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Archive for the ‘Janela da Alma’ Category

"Por trás da porta mistérios há..."

“Por trás da porta mistérios há…”

FORAM EXATOS 20 ANOS até decidir-me abrir aquele quarto. Não porque receasse encontrar ali algo inconcebível, ou mesmo absurdo. Era apenas o medo de enfrentar o passado, o mesmo medo que meu pai levara no peito e que jazia naquele pequeno cubículo há duas décadas.

Acredito que demorei mais que o esperado à frente da grande porta de carvalho. A chave dourada estava fria nas minhas mãos; ou então eram minhas mãos que transmitiam ao metal todo o torpor que o corpo sentia.

Olho para aquela chave, me lembrando das muitas vezes que a vi sumir no bolso de papai, sempre depois de sair daquele quarto hermeticamente entalado de velhas lembranças. Em todas as vezes que ele saia de lá estava mais cismarento, o olhar como que perdido em algum ponto do passado. Em mais de uma oportunidade flagrei-o com os olhos molhados – estivera chorando? – e aquele sofrimento incontido, solitário e mudo me abatia também. O que haveria naquele quarto, trancado há pelo menos duas décadas? Que poder os objetos ali sepultados tinham sobre o quase sempre inalterável humor do meu velho?

Numa ocasião, já quase perto do seu fim, papai falara-me de uma época de sua vida, quando ele fora completo. O tempo em que ele descobrira que os invernos podiam ser belos, em que não precisara mais ouvir o eco da sua solidão, uma época em que ele foi um “pertencente”. “Ao que, a quem, papai”, perguntei-lhe. Ele fitou-me bem nos olhos,e percebi-os marejados. “Não sei mais, filho. Acho que aquela lâmpada jamais devia ter-se apagado, mas foi o que aconteceu”, ele disse, a voz inaudível, quase um sussurro.

Alguns anos depois que ele se foi, soube que papai amara uma mulher, bem antes de conhecer mamãe. Não sei ao certo o que aconteceu, mas seja lá o que for, fe-lo se tornar um homem circunspecto, perdido nos seus devaneios, acostumado a fruir a solidão. Apesar de ser uma boa pessoa, papai acostumou-se a carregar uma dor que nem o tempo foi capaz de curar. Preferia passar seu dias de aposentado embrenhado na sua biblioteca, a inseparável xícara de café, esvaziada de instante a instante; o velho violão, presente do seu fiel amigo Alberto, pendurado na parede, como um troféu; a voracidade com que lia todos aqueles livros velhos e empoeirados, preocupava mamãe, que o obrigava a deixar o escritório e respirar um ar, segundo ela, mais saudável. Mas ele era um incorrigível. Era como se estar ali, perdido naquela vastidão de páginas amarelecidas, o protegesse do que ele mais tinha medo: a busca de si mesmo.

A porta. Uma profusão de sentimentos me invadem, diante daquela porta. Ao mesmo tempo que sinto que, de alguma forma, o que estiver ali dentro me pertence, agora que papai não está mais aqui; mas é como se também eu estivesse violando um segredo do qual sou indigno conhecer. Ao tempo em que a curiosidade me impele a adentrar o universo misterioso de papai, é como se ele estivesse me dirigindo um olhar reprovador ao que estou prestes a fazer.

Ele nunca revelou o que guardou ali por tanto tempo. Acredito que talvez Alberto e um outro amigo seu, esquisitão, acho que Jairo era seu nome, sabiam desse segredo. Mas desconfio que tenha a ver com seu amor do passado. Bastava saber o que…

Um sorriso esboça-se de meus lábios ao me recordar as tantas vezes que insisti com o velho para que me contasse o que mantinha guardado a sete chaves ali. Ficava irritado comigo, mas não mais que eu, que sentia uma curiosidade ácida corroer-me.

E agora a porta à minha frente, da qual possuo a chave. O que estarei esperando? Por que não introduzi-la ne fechadura, girá-la e acabar logo com tudo? O que me impede, afinal?

