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Archive for the ‘Homenagem’ Category

Casa Havaneza, no Chiado, em 1871, um dos locais visitados pelos personagens de Os Maias.

Casa Havaneza, no Chiado, em 1871, um dos pontos de encontro visitados pelos personagens de Os Maias.

CONCLUO A LEITURA DE OS MAIAS, depois de abandonar o clássico realista do escritor luso Eça de Queiros por duas vezes. Conheci o Eça há alguns anos, quando li outro livro seu, O primo Basílio. Se à época, ficara enlevado por aquelas páginas, muito mais agora, depois de não sei por que frustradamente abandonar Os Maias por duas vezes conseguir, enfim, percorrer os parágrafos descritivos da sociedade lisboeta do século XIX.

Mesmo que alguém nunca tenha lido o livro, certamente estará familiarizado com seu enredo, recentemente adaptado para uma minissérie televisiva. Conta, basicamente, a história do amor incestuoso entre os descendentes da terceira geração da família Maia, Carlos e Maria Eduarda. Os dois, irmãos consanguíneos, foram separados ainda bebê, quando a mãe, Maria Monforte, fugira com um italiano, abandonando o marido, Pedro da Maia e o filho Carlos.

Um enredo assim seria lugar-comum, não fosse o magistral talento queirosiano. Eça era um escritor refinado, seus textos são embargados de uma solar crítica ao clericalismo, à hipócrita burguesia lusitana – de quem era profundo conhecedor – que se gabava em ostentar falsos valores morais. E como era irônico, o Eça! Agora mesmo, me recordo com um começo de sorriso das peripécias de Teodorico Raposo, o caricato personagem de A Relíquia, outro Eça que li não faz nem um ano.

Mas é em Os Maias que concentro minha atenção. Sobretudo à parte final, quando Carlos, depois de alguns anos de exílio, retorna a Lisboa e, junto com seu amigo fiel Ega, erra pelas ruas lisboetas, numa tentativa pueril de ver uma Lisboa que não mais existe. Enquanto caminham contemplando as fachadas decaídas que testemunham a decadência de outros tempos, vão rememorando “aqueles” anos, quando sonharam fundar um jornal de vanguarda; depois publicarem a tão aclamada Memórias de um átomo do Ega e as impressões pessoais de Carlos no seu volume Medicina Antiga e Moderna; os intensos e ardorosos amores vividos pelos dois amigos e que, sem saberem por que, acabaram fadados à mera lembrança. “Falhamos a vida, menino”, conclui Ega…

As ilusões perdidas de Carlos e Ega. Gosto desta expressão. É terrivelmente sombria; mas incontestavelmente bela também. Como algo que causa dor ou mesmo, na melhor das hipóteses, um leve desconforto, pode, junto, trazer uma doce saudade, uma bestial necessidade de desenterrar essas lembranças? É o caso das ilusões perdidas. Todos as temos.  Mas poucos os que decidem mantê-las vivas.

É o meu caso. Carrego comigo uma considerável bagagem de ilusões perdidas. São extratos de vários períodos de minha vida, alguns já resolvidos, outros ainda a cobrar o legado de equívocas escolhas. Em viagem recente, no reencontro com meu irmão Beto, parceiro de muitas delas, depois de um hiato de 17 anos, pusemo-nos a rememorar algumas de nossas ilusões perdidas. Era fim de tarde, estávamos sentados no banco da antiga estação ferroviária, como a esperar por um trem que sabíamos, nunca viria. Mas não as lembranças, aquelas perdidas. Elas sim nos levaram para outras épocas, quando eram outras nossas dúvidas, e tênues nossas certezas. “Vivemos muita coisa, concorda?”, ele me pergunta. “Sim”, concordo. Era verdade, muita coisa vimos e vivemos, e acabaram transformando-se num punhado de ilusões perdidas.

