa pueril de ver uma Lisboa que não mais existe. Enquanto caminham contemplando as fachadas decaídas que testemunham a decadência de outros tempos, vão rememorando “aqueles” anos, quando sonharam fundar um jornal de vanguarda; depois publicarem a tão aclamada Memórias de um átomo do Ega e as impressões pessoais de Carlos no seu volume Medicina Antiga e Moderna; os intensos e ardorosos amores vividos pelos dois amigos e que, sem saberem por que, acabaram fadados à mera lembrança. “Falhamos a vida, menino”, conclui Ega…

As ilusões perdidas de Carlos e Ega. Gosto desta expressão. É terrivelmente sombria; mas incontestavelmente bela também. Como algo que causa dor ou mesmo, na melhor das hipóteses, um leve desconforto, pode, junto, trazer uma doce saudade, uma bestial necessidade de desenterrar essas lembranças? É o caso das ilusões perdidas. Todos as temos.  Mas poucos os que decidem mantê-las vivas.

É o meu caso. Carrego comigo uma considerável bagagem de ilusões perdidas. São extratos de vários períodos de minha vida, alguns já resolvidos, outros ainda a cobrar o legado de equívocas escolhas. Em viagem recente, no reencontro com meu irmão Beto, parceiro de muitas delas, depois de um hiato de 17 anos, pusemo-nos a rememorar algumas de nossas ilusões perdidas. Era fim de tarde, estávamos sentados no banco da antiga estação ferroviária, como a esperar por um trem que sabíamos, nunca viria. Mas não as lembranças, aquelas perdidas. Elas sim nos levaram para outras épocas, quando eram outras nossas dúvidas, e tênues nossas certezas. “Vivemos muita coisa, concorda?”, ele me pergunta. “Sim”, concordo. Era verdade, muita coisa vimos e vivemos, e acabaram transformando-se num punhado de ilusões perdidas.

Então penso, só comigo, recordando as palavras de Ega: “Sim, não podemos negar, mas tivemos uma péssima estréia.”…

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NADA ERA MAIS IMPORTANTE PARA NÓS DO QUE O CAFÉ. Alberto e Jairo podem atestar! Se sonhávamos com nossos projetos que a vida preferiu mantê-los inconclusos, se nutríamos uma ausência particular em nossos corações platonizados por amores improváveis, se buscávamos uma “perfeição amadora” nas músicas extraídas do violão de cordas desafinadas, se passávamos noites contemplando o surdo mistério da ausência, se preferimos desistir de nossos sonhos pueris, se a partida tornou-se um evento inevitável para estes três destinos fugidios, se, (…), bem, se julgávamos que viveríamos aquele sonho que foi a velha casa dos meus idílios, as sempre presentes xícaras de café podem perfeitamente atestar que uma amizade é mais do que farras, bebedeiras ou extravagâncias: são também construídas no silêncio cultuado por companheiros que aprenderam a contemplar de forma poética a vida. E isso nos bastava…

Mas percebi, que mesmo num comentário de há dois anos, não foi apenas a casa, sua poética e insistente evidência, as canções que compomos (e que acho, só eu ainda as toco!) nem muito menos as leituras complexas de Platão e dos demais “antigos” restaram; por trás de cada xícara de café, um sempiterno evento nos aqueceu mais que o líquido negro e fumegante; um abraço de saudade, de nostalgia nos envolvia complemente num banho de assombro e pasmo. A mais poética lembrança, a mais simplória confidência, o mais musical retrato de tudo que fizemos irá perdurar. E isso – tenho certeza – continuará nos bastando.

Ao dileto trio que configurou estes vícios, entre eles o café…

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tempos em que tudo era durável...

COMPREI, recentemente, uma TV nova. Bem fina, full HD, ausência de botões e uma infinidade de funções, muitas delas um verdadeiro desafio para tecnologicamente inábeis como eu.

Enquanto quebro a cabeça para entender como fazer o troço exibir as imagens, penso no velho “tubo” que tínhamos em casa, lá na Floriano do final dos anos 80. Era uma TV da marca alemã Telefunken (creio que esta marca deixou de produzir Tv’s, ou até mesmo deixou de existir!), bem ao estilo: caixa de madeira, três pequenos botões e o grande seletor na frente do lado direito. Me lembro particularmente de um botãozinho que ficava atrás da Tv, que servia para “parar” a imagem, quando esta ficasse rodando com aquelas listras que atormentava todos justamente nos momentos decisivos dos programas que assistíamos.