Então penso nele. Nas tantas vezes que saimos juntos, tomar sorvete, conversarmos na beira do cais, vendo o fim do dia perder-se com o céu alaranjado. Retrocedendo ainda mais, posso vê-lo me levando ao parquinho, onde ficava me vendo brincar no balanço, correr pela grama até as pernas não aguentarem mais. Ele estava lá, sempre esteve, disso eu tinha certeza. Quantas não foram as vezes que suas mãos paternais afastaram o medo, a incredulidade, a falta de esperança. Quantas vezes me senti mais seguro ao ouvir sua voz, ao chegar a casa. Mas, da mesma forma como o conhecia, também havia um lado escuro nele, que eu não conhecia. Essa faceta ficava mais evidente nas suas frequentes visitas ao quarto misterioso. Toda sua vida foi assim, um misto de presença e mistério. Até que ele partiu.

Entre o seu inventário está esta casa, onde viveu toda sua vida e onde vivi parte da minha. Levarei sempre boas lembranças desta casa, onde foram cristalizados quase todos os meus idílios. Conhecia a casa paternal nos mínimos detalhes, mas apenas o quarto misterioso de papai era-me negado acesso. E agora estou aqui, parado, sem saber o que fazer…

*   *   *

[Continua]

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NADA ERA MAIS IMPORTANTE PARA NÓS DO QUE O CAFÉ. Alberto e Jairo podem atestar! Se sonhávamos com nossos projetos que a vida preferiu mantê-los inconclusos, se nutríamos uma ausência particular em nossos corações platonizados por amores improváveis, se buscávamos uma “perfeição amadora” nas músicas extraídas do violão de cordas desafinadas, se passávamos noites contemplando o surdo mistério da ausência, se preferimos desistir de nossos sonhos pueris, se a partida tornou-se um evento inevitável para estes três destinos fugidios, se, (…), bem, se julgávamos que viveríamos aquele sonho que foi a velha casa dos meus idílios, as sempre presentes xícaras de café podem perfeitamente atestar que uma amizade é mais do que farras, bebedeiras ou extravagâncias: são também construídas no silêncio cultuado por companheiros que aprenderam a contemplar de forma poética a vida. E isso nos bastava…

Mas percebi, que mesmo num comentário de há dois anos, não foi apenas a casa, sua poética e insistente evidência, as canções que compomos (e que acho, só eu ainda as toco!) nem muito menos as leituras complexas de Platão e dos demais “antigos” restaram; por trás de cada xícara de café, um sempiterno evento nos aqueceu mais que o líquido negro e fumegante; um abraço de saudade, de nostalgia nos envolvia complemente num banho de assombro e pasmo. A mais poética lembrança, a mais simplória confidência, o mais musical retrato de tudo que fizemos irá perdurar. E isso – tenho certeza – continuará nos bastando.

Ao dileto trio que configurou estes vícios, entre eles o café…

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PABLO TEM UM LIVRO nas mãos. É um pequeno grande romance de Dostoiévski, Noites Brancas. Não é exatamente o conteúdo que lhe chama a atenção, embora tantas vezes o tenha lido (era capaz de citar de memória várias passagens, para ele sublimes e necessárias). Mas a dedicatória na primeira página, escrita naquela inconfundível caligrafia de escolar, miúda e caprichada. Sentado no apartamento vazio, diante daquelas intragáveis palavras, a sensação de que seu mundo desabara é mais latente, um insistente sussurro, vindo diretamente daquelas breves palavras, como que a bradar sua dor.

“Para Pablo. Espero que goste, mas quem dera ser eu dona dessa resposta…

Sempre com amor, E.”