Então penso, só comigo, recordando as palavras de Ega: “Sim, não podemos negar, mas tivemos uma péssima estréia.”…

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NADA ERA MAIS IMPORTANTE PARA NÓS DO QUE O CAFÉ. Alberto e Jairo podem atestar! Se sonhávamos com nossos projetos que a vida preferiu mantê-los inconclusos, se nutríamos uma ausência particular em nossos corações platonizados por amores improváveis, se buscávamos uma “perfeição amadora” nas músicas extraídas do violão de cordas desafinadas, se passávamos noites contemplando o surdo mistério da ausência, se preferimos desistir de nossos sonhos pueris, se a partida tornou-se um evento inevitável para estes três destinos fugidios, se, (…), bem, se julgávamos que viveríamos aquele sonho que foi a velha casa dos meus idílios, as sempre presentes xícaras de café podem perfeitamente atestar que uma amizade é mais do que farras, bebedeiras ou extravagâncias: são também construídas no silêncio cultuado por companheiros que aprenderam a contemplar de forma poética a vida. E isso nos bastava…

Mas percebi, que mesmo num comentário de há dois anos, não foi apenas a casa, sua poética e insistente evidência, as canções que compomos (e que acho, só eu ainda as toco!) nem muito menos as leituras complexas de Platão e dos demais “antigos” restaram; por trás de cada xícara de café, um sempiterno evento nos aqueceu mais que o líquido negro e fumegante; um abraço de saudade, de nostalgia nos envolvia complemente num banho de assombro e pasmo. A mais poética lembrança, a mais simplória confidência, o mais musical retrato de tudo que fizemos irá perdurar. E isso – tenho certeza – continuará nos bastando.

Ao dileto trio que configurou estes vícios, entre eles o café…

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Descoberta

...mas uma decisão...

O poeta faz do verso perfeito a busca de toda sua vida;

assim também o artista pela palavra em forma de arte…

E então descubro que há muito descobri o verso perfeito;

e que minha arte não tem palavra,

mas apenas um TUDO em tão pouco,

um ENCONTRO num quase perder-se,

um EM estar-nos a cada instante,

no meu mudo falar que tanto diz: tanto ama VOCÊ!

 

 

*A Elânia Alves, alvo dessas imprecisas palavras…

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Você pode conferir aqui a tradução deste texto. Antes de lê-lo, me perdoe: não é objetivo criar um vácuo aos diversos leitores deste espaço que, como eu, têm a infeliz condição de serem monoglotas. Mas sou esforçado, estou tentanto e logo terei na língua inglesa minha mais atual ferramenta de criação e leitura. Good read!

sad condition...

And to think that so long has it been since those cold days of winter, we live together. When we listen to each other acalentávamos Watermark on the small CD player while calling upon our most bizarre dreams. Think how nice it was to feel so, like children, acting irresponsibly on life, living the dream of imaginary voyages to distant places, where old mysteries challenged our chimeras.
Think we’ve chosen each week, where we could build beautiful worlds together and form a loose mock of life, its limitations, its conventions. To think we laughed so much that, weary and introspective, thinking we laid in the fragility of all human beings, in an attempt to pander a bit of our space to the other, in fact look into there eyes and see the answer to everything you asked …

Think that in a few minutes we toured foreign lands, marked by signs that defy the times and men, once visited by loved legacy of fabrication or not we want to believe or deny. And to think that the pact to be forever faithful to our ideals, our own revolution finally ended up dying, like a flower, then to radiate beauty and mystery has withered and lost. And to think that one day we would be not so free, but simply … adults.

And who would think that our hedonistic way of life lost to grace, charm, discovered the hidden answers that never meet? Who knew, what the hell, what the future will become, and we would, finally, co-opted by capitalism and consumerism of disposable false notion of utility to another? But for what?
And to think the link that served as the motto and mantra was broken and the afternoon was more than ever, with the old house, cheap wine, the drunkenness and mental our spontaneity to the surface. Thinking that everything was gone, and what’s left then? Only the dawn of a new day, which gradually makes us who we were …

Sheila and her rose garden of stone.

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Mãos cheias de carinho e perdão...

O quarto era igual ao de muitas meninas. Cores amenas, os livros que falavam das aspirações para o futuro; bichos de pelúcia denunciavam a puerilidade da mulher que teimava em contrariar a natureza mantendo-se menina…

Pela fresta da memória posso ainda contemplar aquela menina, de olhos exóticos, lábios generosos, sorriso fácil e amigo, mãos repletas de carinho e perdão. E, ainda que estas memórias sejam falhas e imprecisas, jamais o será o coração, que para sempre levará consigo mesmo a doce menina-mulher da Pasárgada que nos pertence.

