Feeds:
Posts
Comentários

Archive for the ‘Cultura’ Category

Casa Havaneza, no Chiado, em 1871, um dos locais visitados pelos personagens de Os Maias.

Casa Havaneza, no Chiado, em 1871, um dos pontos de encontro visitados pelos personagens de Os Maias.

CONCLUO A LEITURA DE OS MAIAS, depois de abandonar o clássico realista do escritor luso Eça de Queiros por duas vezes. Conheci o Eça há alguns anos, quando li outro livro seu, O primo Basílio. Se à época, ficara enlevado por aquelas páginas, muito mais agora, depois de não sei por que frustradamente abandonar Os Maias por duas vezes conseguir, enfim, percorrer os parágrafos descritivos da sociedade lisboeta do século XIX.

Mesmo que alguém nunca tenha lido o livro, certamente estará familiarizado com seu enredo, recentemente adaptado para uma minissérie televisiva. Conta, basicamente, a história do amor incestuoso entre os descendentes da terceira geração da família Maia, Carlos e Maria Eduarda. Os dois, irmãos consanguíneos, foram separados ainda bebê, quando a mãe, Maria Monforte, fugira com um italiano, abandonando o marido, Pedro da Maia e o filho Carlos.

Um enredo assim seria lugar-comum, não fosse o magistral talento queirosiano. Eça era um escritor refinado, seus textos são embargados de uma solar crítica ao clericalismo, à hipócrita burguesia lusitana – de quem era profundo conhecedor – que se gabava em ostentar falsos valores morais. E como era irônico, o Eça! Agora mesmo, me recordo com um começo de sorriso das peripécias de Teodorico Raposo, o caricato personagem de A Relíquia, outro Eça que li não faz nem um ano.

Mas é em Os Maias que concentro minha atenção. Sobretudo à parte final, quando Carlos, depois de alguns anos de exílio, retorna a Lisboa e, junto com seu amigo fiel Ega, erra pelas ruas lisboetas, numa tentativa pueril de ver uma Lisboa que não mais existe. Enquanto caminham contemplando as fachadas decaídas que testemunham a decadência de outros tempos, vão rememorando “aqueles” anos, quando sonharam fundar um jornal de vanguarda; depois publicarem a tão aclamada Memórias de um átomo do Ega e as impressões pessoais de Carlos no seu volume Medicina Antiga e Moderna; os intensos e ardorosos amores vividos pelos dois amigos e que, sem saberem por que, acabaram fadados à mera lembrança. “Falhamos a vida, menino”, conclui Ega…

As ilusões perdidas de Carlos e Ega. Gosto desta expressão. É terrivelmente sombria; mas incontestavelmente bela também. Como algo que causa dor ou mesmo, na melhor das hipóteses, um leve desconforto, pode, junto, trazer uma doce saudade, uma bestial necessidade de desenterrar essas lembranças? É o caso das ilusões perdidas. Todos as temos.  Mas poucos os que decidem mantê-las vivas.

É o meu caso. Carrego comigo uma considerável bagagem de ilusões perdidas. São extratos de vários períodos de minha vida, alguns já resolvidos, outros ainda a cobrar o legado de equívocas escolhas. Em viagem recente, no reencontro com meu irmão Beto, parceiro de muitas delas, depois de um hiato de 17 anos, pusemo-nos a rememorar algumas de nossas ilusões perdidas. Era fim de tarde, estávamos sentados no banco da antiga estação ferroviária, como a esperar por um trem que sabíamos, nunca viria. Mas não as lembranças, aquelas perdidas. Elas sim nos levaram para outras épocas, quando eram outras nossas dúvidas, e tênues nossas certezas. “Vivemos muita coisa, concorda?”, ele me pergunta. “Sim”, concordo. Era verdade, muita coisa vimos e vivemos, e acabaram transformando-se num punhado de ilusões perdidas.

Então penso, só comigo, recordando as palavras de Ega: “Sim, não podemos negar, mas tivemos uma péssima estréia.”…

Read Full Post »

Como não se render ao ebook?A PRIMEIRA BIBLIOTECA que conheci, no final dos anos 80, foi a portentosa estante de minha madrinha Júlia. Talvez nem pudesse ser assim chamada, mas para um garoto de uns sete, oito anos de idade, não fazia muita diferença.