Ele tem diante de si a prova da sua própria ruína. Contempla num misto de êxtase e culpa aquela sentença enigmática – ela sabia – só ele seria capaz de decifrar. E por isso mesmo não tira os olhos daquela funesta dedicatória, que encerra o momento em que sua inconformidade se tornou maior do que ela…

Impossível não recordar os momentos felizes. Como da vez em que a levara para ver o por do sol no cais (um de seus lugares favoritos) e acabaram surpreendidos com uma forte e rápida chuva que os deixou encharcados; ou da vez que tocou ao piano uma música composta de improviso, os dedos nervosos engolindo as notas, em dado momento sendo interrompidos pelo toque de suas mãos. Uma ponta de sorriso ameaça aparecer, mas logo morre, sufocado pelo momento do fim. E então vê diante de si a noite fria, a lâmpada solitária embalada pelo vento, as palavras de desespero jamais ditas, de como virou-lhe as costas enterrando de vez a última esperança que havia, o exato instante em que tudo pifara, como toda sua vida. Enterrou-se num bar, um dos poucos abertos àquela hora e bebeu até adormecer, sozinho no balcão, numa tentativa de afogar em álcool toda aquela dor que consumia seu ser…

Ao voltar, não era só o apartamento que estava vazio: gavetas, cabides, armários, a estante desvencilhada dos porta-retratos e livros prediletos. Dali em diante teria de seguir só…

A tarde vai-se findando. Algumas sombras vão ficando espessas e maiores. Pablo sente-se exausto; sentia-se sempre exausto, as forças exauridas pelas lembranças, agora trazidas por aquela dedicatória cruel que tanto e nada tem a dizer. Por um instante pensou em Jairo, nas suas grandes frases de efeito, ditas com seu peculiar sotaque paulistano. Muitas acabou ele mesmo incorporando, citando-as como jargões que encerravam grandes e profundos dilemas. Foi uma deles, certamente, a base originária daquela dedicatória sombria e extravagante, muitas vezes repetida por Pablo: “quem dera fôssemos donos de nossas próprias respostas”. Não podia haver nada mais sábio.

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Amor e tragédia

"Tragédia não é o amor acabar, é sequer insistir no começo dele." Carpinejar

A MANHÃ MAIS FRIA e orvalhada da chuva noturna combinava exatamente com o que sentia: paz. Ao despertar não fez como de costume, levantando num assomo, como se estivesse permanentemente atrasado. Ao invés, ficou deitado um bom tempo ainda, admirando o corpo dela, sob um lençol suavemente embalado por sua respiração tranquila e segura.

Uma onda de carinho tomou seu olhar, fê-lo estender a mão e tocá-la, num gesto e intenção que não se lembrava de ter feito há muito tempo. Seu desejo era poder ficar ali, deitado ao lado daquela mulher que tanto amava e que tão pouco sabia dizê-lo. Quanto a decepcionara? Ao pensar nisso uma sombra passou por seu olhos, relembrando as conversas monológicas dos últimos dias; palavras que feriam mais que tapas e socos…

Quem podia imaginar que quase desistiu, que queria mandar tudo às favas e sumir como um louco vagando sem rumo certo? Mas não é assim o amor? Misto de tragédia e redenção?

Vendo-a dormir tranquila daquele jeito nem parecia a mulher amarga de dias atrás. Que utilizava dos seus hábitos sociopatas para feri-lo, diminuir-lhe o prazer pelo silêncio e ócio que cultivava religiosamente nos dias que se seguiam. Mas agora era diferente. Apurou a audição e escutou o leve ressonar de sua respiração; aquela não era a melhor sinfonia que se podia ouvir, a música de uma mulher feliz?

Consultou o relógio. Logo teria de sair para trabalhar. Pé ante pé, foi para o banheiro, onde tomou um banho rápido e fez a barba, aproveitando o vapor da água quente e revigorante. Vestido, aproximou-se da cama, fitando-a por alguns instantes. Deu-lhe um beijo no seu rosto, sussurrando “eu te amo”. Quase pode perceber uma ponta de sorriso do lábio adormecido dela.

“Tudo agora vai ser diferente”, ele pensa sentindo o coração palpitar ante a redescoberta do amor da sua vida.

Saiu, despedindo-se mentalmente dela.

E nunca mais voltou para casa.