Mesmo a imagem em preto e branco não tirava a magia que era assistir a TV. Crianças que éramos, não perdíamos por nada a programação infantil, naquela época bem mais interessante que a que as crianças hodiernas são obrigadas a suportar. Só para citar os quesitos qualidade e criatividade, o que se vê hoje na TV muito deixa a desejar quando penso na “Vila Cézamo”, nos “Mupetts”, na versão original do Sítio do Pica-pau amarelo e na programação da antiga Rede Manchete, onde vi a ascensão dos seriados japoneses, como Jaspion, Jiraia, entre tantos…

Foi ainda na nossa velha Telefunken que assisti a boas cenas de amor  nas novelas veiculadas – quando ainda as assistia. Para um jovem adolescente, era o ingrediente perfeita para minhas intermináveis digressões nas tardes que passava à beira do “cano”. Ficava absorto com as histórias novelescas, marcadas na minha lembrança pelas músicas que acompanhavam o desenrolar do folhetim. Dessa experiência cultivaria anos depois o hábito de dormir com um rádio de pilhas ao pé do ouvido, sintonizado numa emissora que tocava as músicas das antigas novelas que assistia. Foram muitas as noites, várias delas insones, onde, já deitado, sentia o peito arder de uma inexplicável saudade e exausta solidão, sob o som de músicas como a canção italiana Al dilá, de Emílio Pericolli. Nessas ocasiões, me deixava levar pela maré inexpugnável de lembranças, quando revia caminhos feitos por mim, nem sempre repletos de cor e vida, mas muitos deles embargados por uma cinzenta sensação de perda e vazio…

A TV recém comprada, que me chateia com tantos dispositivos, muitos dos quais nunca irei usar, me faz pensar em algo mais soturno, porém, verdadeiro: em como tudo hoje em dia é feito para não durar. Utensílios de uma casa, que antes duravam várias décadas, hoje não duram cinco anos; brinquedos que se levavam consigo por uma vida inteira, são facilmente quebrados. O que dizer sobre isso?  Que o preço do desenvolvimento traz consigo uma voraz consequência: as lembranças, assim como quem nada pode sentir, é tragado pelo ostracismo, um monstro intangível que tanto estrago faz para a memória…

O que dizer de tantas outras coisas, que acabaram sendo substituídas por outras mais novas e menos duráveis? Assim como a velha TV, que ficou para trás como um símbolo imortalizado de um tempo onde a vida corria mansa e os dias eram tranquilos, às vezes tenho a impressão que, ou fui eu que me tornei descartável ou o pior: sou um ser efêmero, uma figura de outros tempos deslocada no atual, destoando de um agora tão profundo como a superfície de um pirex.

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instrumento do mal?...

NÃO É NOVIDADE, O TEMPO é o maior inimigo do passado! Aquilo que agora é o deixa de ser daqui a um segundo, me lembra o verso da música de Lulu Santos. Também as lembranças são profundamente avariadas pela passagem deste ser invisível que mexe com a cabeça de muita gente. Cada dia elas perdem um pouco de seu colorido, de sua textura; no máximo uma imagem amarelecida e borrada se preserva nos recônditos de nossa memória…

O tempo é implacável! Sua maior vítima é a lembrança. Sei disso e essa certeza me tolhe um pouco a alegria de tempos há muito passados. A cada novo dia me lembro menos do guri desse outro tempo. Quase é impossível enxergar neste emaranhado de lembranças velhas e carcomidas a face pueril do eu que um dia fui. Aquele mesmo guri que se brindava com tardes alegres à sombra das mangueiras no imenso quintal da casa antiga. Restou apenas a imagem cansada do eu de agora, borrada também por lágrimas e delírio. O guri se foi. E agora não passa de um velho slide mental!…

À passagem do tempo estamos todos condenados. Ou será redimidos? Porque o nosso atual modus vivendi nos diz para correr, correr ainda mais, para não perdermos tempo, pois o tempo passa. Perdermos tempo? Não há maior engano do que nessa afirmativa. Porque não perdemos tempo nessa nossa vida louca; perdemos é a vida quando desperdiçamos tempo. E o tempo jamais será benevolente para os desavisados. Deles serão arrancados a mocidade, a realização, a esperança. Viverão uma derrocada pessoal, rumo ao abismo do esquecimento…