Era-me difícil, àquela época, suportar o peso do seu carinho e afeto. Homens e suas manias de dureza! Oras! Ficar constrangido com o carinho latente dos seus olhos claros e calmos era uma constante para este aprendiz nas coisas do amor. E ela, com uma natural e espontânea forma de compartilhar seus sentimentos, tantas vezes deixara-me sem a menor ação. As coisas do coração…

Passados anos, ela, a menina-mulher, teve que enfrentar duras provas. Dias revoltos emborcaram toda a aridez dos problemas, das crises, dos medos, da traição por parte de quem ela mais ama. De repente, todo aquele mundo tranquilo, com suas privações, é verdade, foi sacudido por uma avalanche negra e nada fácil de lidar. A menina apavorada clamara pela mulher que se negava a emergir! Que caos!

Com tudo isso também vieram a maturidade, o aprendizado, uma nova forma de ver a vida, que a tem feito mais e mais mulher do que mesmo menina. Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de finas jóias… Valho-me, então, do lirismo poético das Escrituras.

Hoje, mulher. Mulher corajosa, sagaz, comprometida, eterna sonhadora, amante, amada. A menina, às vezes persiste. Ainda anseia por seus bichos de pelúcia e por uma Pasárgada inundada de cores, onde tudo é perfeito e eterno. Mas isso não retrata a realidade, muitas vezes dura e crua, amarga e triste. Porém, ela pode sonhar, levada pelo desejo imarcescível de encontrar com o Amado. Por enquanto, tenho tido a sorte de também, por ela, minha eterna menina-mulher, ser amado…

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Por algum motivo que não sei (nem quero!) explicar, resolvo republicar esta pequena crônica de outros tempos, produzida e exposta no meu primeiro blog. Apesar dos muitos erros, fiz – creio – coisas que merecem ser revistas. Como este singelo texto em homenagem à minha querida amiga Sheila Doias.


Não somos mais os mesmos...

E pensar que tanto tempo faz desde aqueles dias frios, de inverno, que vivemos juntos. Quando nos acalentávamos um ao outro ouvindo Watermark no pequeno toca CD enquanto invocávamos nossos sonhos mais bizarros. Pensar como era bom nos sentirmos assim, como criança, agindo de forma irresponsável diante a vida, vivendo o sonho de viagens imaginárias por lugares distantes, onde antigos mistérios desafiavam nossas quimeras.
Pensar que escolhemos cada tarde, onde pudemos construir mundos maravilhosos juntos, e de uma forma solta zombamos da vida, de suas limitações, suas convenções. Pensar que rimos tanto disso que, cansados e introspectivos, púnhamos a pensar na fragilidade de tudo, do ser humano, na tentativa de cedermos um pouco do nosso espaço ao outro, no fato de olhar dentro dos olhos e ver ali a resposta para tudo o que perguntamos…
Pensar que em poucos minutos percorríamos terras longínquas, marcadas por sinais que desafiam os tempos e os homens, outrora visitados por entes legados da invencionice ou não de querermos crer ou negar. E pensar que o pacto de sermos para sempre fiéis aos nossos ideais, à nossa própria revolução acabasse por fim definhando, assim como uma flor que, depois de irradiar beleza e mistério, murchou e se perdeu. E pensar que um dia seríamos não tão livres, mas simplesmente… adultos.
E quem pensaria que nossa forma hedonística de viver perderia a graça, o encanto, o oculto descoberto das respostas que nunca encontramos? Quem imaginaria, ora bolas, que o futuro nos transformaria, e seríamos, enfim, cooptados pelo capitalismo do consumismo descartável e da falsa noção de utilidade ao outro? Mas, para que?
E pensar que o elo que nos servia de lema e mantra se quebrara, assim como a tarde que nunca mais foi, com a velha casa, o vinho barato, a embriaguês mental e nossa espontaneidade à flor da pele. Pensar que tudo se foi, e o que restou, então? Apenas a aurora de um novo dia, que aos poucos nos faz ser menos nós mesmos…

A Sheila e seu jardim de rosas de pedra.

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Paulo, o jornalista...