 

*   *   *

 

Duas horas depois, o noticiário mostrava um homem caído no chão de um posto de gasolina, depois de levar dois tiros no peito desferidos por dois homens numa moto, quando tentaram assaltá-lo no momento em que abastecia o carro. Um dos circunstantes o ouviu balbuciar as seguintes palavras, antes que desse o último suspiro: “Me perdoe, Amor, eu…eu sinto muito”.

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Descoberta

...mas uma decisão...

O poeta faz do verso perfeito a busca de toda sua vida;

assim também o artista pela palavra em forma de arte…

E então descubro que há muito descobri o verso perfeito;

e que minha arte não tem palavra,

mas apenas um TUDO em tão pouco,

um ENCONTRO num quase perder-se,

um EM estar-nos a cada instante,

no meu mudo falar que tanto diz: tanto ama VOCÊ!

 

 

*A Elânia Alves, alvo dessas imprecisas palavras…

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tempos em que tudo era durável...

COMPREI, recentemente, uma TV nova. Bem fina, full HD, ausência de botões e uma infinidade de funções, muitas delas um verdadeiro desafio para tecnologicamente inábeis como eu.

Enquanto quebro a cabeça para entender como fazer o troço exibir as imagens, penso no velho “tubo” que tínhamos em casa, lá na Floriano do final dos anos 80. Era uma TV da marca alemã Telefunken (creio que esta marca deixou de produzir Tv’s, ou até mesmo deixou de existir!), bem ao estilo: caixa de madeira, três pequenos botões e o grande seletor na frente do lado direito. Me lembro particularmente de um botãozinho que ficava atrás da Tv, que servia para “parar” a imagem, quando esta ficasse rodando com aquelas listras que atormentava todos justamente nos momentos decisivos dos programas que assistíamos.

Mesmo a imagem em preto e branco não tirava a magia que era assistir a TV. Crianças que éramos, não perdíamos por nada a programação infantil, naquela época bem mais interessante que a que as crianças hodiernas são obrigadas a suportar. Só para citar os quesitos qualidade e criatividade, o que se vê hoje na TV muito deixa a desejar quando penso na “Vila Cézamo”, nos “Mupetts”, na versão original do Sítio do Pica-pau amarelo e na programação da antiga Rede Manchete, onde vi a ascensão dos seriados japoneses, como Jaspion, Jiraia, entre tantos…

Foi ainda na nossa velha Telefunken que assisti a boas cenas de amor  nas novelas veiculadas – quando ainda as assistia. Para um jovem adolescente, era o ingrediente perfeita para minhas intermináveis digressões nas tardes que passava à beira do “cano”. Ficava absorto com as histórias novelescas, marcadas na minha lembrança pelas músicas que acompanhavam o desenrolar do folhetim. Dessa experiência cultivaria anos depois o hábito de dormir com um rádio de pilhas ao pé do ouvido, sintonizado numa emissora que tocava as músicas das antigas novelas que assistia. Foram muitas as noites, várias delas insones, onde, já deitado, sentia o peito arder de uma inexplicável saudade e exausta solidão, sob o som de músicas como a canção italiana Al dilá, de Emílio Pericolli. Nessas ocasiões, me deixava levar pela maré inexpugnável de lembranças, quando revia caminhos feitos por mim, nem sempre repletos de cor e vida, mas muitos deles embargados por uma cinzenta sensação de perda e vazio…

A TV recém comprada, que me chateia com tantos dispositivos, muitos dos quais nunca irei usar, me faz pensar em algo mais soturno, porém, verdadeiro: em como tudo hoje em dia é feito para não durar. Utensílios de uma casa, que antes duravam várias décadas, hoje não duram cinco anos; brinquedos que se levavam consigo por uma vida inteira, são facilmente quebrados. O que dizer sobre isso?  Que o preço do desenvolvimento traz consigo uma voraz consequência: as lembranças, assim como quem nada pode sentir, é tragado pelo ostracismo, um monstro intangível que tanto estrago faz para a memória…

O que dizer de tantas outras coisas, que acabaram sendo substituídas por outras mais novas e menos duráveis? Assim como a velha TV, que ficou para trás como um símbolo imortalizado de um tempo onde a vida corria mansa e os dias eram tranquilos, às vezes tenho a impressão que, ou fui eu que me tornei descartável ou o pior: sou um ser efêmero, uma figura de outros tempos deslocada no atual, destoando de um agora tão profundo como a superfície de um pirex.