Eu por mim tenho desafiado o tempo. É uma luta desigual, ridícula até. Mas nego-me a cruzar os braços, ao invés ofereço-me como mártir de mim mesmo nesse embate claudicante. O faço me refugiando nas velhas lembranças, nos dias mais antigos do passado. Esta é minha forma de revolução, minha resposta à ordem de esquecer: olhar sempre para trás e ver ainda a velha casa dos meus idílios, a roda de amigos cantando canções saudosas que Alberto extraía do seu violão sentimental; sentir o hálito fresco das tardes serenas sob a sombra da “castanhola”; me embrenhar por mundos surreais e aventuras incomuns nos livros que sempre me rodearam; viver as madrugadas regadas a café e waffer, ou adormecer ouvindo Emilio Pericolli cantar Al dilá do meu radinho amarelo…

Quanto ao guri, o tempo tem vencido, pois já não é possível revisitá-lo. O que posso fazer é contemplar dia após dia a morte derradeira duma época quando não tinha medo da passagem do tempo. E pensar como era bom esperar um novo dia.

 

 

Crônica repentinamente encontrada em meio a papéis avulsos…

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perdido junto ao tempo...

ME LEMBRO BEM: foi nos idos da década de 80 que o fato aconteceu. Mas, a despeito de tão grande e grave desgosto, aquela foi uma época particularmente feliz para mim. Não havia as preocupações que me torram a paciência; de difícil mesmo só as horas livres para brincar, extraordinariamente encurtadas pelo período escolar.

Ainda assim, parecia que os dias caminhavam num passo frouxo, fazendo com que a época mais esperada do ano – o Natal, evidentemente – demorasse uma eternidade para chegar. Significando que os tão desejados brinquedos novos não estariam nas mãos de crianças ávidas antes do recesso escolar!

Mas, enfim, o dia chegou. E com o início daquela manhã nublada eu me deparei com o embrulho enfeitado com palhaços de narizes rosados. Nem deu tempo de examinar seu conteúdo, já fui logo rasgando o invólucro que envolvia meu brinquedo ardentemente esperado. Meus olhos de guri faminto brilharam ainda mais ao contemplar nas minhas mãos aquela miniatura de carro. Um carrinho! E como era lindo, o meu carrinho… com aquelas rodinhas que giravam, as portas que abriam e tinha até um bonequinho sentado ao volante! De fato, foi um Natal diferente, o daquele ano. Papai Noel definitivamente não se esquecera de mim…

Mas logo as férias de fim de ano foram se findando, o novo ano escolar apontava, então eu aproveitava o máximo para brincar com meu carrinho irado. Os guris da rua onde residia ficavam babando o carrinho que só eu tinha, como se ele fosse um delicioso sorvete de chocolate com cobertura de doce de leite. Mas apenas um grupo seleto – de amigos –  tinha acesso ao carrinho, quando no máximo eu permitia que tocassem nele. Por isso, passei a ser uma espécie de figura pública do bairro, sendo invejado pelos outros garotos, que desejavam brincar com meu “veículo particular”.

Foi num fim de manhã que a tragédia aconteceu: eu brincava solenemente em frente à casa de meus pais, como sempre, rodeado pelos garotos que pleiteavam alguns instantes com o brinquedo. Não sei porquê, adentrei a casa, buscar algo ou fazer algo, disso não me lembro bem. E, de súbito, um frio correu-me à espinha quando me lembrei de ter deixado o carrinho na calçada de casa. Corri o mais que pude até chegar portas afora mas…

Tarde demais! O carrinho, o meu carrinho querido fora surrupiado. Ao mesmo tempo que sentia os olhos encherem-se de lágrimas de raiva e desespero, disse os mais diversos impropérios (possíveis para um guri de minha idade) aos garotos que ali estavam, na minha opinião todos suspeitos daquele ato tão nefasto. Em vão. Não saberia descrever o cinzento dos dias seguintes sem a companhia do meu carrinho. As aulas recomeçaram, mas então eu já era um guri sorumbático.

*   *   *

Meses se passaram. Perdera de todo a esperança de encontrar meu carrinho. E foi que meu pai foi visitar um amigo seu, que morava três quarteirões rua acima. Me levou consigo. O amigo nos levou ao seu quintal, bem abastecido de árvores frondosas. A cerca de arame farpado dividia o terreno com o campinho onde jogávamos nossas peladas. Bem rente à cerca havia um monte de coisas velhas, mas algo me chamou a atenção. Fui lá conferir até me dar conta de que era a carcaça de um brinquedo velho e bem maltratado. Tomei-o em minhas mãos, a a certeza já rente aos meus olhos: meu carrinho, antes furtado num fim de manhã dos anos 80 acabara tendo um fim trágico: mais um pedaço de mim, da minha infância quase perdido, que se definhara nas mãos gatunas de algum guri de índole má, perdido ali naquele montão de coisas imprestáveis…

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antídoto do fim...