QUANDO GURI, SEMPRE que me perguntavam a quem puxei no hábito (e gosto) pelos livros, nunca sabia responder. Na casa materna, eu não tive quem me influenciasse a gostar tanto de ler. Minha mãe só cursara o ensino fundamental; já meu pai, embora tivesse estudado até o segundo ano do antigo ginásio, jamais o vi lendo qualquer coisa na vida. Então, como isso começou, quer dizer, minha fome pelos livros?

A resposta: não sei!

Mas eu cresci. Muita coisa mudou desde aqueles saudosos dias de guri. Só não no que tange aos livros, que sempre estiveram presentes na minha vida. O que mudou, na verdade, foi a forma como leio hoje, bem como a qualidade do que e quando leio. Deixe-me ser mais claro. Quando guri, eu lia de tudo, só que muito dos livros que passaram por minhas mãos eu os li sem a devida maturidade para uma compreensão efetiva. Alguns livros memoráveis tiveram uma segunda, e até terceira releitura de minha parte, então já adulto e com uma percepção mais apurada das belas nuances desses amigos queridos. Como também a qualidade dos livros melhorou: não preciso dizer para minguém que existem livros que jamais deveriam ser escritos, ou lidos, de tão ruins!…

Então, como escolher verdadeiros bons livros, nos dias de hoje, em que há uma infinidade de títulos à disposição?

É aqui que entra meus dois novos velhos amigos: Paulo e Fábio.

...e Fabio, o escritor barato

De Paulo Nogueira, aprendi a buscar e ler livros que tratam da realidade dura e crua bem como aqueles que encerram a sabedoria de grandes escritores que primaram pela compreensão das questões da vida. Sua visão apurada de jornalista experiente, aliada ao imenso arcabouço de leituras que fez e faz, me fizeram desejar ainda mais aprofundar-me em livros importantes da literatura, tanto pela sua robustez literária como por legar aos nossos dias a realidade de uma sociedade dinâmica e em constante mutação que foi à época em que foram produzidos. Livros como A Família Moskat, de Singer, obra que aborda a trajetória de uma abastada família judaica e seu lento declínio ao longo dos cinquenta anos que antecederam à 2ª Guerra Mundial; os Capitães da Areia, do colosso baiano Jorge Amado, um verdadeiro livro-denúncia do descaso social vivido por moleques de rua nos trapiches soteropolitanos.

Já com Fabio Hernandez tenho aprendido a cultivar uma literatura mais sinestésica, livros que buscam olhar para dentro da natureza humana, a perscrutar o cinismo,a cobiça, o hedonismo, como se fossem agentes destiladores dos não virtuosos apetites humanos, dos arquétipos e estereótipos, da eterna e muitas vezes infecunda busca por si mesmo e sua realidade interior. Como exemplo cito o O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, livro que trata da busca pelo poder, pelo dinheiro, pela estabilidade, as metas de Jay Gatsby, ainda que esses alvos sejam distorcidos por sua própria ignorância e pela corrupção encravada na sociedade à qual ele está inserido. Um verdadeiro clássicos da busca pelo amor perdido…

Mas são tantos, há aqui obras monumentais como os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, os livros de Flaubert, a exemplo de Mme. Bovary, e Eça de Queiróz e seu Os Maias, importante obra da literatura portuguesa, que descreve uma sociedade de transição, caracterizada por uma aparência de despreocupada alegria de viver, escondendo um não disfarçado mal do século…

Esses são Paulo e Fabio. Dois apaixonados pela leitura, pelos grandes clássicos. Estar com eles é sentir-se intimado a buscar a profundidade da cultura, das páginas escritas com esmero e talento, próprio dos grandes escritores, que juntos formam uma plêiade incomum, de mortais que, na verdade, nunca morreram.

 

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Alberto

O louco em transe...

ALBERTO NÃO É exatamente alguém que possa ser definido. A não ser por sua figura esguia, as sobrancelhas de taturana, a barba sempre por fazer e, o que mais chama a atenção em meu amigo, o olhar perdido em algum lugar que não posso advinhar.