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O pai

um herói sem honra...

A SALA ESTAVA SILENCIOSA, repleta de sombras. Nela, apenas eu e o Pai, mudos como duas outras sombras que coexistem. Ele, examinando detidamente a perna recém operada; eu, observando cada gesto seu. Estávamos na mesma sala, sentados em poltronas, um defronte o outro. Porém, não havia diálogo, uma palavra sequer, nada. Talvez porque o modo como eu estava sentado – escarrapachado no pequeno sofá – era um sinal de que não estava para conversas, que queria mesmo era continuar mantendo aquela mudez intragável. Contudo, queria muito falar-lhe. Acho que observando-o, seu cuidado em examinar os minúsculos cortes e os pontos na perna, me fez pensar como seria bom externar algumas palavras de carinho e ternas que sentia brotar naquele momento. Enquanto o olhava, várias lembranças passaram por minha cabeça. Flashes pipocavam na minha mente: neles momentos diversos, decorridos nos vários anos de minha infância menina, quando sentíamos – eu e meus irmãos – nosso pai mais presente. Naquela época tínhamos receio de crescer, nos tornar adultos, deixando para trás um rastro de lembranças das muitas faceirices que aprontávamos. Mas, enfim, um dia cresci. Vieram as dificuldades, comuns para adolescente novatos; um misto de rebeldia e medo tomavam cada ato meu; e, em consequência, me afastei dele, do Pai. Vi então que muitas vezes – na verdade a maioria delas – eu fora ríspido com ele, o Pai. Permitira que as tensões da vida fossem diversas vezes descarregadas sobre aqueles ombros que me carregaram quando criança. Muitas ocasiões fui intratável, sucinto diante simples perguntas, estava preocupado somente comigo mesmo, e com os problemas que achava serem maiores que os do mundo. Me tornei um adulto cinzento e azedo…

Agora ali, observando-o, imagino o que deve passar por sua cabeça. Que idéia ele tem de mim? Como ele enxerga o seu filho mudo, sentado diante de si, incapaz de ser ao menos sociável? Num espaço tão confinado como não pode haver uma troca sequer de palavras?…

Me envergonho ao pensar que aquele homem, aparentemente rude e insípido tantas vezes demonstrou amor por mim. Que não foram poucas as vezes que ele abrira mão de tudo para que eu tivesse o mínimo possível.  Sinto algo subir pela garganta, então luto contra lágrimas invasoras. Uma constatação terrivelmente real me traz um torpor de insuportável amargor: em verdade, acho que nunca fui um bom filho.

Verguei a cabeça, embaraçado…

 

 

Aos dois Pais, meus sempre presentes…

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instrumento do mal?...

NÃO É NOVIDADE, O TEMPO é o maior inimigo do passado! Aquilo que agora é o deixa de ser daqui a um segundo, me lembra o verso da música de Lulu Santos. Também as lembranças são profundamente avariadas pela passagem deste ser invisível que mexe com a cabeça de muita gente. Cada dia elas perdem um pouco de seu colorido, de sua textura; no máximo uma imagem amarelecida e borrada se preserva nos recônditos de nossa memória…

O tempo é implacável! Sua maior vítima é a lembrança. Sei disso e essa certeza me tolhe um pouco a alegria de tempos há muito passados. A cada novo dia me lembro menos do guri desse outro tempo. Quase é impossível enxergar neste emaranhado de lembranças velhas e carcomidas a face pueril do eu que um dia fui. Aquele mesmo guri que se brindava com tardes alegres à sombra das mangueiras no imenso quintal da casa antiga. Restou apenas a imagem cansada do eu de agora, borrada também por lágrimas e delírio. O guri se foi. E agora não passa de um velho slide mental!…