PABLO SORVE O CAFÉ saboroso, preparado na cafeteira elétrica. O apartamento do 17ª andar começa a ser invadido pelas primeiras sombras do fim do dia. Sentado na varanda, vê ao longe os prédios manchados pelo alaranjado do sol que se põe. Daqui a pouco serão apenas torres cravejadas de luzes brancas, amarelas e azuladas.

Dá uma última olhada no livro pousado em seu colo. O “Retrato de Dorian Gray” tem sido um bom passatempo nesses dias de puro ócio.  Tira um cigarro do maço e, entre tragadas demoradas, contempla o horizonte. Sair de sua rotina massacrante foi, de fato, uma boa ideia. Os dias insípidos, repletos da dura rotina das grandes metrópoles, ficaram para trás.

Ali, num ponto remoto de Fortaleza, sentia-se livre. Podia acordar bem tarde, fato que desesperavam as camareiras que buscavam adiantar seus afazeres; para intensificar o seu  protesto contra as regras, pedia o desjejum incomum em hotéis como o que estava: torradas com chocolate, ao invés de café.

Após comer, dava uma rápida caminhada pelo calçadão, os olhos perdidos na imensidão aquático-azulada do Oceano Atlântico. Uma música do iPod tornava estes passeios ainda mais lúgubres. E era disto que gostava… Em algum ponto, sentava-se sob a sombra de coqueiros levados pela dança de um vento fresco, sacava o livro e punha-se a se perder por lugares ainda mais distantes e remotos. Pairava no ar um gosto salgado de saudade. Era uma saudade prematura, por saber que logo teria de voltar para os dias sem graça que consumiam sua mente e espírito; voltaria a ser o mesmo Pablo, perdido nas suas más escolhas, farto das banais relações que o arrodeavam, envolto pelos fantasmas que o atormentavam, cobrando um legado de dor, vazio e nada…

Agora, ali, sentado na varanda, vendo os prédios serem envoltos por luzes noturnas, sentiu vontade de estar com Jairo e Alberto, os seus amigos alhures. Com certeza Alberto sacaria do seu violão, e dedilharia, naquele fim de tarde, canções que falavam de tantas coisas: da certeza de que tudo na vida resumia-se a mistério, dor, desilusão e fim; dos amores incompreendidos e que, por nunca terem se tornado reais, iriam imortalizar-se no ideário quimérico de suas vidas. Pablo esboça um sorriso ao lembrar do amigo: a figura esguia e magra, o cigarro pregado no lábio inferior, a barba de vários dias, o cacoete habitual quando iria dizer algo sério, as mesmas ideias ditas sempre de forma diferente. Em algum momento Alberto partiu, deixando atrás de si um rastro de vazio marcado por sua ideologia atéia. Que Deus o tenha, pensa Pablo ao imaginar o amigo horrorizando-se ao ouvir aquela frase tão embargada de fé e misticismo.

Jairo não teve destino diferente. O único entre os três que possuía um talento singular, tanto musical quanto literário. Em algum instante fora traído pela própria dependência de seu corpo esquálido e maltratado. Jairo entregou-se à confusão mental de seus tantos sonhos. Jairo, Jairo, o que fizeste contigo?…

De alguma forma a liberdade era uma palavra com um significado singular para cada pessoa. Para Alberto, era poder não crer; para Jairo, entorpecer-se diante um mundo cruel. E quanto a Pablo, onde estava a metafísica da sua liberdade? Em desimpedidamente buscar a si mesmo…

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recordações perdidas no tempo...

LENDO A QUATRO MÃOS o livro de Tommy Tenney, A Casa Favorita de Deus, me vem à memória que eu mesmo tenho mantido na minha mais terna lembrança, a casa favorita dos meus dias meninos.