Sempre com os tênis All Star pretos e canhestos, Alberto era uma espécie de ícone pop da atualidade. O cabelo desgrenhado e os óculos de aros pretos causavam uma estranha combinação de intelectual maluco, desses que ficam mais tempo vagando por seu universo próprio. Também tinha hábitos noctívagos, preferindo muitas vezes gastar suas noites acompanhado de uma garrafa de vinho, o cigarro pregado na parte inferior dos lábios, os olhos míopes devorando páginas e páginas dos clássicos da psicologia e sua maior paixão: a literatura. Sim, Alberto era também estudante de Psicologia. Não por vaidade própria ou para, algum dia, ter algum ofício, mas para tentar se entender…

Não fosse a aparência desleixada, de dia não era nada mais que um estudante comum, empenhado em garantir boas notas e manter sua bolsa de estudos na faculdade. Quando era chegada a noite, Alberto podia, enfim, libertar-se. Podia abandonar o estereótipo do bom garoto, estudante dedicado, filho que traz orgulho para sua mãe. Podia deixar aflorar seu verdadeiro universo: um caos próprio, singular, único. Sua mente deixava de lado os principais expoentes do estudo da mente; ignorava Pavlov, Skinner e Freud. Substituía-os por Cony, J.R. Duran, Garcia Marquez, Joyce. Sempre com uma xícara de café cuja fumaça cheirosa ampliava-se na casa diminuta. Sempre ouvindo uma música no seu iPod. Sempre cercado de talvezes e se’s. Sempre ofuscado pela lembrança do sorriso metálico que era o abismo de seu fim…

Perdas...

Os fins de semana eram particularmente difíceis para ele. Lutando contra todos os fantasmas que tentavam abocanhá-lo, Alberto não tinha outra opção, senão aumentar a dose de sua anestesia alcoólica, e, olhando para as telhas escuras de seu quarto moribundo, extrair sua redenção nas cordas de sua acoustic guitar. Uma canção trazia outra, e mais outra, ao tempo que o tempo ia retrocedendo, para trás, para trás, até lembrar-se de uma fase de sua vida onde era genuinamente feliz. Ou pelo menos, pouco triste. Justamente na lembrança da velha casa dos idílios, como Pablo se referia àquele lar onde o tempo não era problema, Alberto sentia que seu peito era mais livre, tanto da nicotina que vai roubando a sua capacidade de absorção de oxigênio quanto dos amores que hoje se constituem em sua perdição.

O que daria para voltar atrás, para aquela casa, já de todo esquecida?, pensa ele. Nada. Não seria mais capaz de ser o mesmo garoto de outrora; antes, vivera bons momentos ao lado d e Jairo e Pablo, dois malucos que numa manhã de março apareceram na sua vizinhança; ficava efusivamente satisfeito com as aulas de violão que Jairo lhe dava, ou ria-se consigo próprio das verborrágicas explanações literárias de Pablo. O ingênuo Alberto daquele tempo não existe mais.  O Alberto daquele tempo se foi. Nunca mais voltará. Ele próprio se mutilara, com uma lista interminável de pecados morais, cada vez menos se vendo no espelho do antes.

Quanto tempo o Alberto de hoje irá sobreviver até a próxima perda de si mesmo?

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O Grande Adroaldo

Nos últimos dias fiz a releitura (uma de muitas!) do ótimo livro Páginas Escolhidas – 200 crônicas e dois contos do saudoso cronista baiano Adroaldo Ribeiro Costa.

 

Como das outras vezes, acabei sendo tomado pelo panorama soteropolitano tão lindamente descrito pelo advogado que nunca chegou a utilizar seu diploma do Curso de Ciências Jurídicas da Faculdade de Direito da Bahia,  trocando as letras jurídicas pela crônica de reminiscência. E, de uma maneira um tanto absurda, fico a matutar quantas pessoas já leram alguma de suas crônicas, ou, pior, se foram muitas ou apenas um punhado de pessoas que chegaram a ouvir falar de Adroaldo. Talvez, para facilitar as coisas, o grande cronista das terras da Baía de Todos os Santos seja mais facilmente reconhecido por ser o autor do hino do tricolor baiano, o Bahia…

Mas, e quanto a tantos outros feitos deste amante da educação, dos livros e das “conversas de esquinas” magistralmente imortalizadas nas Páginas Escolhidas, livro organizado pelo sobrinho do autor, Aramis Ribeiro Costa, além, é claro, da impressionante marca de 25 anos ininterruptos dedicados à crônica no Jornal “A Tarde”?