À passagem do tempo estamos todos condenados. Ou será redimidos? Porque o nosso atual modus vivendi nos diz para correr, correr ainda mais, para não perdermos tempo, pois o tempo passa. Perdermos tempo? Não há maior engano do que nessa afirmativa. Porque não perdemos tempo nessa nossa vida louca; perdemos é a vida quando desperdiçamos tempo. E o tempo jamais será benevolente para os desavisados. Deles serão arrancados a mocidade, a realização, a esperança. Viverão uma derrocada pessoal, rumo ao abismo do esquecimento…

Eu por mim tenho desafiado o tempo. É uma luta desigual, ridícula até. Mas nego-me a cruzar os braços, ao invés ofereço-me como mártir de mim mesmo nesse embate claudicante. O faço me refugiando nas velhas lembranças, nos dias mais antigos do passado. Esta é minha forma de revolução, minha resposta à ordem de esquecer: olhar sempre para trás e ver ainda a velha casa dos meus idílios, a roda de amigos cantando canções saudosas que Alberto extraía do seu violão sentimental; sentir o hálito fresco das tardes serenas sob a sombra da “castanhola”; me embrenhar por mundos surreais e aventuras incomuns nos livros que sempre me rodearam; viver as madrugadas regadas a café e waffer, ou adormecer ouvindo Emilio Pericolli cantar Al dilá do meu radinho amarelo…

Quanto ao guri, o tempo tem vencido, pois já não é possível revisitá-lo. O que posso fazer é contemplar dia após dia a morte derradeira duma época quando não tinha medo da passagem do tempo. E pensar como era bom esperar um novo dia.

 

 

Crônica repentinamente encontrada em meio a papéis avulsos…

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Amor

és horizonte, e tão perto...

NADA SE COMPARA À BELEZA do sentimento que nos une, Amor. Ainda que, como qualquer casal, nós nos decepcionemos algumas vezes, ou fiquemos irritados com nossas manias indeglutíveis, sempre buscaremos um no outro a redenção, a completude que nos reconstrói, o beijo que afaga, o olhar que aquece…
Na minha lembrança perdurará para sempre as não poucas vezes que nos olhamos de uma forma única e meiga, quando nos permitimos ser fracos, verdadeiros, humanos e fizemos questão de que o outro soubesse disso. Nessa busca pelo imponderável, o amor foi o elo principal que nos protegeu das intempéries do medo, da dúvida, da solidão. Foi por ele que fomos salvos, remidos, renascendo um novo homem, e uma nova mulher, seres únicos, ligados pelo mais nobre dos sentimentos.
Talvez você não imagine como eu precisei dos teus braços nesta terra distante e feroz; e aí eu me recordo das tantas noites em que chorei baixinho, quase um sussurro que vinha bem de dentro de mim, do meu coração, que clamava pelo meu amado amor, tão distante… E essa distância teimosa, sádica, que ousou intrometer-se entre nós, causando um hiato na tua presença, que em mim se tornou necessária, indispensável. De longe eu vejo o teu sorriso largo e doce; em meus ouvidos ecoa tua gargalhada fácil, pueril, meiga como só você o é. E então tudo se transforma em saudade e incompletude…
Ah, nada na vida é tão bom quanto tê-la junto a mim. Às vezes, te vendo dormir, eu me ponho a te olhar, tantas vezes estupefato de admiração por alguém tão imensamente linda e tão assombrosamente cálida. Então me propus escrever uma bela poesia, que falasse desse assombro de te amar, de querer ser melhor sempre, para estar à altura da mulher que foi capaz de me ensinar o Amor. Mas a palavra não vinha, sentia dentro de mim um pulsar pululante, mas nada de poesia! Então compreendi que há coisas que não cabem nas meras, incapazes e efêmeras palavras, como o amor, que gera a sublime arte da procura e do encontro, já dissera um dia, Vinicius.
Então, Amor, nessa tarde vazia de ti, só tenho a lembrança a me acalentar…

Uma publicação do dia 08 de agosto de 2009, no blog abuscademimmesmo.blogspot.com

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perdido junto ao tempo...