Era um lar bem simples. Pequena para caber todas as figuras paternas e filiais, ainda assim, éramos felizes. Apesar das muitas “farturas” sabíamos extrair de cada experiência dura da vida um motivo para divertimento, o combustível necessário para que a infância seja sempre este momento de elegias e epifanias…

Minha casa favorita permanece, para sempre, na minha memória fraternal. Nela vivi dias tranquilos, embalados pela brisa vespertina que refrescava as minhas primeiras experiências literárias, então já bem adiantadas em profundidade. Na sombra da grande mangueira, sentado na terra fria, vi as horas voarem, quase imperceptivelmente, tão compenetrado estava nas páginas que devorava com facilidade e rapidez. Descobri mundos diversos e fascinantes, intensamente coloridos, apesar de narrados a tinta preta. Sonhei amores improváveis, deitado na grande pedra que muitas vezes me consolou, apenas contemplando o lento vagar das nuvens do céu.

Mas nem tudo foi poesia, na casa. Impingido da dor da perda, vi o lar materno sendo destroçado, eternamente manchado pela crueza do ódio e do rancor, maculado pelos erros vários, donde somos origem e fim. A casa favorita também foi e é berço de solidão e perda…

O menino de outrora também amara muito, ali. Mesmo que esses amares fossem apenas existentes em meu próprio coração. Foram tantas as vezes que amei, sem que “minhas” amadas nem sequer soubessem desse sentimento que invadia minha paz e trazia o tormento do ser só.

Assim como inocente guri que era, na casa, também com o fim daquele sonho, aprendi o amargo legado da vida adulta: meu coração, antes tomado dos mais lânguidos sentimentos, fora invadido por outros, mais negros e amargos. Então, como amar?

Penso nos tantos desamores vividos. E me vem à memória a seguinte declaração, feita pelo eterno mestre Pitágoras: “Purifica o teu coração antes de permitires que o amor entre nele, pois até o mel mais doce azeda num recipiente sujo.”

Não poderia ter dito algo mais sábio.

 

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Eu, radialista?

Apresentando o programa de rádio "O Shofar"

MINHA VIDA SEMPRE FOI um desafio. Desde pequeno, por causa de uma falha dentária estética, fui obrigado a nunca sorrir. No máximo, a sorrir disfarçadamente, impedindo que as pessoas percebessem o meu problema ortodôntico.

Também obriguei-me a pouco falar. Evitava as rodas de amigos, preferia o silêncio salvador dos livros, estes sim, meus amigos mais achegados. E que época aquela, em que podia ficar deitado à sombra da mangueira vasta que cobria todo o nosso quintal. Era ali o meu refúgio, onde me perdia nas  histórias que meu olhos insistiam em devorar. Foi ali que aprendi a buscar outras formas de felicidade.

Mas, um dia a gente cresce. Vem, com este fato biológico, os ditames da natureza, a necessidade de comunicar-se para se conseguir algo. Neste algo subentenda-se também as coisas do coração.

Tive que falar! Abrir a boca, até então um grande dilema, era a única forma de poder dizer da minha existência, da necessidade de participar da vida, de tecer com o fio humano, os detalhes de minha própria vida. Sim, eu tive que falar.

Vieram novas chances e formas de expressão. Veio a menina-mulher que hoje faz parte da minha vida, veio também a necessidade de me expôr e mostrar meu potencial profissional, até de falar para um público além das minhas possibilidades vocais utilizando, para isso, um útil instrumento: o rádio.

Bem, vencida a barreira estético-ortodôntica, um dia tive a chance de praticar radialismo amador. Que pânico, meu Deus. Um vexame só, e de repente me vi suando diante o microfone que aguardava minhas palavras tímidas e incertas.Graças a algumas pessoas, especiais para mim, pude desvencilhar-me da carapaça da timidez, dos receios, tanto que hoje me considero alguém que interage com os outros...

Passados alguns anos, me revejo ainda guri, o mesmo garoto sem confiança, sem atitude, que abriu mão de tantos amores infantis por não poder sorrir. Esse menino, perdido nas suas ilusões literárias, buscou o isolamento como forma de proteção, o silêncio como uma auto-imposição social, o vazio como objeto de inspiração.

Mas, um dia resolvi quebrar todas estas barreiras, que de certa forma, impediram minha felicidade. Elas foram boas até o ponto em que ou eu decidia me permitir viver ou simplesmente, desistir-me.

Ainda bem que escolhi a primeira opção.

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Por algum motivo que não sei (nem quero!) explicar, resolvo republicar esta pequena crônica de outros tempos, produzida e exposta no meu primeiro blog. Apesar dos muitos erros, fiz – creio – coisas que merecem ser revistas. Como este singelo texto em homenagem à minha querida amiga Sheila Doias.


Não somos mais os mesmos...