Adroaldo não dedicou-se somente a registrar o dia-a-dia da Salvador dos anos 50, 60 e 70, mas como disse era um ávido entusiasta das questões sociais, utilizando muitas vezes de uma fina ironia para tratar de problemas de ordem política e ambiental. Esse Adroaldo engajado pode ser facilmente percebido em crônicas como “Moleque da rua”, “Em defesa do mar“, ou “A criança aleijada”, quando denunciou o descaso social das crianças marginalizadas nas ruas de Salvador (e não é preciso nem citar os Capitães da Areia, de Jorge Amado para poder ver isso) ou as agressões à natureza, como a poluição do mar que tanto amava…

Possuidor de intensa veia humorística, Adroaldo conseguia arrancar facilmente risos dos seus interlocutores com suas “estórias”, oriundas, segundo ele próprio, dos personagens de sua infância recheada pelos livros que coloriram sua fértil imaginação. No jornal, muitas de suas crônicas traziam essa característica espirituosa, como Não entendo”, Os pés e os sapatos”, “Balão” e “O caso do Charuto”, todos de uma espontaneidade que somente este grande representante da crônica, na Bahia, foi capaz de legar.

Contudo, posso afirmar que Adroaldo foi melhor no falar de si mesmo. Não na verborrágica e nada humilde tentativa de se auto-engrandecer. Não é isso. Ninguém foi tão sensível em retratar com poética nostalgia a sua própria existência, tecendo com a tinta das lágrimas da saudade os seus dias meninos, como o fez Adroaldo. Deixando de lado a decisão do anonimato comum entre os cronistas, Adroaldo resolveu seguir o caminho contrário, como ele mesmo disse: “Pensei, então, que deveria decidir logo sobre o rumo que imprimiria a estas crônicas. Poderia colocar-me na posição impessoal do cronista que apenas se propõe a divertir e comentar, mas não se põe dentro do que escreveu. Mas preferi o caminho oposto: eu deveria pôr-me, de corpo inteiro, nestas colunas.” – Grifo meu.

E o fez exatamente como o dito acima: crônicas como o Menino do retrato, A mesa vazia, Amoroso, O carrinho de louça e tantas outras páginas, embargadas de emoção e sincera nostalgia pelos dias antigos do passado, no dizer de Carlos Heitor Cony.  Adroaldo, em síntese, foi aquele que não temeu mostrar-se como era, trazendo ao leitor não a tentativa de parecer sem ser, mas, ao invés, pintou o seu retrato com a tinta do coração, não se importando em parecer fraco, imperfeito, humano…

O grande homem que jamais esqueceu-se de ser criança, que adorava ler Monteiro Lobato, que também não desprezara a crônica esportiva e o ser torcedor de coração do “Baêa”, foi mestre em divertir as crianças. Para sempre suas maiores contribuições, a Hora da Criança e a peça Narizinho – adaptação teatral da personagem de Lobato – vinda do Sítio do Pica Pau Amarelo serão lembradas, ao menos pela Salvador que Adroaldo tanto amou. Muitos escritores talentosos marcaram suas épocas e as gerações seguintes com personagens e lugares frutos de uma fértil e criativa imaginação. Adroaldo marcou seu tempo apenas com o que tinha de melhor: saber viver.

Por Pê Sousa

 

Nota: Adroaldo Ribeiro Costa nasceu em Salvador no dia 13 de abril de 1917 e passou quase toda a infância em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Formou-se na antiga Faculdade de Direito da Bahia em 1936, sem nunca advogar. Exerceu a profissão de professor e fundou uma escola que hoje leva seu nome. Foi, ainda o autor do Hino do Bahia, do programa “A Hora da Criança” e produziu diversas peças teatrais, se destacando a peça “Narizinho”. Adroaldo publicou, em 25 anos e dois meses de profissão, a impressionante marca de 7.200 crônicas, mantendo-se ativo de dezembro de 1958 até 27 de fevereiro de 1984, quando faleceu devido a um câncer na laringe.

 

Dados biográficos extraídos do livro “Páginas Escolhidas – 200 crônicas e dois contos”, seleção, organização e introdução de Aramis Ribeiro Costa.

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charlles campos

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