ME LEMBRO BEM: foi nos idos da década de 80 que o fato aconteceu. Mas, a despeito de tão grande e grave desgosto, aquela foi uma época particularmente feliz para mim. Não havia as preocupações que me torram a paciência; de difícil mesmo só as horas livres para brincar, extraordinariamente encurtadas pelo período escolar.

Ainda assim, parecia que os dias caminhavam num passo frouxo, fazendo com que a época mais esperada do ano – o Natal, evidentemente – demorasse uma eternidade para chegar. Significando que os tão desejados brinquedos novos não estariam nas mãos de crianças ávidas antes do recesso escolar!

Mas, enfim, o dia chegou. E com o início daquela manhã nublada eu me deparei com o embrulho enfeitado com palhaços de narizes rosados. Nem deu tempo de examinar seu conteúdo, já fui logo rasgando o invólucro que envolvia meu brinquedo ardentemente esperado. Meus olhos de guri faminto brilharam ainda mais ao contemplar nas minhas mãos aquela miniatura de carro. Um carrinho! E como era lindo, o meu carrinho… com aquelas rodinhas que giravam, as portas que abriam e tinha até um bonequinho sentado ao volante! De fato, foi um Natal diferente, o daquele ano. Papai Noel definitivamente não se esquecera de mim…

Mas logo as férias de fim de ano foram se findando, o novo ano escolar apontava, então eu aproveitava o máximo para brincar com meu carrinho irado. Os guris da rua onde residia ficavam babando o carrinho que só eu tinha, como se ele fosse um delicioso sorvete de chocolate com cobertura de doce de leite. Mas apenas um grupo seleto – de amigos –  tinha acesso ao carrinho, quando no máximo eu permitia que tocassem nele. Por isso, passei a ser uma espécie de figura pública do bairro, sendo invejado pelos outros garotos, que desejavam brincar com meu “veículo particular”.

Foi num fim de manhã que a tragédia aconteceu: eu brincava solenemente em frente à casa de meus pais, como sempre, rodeado pelos garotos que pleiteavam alguns instantes com o brinquedo. Não sei porquê, adentrei a casa, buscar algo ou fazer algo, disso não me lembro bem. E, de súbito, um frio correu-me à espinha quando me lembrei de ter deixado o carrinho na calçada de casa. Corri o mais que pude até chegar portas afora mas…

Tarde demais! O carrinho, o meu carrinho querido fora surrupiado. Ao mesmo tempo que sentia os olhos encherem-se de lágrimas de raiva e desespero, disse os mais diversos impropérios (possíveis para um guri de minha idade) aos garotos que ali estavam, na minha opinião todos suspeitos daquele ato tão nefasto. Em vão. Não saberia descrever o cinzento dos dias seguintes sem a companhia do meu carrinho. As aulas recomeçaram, mas então eu já era um guri sorumbático.

*   *   *

Meses se passaram. Perdera de todo a esperança de encontrar meu carrinho. E foi que meu pai foi visitar um amigo seu, que morava três quarteirões rua acima. Me levou consigo. O amigo nos levou ao seu quintal, bem abastecido de árvores frondosas. A cerca de arame farpado dividia o terreno com o campinho onde jogávamos nossas peladas. Bem rente à cerca havia um monte de coisas velhas, mas algo me chamou a atenção. Fui lá conferir até me dar conta de que era a carcaça de um brinquedo velho e bem maltratado. Tomei-o em minhas mãos, a a certeza já rente aos meus olhos: meu carrinho, antes furtado num fim de manhã dos anos 80 acabara tendo um fim trágico: mais um pedaço de mim, da minha infância quase perdido, que se definhara nas mãos gatunas de algum guri de índole má, perdido ali naquele montão de coisas imprestáveis…

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charlles campos

Impressões literárias e fotogênicas

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