E pensar que tanto tempo faz desde aqueles dias frios, de inverno, que vivemos juntos. Quando nos acalentávamos um ao outro ouvindo Watermark no pequeno toca CD enquanto invocávamos nossos sonhos mais bizarros. Pensar como era bom nos sentirmos assim, como criança, agindo de forma irresponsável diante a vida, vivendo o sonho de viagens imaginárias por lugares distantes, onde antigos mistérios desafiavam nossas quimeras.
Pensar que escolhemos cada tarde, onde pudemos construir mundos maravilhosos juntos, e de uma forma solta zombamos da vida, de suas limitações, suas convenções. Pensar que rimos tanto disso que, cansados e introspectivos, púnhamos a pensar na fragilidade de tudo, do ser humano, na tentativa de cedermos um pouco do nosso espaço ao outro, no fato de olhar dentro dos olhos e ver ali a resposta para tudo o que perguntamos…
Pensar que em poucos minutos percorríamos terras longínquas, marcadas por sinais que desafiam os tempos e os homens, outrora visitados por entes legados da invencionice ou não de querermos crer ou negar. E pensar que o pacto de sermos para sempre fiéis aos nossos ideais, à nossa própria revolução acabasse por fim definhando, assim como uma flor que, depois de irradiar beleza e mistério, murchou e se perdeu. E pensar que um dia seríamos não tão livres, mas simplesmente… adultos.
E quem pensaria que nossa forma hedonística de viver perderia a graça, o encanto, o oculto descoberto das respostas que nunca encontramos? Quem imaginaria, ora bolas, que o futuro nos transformaria, e seríamos, enfim, cooptados pelo capitalismo do consumismo descartável e da falsa noção de utilidade ao outro? Mas, para que?
E pensar que o elo que nos servia de lema e mantra se quebrara, assim como a tarde que nunca mais foi, com a velha casa, o vinho barato, a embriaguês mental e nossa espontaneidade à flor da pele. Pensar que tudo se foi, e o que restou, então? Apenas a aurora de um novo dia, que aos poucos nos faz ser menos nós mesmos…

A Sheila e seu jardim de rosas de pedra.

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Pertencimento

Read here!

O CAMINHO PARA A escola era o início de sua felicidade particular.

Os quarteirões iam sendo percorridos por passos ansiosos e cheios da habitual satisfação que o invadia todas as manhãs. Nem os pesados livros, acomodados na mochila jeans puída, eram incômodo diante do que logo, logo viveria. Naqueles dias, a escola era o único mundo que lhe trazia a indizível sensação de pertencimento.

Os corredores apinhados de alunos tinham uma poesia particular, oculta e, ao mesmo tempo, tão evidente. De um canto, simplesmente contemplava o vai-e-vem de garotos, de todos os tamanhos e cores, vivendo aqueles instantes que um dia seriam pedaços do pretérito, escrito aos poucos.  A fila da merenda amontoava-se cada vez mais, num empurra-empurra desorganizado e barulhento. Já num outro ponto do grande pátio, os garotos mais atrevidos proferiam, às meninas, frases melosas no intuito da conquista amorosa.

Em algum outro ponto estaria alguém observando-o também? Aquele pensamento trouxe-lhe certa inquietação.

Sua contemplação daquele instante o fez ficar nostálgico. De novo o desejo de pertencer, assim como cada menino que fazia parte do seu grupo, assim como os guris mais velhos que, de uma hora para outra, encontravam pela primeira vez o amor …

O sino apitava, avisando o início das aulas.

Devagar, caminhou para sua sala onde no alto do batente havia a plaqueta de fundo branco com os dizeres em azul: 5ª Série “B”. Acomodando-se na sua carteira, encontrou o bilhete. A princípio achou que aquilo era brincadeira dos seus colegas. Olhou para cada um, tentando encontrar alguma evidência da autoria daquela facécia sem graça. Em vão. Disfarçadamente, introduziu o misterioso pedaço de papel dobrado entre as páginas do livro de Geografia e leu seu conteúdo.

E logo o cheiro das folhas de papel, o pó do giz que se acumulava no chão próximo ao quadro negro, o barulho das carteiras sendo arrastadas, a confusão de vozes, as paredes apinhadas de trabalhos escolares, a vastidão de camisas de tergal branco com logotipo da escola no bolso, tudo isso perdeu a importância.

De repente, sentiu que alguém o observava. O seu desejo de pertencimento fora concedido.

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charlles campos

Impressões literárias e fotogênicas

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