Consterno-me ao relembrar os tantos fins de semana que passei ali, debruçado sobre a velha mesa de mogno, lendo obras que até hoje me encantam, seja por sua beleza poética, seja pela “viagem” que me proporcionaram. Mas, este hábito “diferente” intrigara os outros garotos da rua. As minhas amizades ora conquistadas não compreendiam como alguém poderia abrir mão de outros divertimentos, próprio de garotos como eu e, segundo eles, bem mais legais, para se enfurnar em tantos livros. “Ler é chato”, mais de uma vez ouvi. “Eu sinto é sono quando começo a ler”, outro dizia.

Não que eu deixasse de me divertir com as nossas peladas, as caçadas aos passarinhos na mata que margeava o riacho próximo da casa, ou simplesmente jogando conversa fora. Mas…

Mas ali nasceu uma paixão diferente, forte, que veio a tornar-se uma necessidade, uma satisfação interna de ouvir uma voz ouvida apenas com os olhos e a imaginação. Ali, de fato, comecei a amá-los. Os livros…

Vieram outras bibliotecas – agora de fato, que frequentava com verdadeiro apuro; geralmente saía com alguns volumes debaixo do braço, uma ridícula e presente sensação de alegria interior por logo, logo, folhear aquelas páginas. A magia se renovaria: passadas muitas e muitas páginas, percebo que o meu sentimento pelos livros continua aceso. Mudaram-se apenas as fases e, claro, as formas.

Explico.

Tive e tenho muitas “fases” como leitor. A fase dos gibis, a fase das leituras mais sérias, a fase dos romances de “amores incontidos”, a fase propriamente literária. Recordo-me particularmente, numa dessas fases, que era aficionado pelas sagas “A queda do Morcego”, e “A morte do Superman” para mim as melhores coleções de gibi sobre Batman e Superman já criadas. Nessa fase também lia muito “Tex”, gibi em preto e branco passado na época do Far West. Apesar para exemplificar a fase.

Também a forma modificou-se. Boa parte dos meus 32 anos de idade conheci os livros como ainda são, de papel. Gostava de mirar os livros, perfilados nas muitas estantes que visitei. Também confesso que cometi o velho clichê de cheirar a página de um livro recém comprado. Desses dois hábitos (admirar os livros na minha estante e cheirá-los) apenas o primeiro mantenho, já que o segundo, devido ao envelhecimento natural do papel e à poeira, não deixaria nada feliz a minha alergia.

Porém, acrescento que, embora me considere muito tradicional em algumas coisas, uma coisa que não sou é ludita. Por isso abracei com gosto os livros na sua forma digital, os ebooks. A mesma admiração por uma estante de madeira eu sinto ao contemplar a estante virtual de meu iPhone. Com a diferença que esta estante anda comigo o tempo todo, pois cabe no bolso da roupa. Outro fator positivo é que nunca li tanto como agora. Enquanto o livro de papel, dependendo do tamanho, se tornava um incômodo, o ebook permite a leitura em qualquer lugar, o que faz com que qualquer tempo ocioso eu esteja adiantando as páginas.

Nas muitas discussões sobre a ainda fértil batalha livros de papel versus ebooks, há muitos amigos meus que batem o pé a favor do livro de papel. É comovente os argumentos usados para manter o velho hábito. Até compreendo sua ardorosa paixão pelo livro tradicional, mas como não se render à facilidade, à economia de espaço, a excelente portabilidade de um ebook?

 

Read Full Post »

Imagem

PABLO TEM UM LIVRO nas mãos. É um pequeno grande romance de Dostoiévski, Noites Brancas. Não é exatamente o conteúdo que lhe chama a atenção, embora tantas vezes o tenha lido (era capaz de citar de memória várias passagens, para ele sublimes e necessárias). Mas a dedicatória na primeira página, escrita naquela inconfundível caligrafia de escolar, miúda e caprichada. Sentado no apartamento vazio, diante daquelas intragáveis palavras, a sensação de que seu mundo desabara é mais latente, um insistente sussurro, vindo diretamente daquelas breves palavras, como que a bradar sua dor.

“Para Pablo. Espero que goste, mas quem dera ser eu dona dessa resposta…

Sempre com amor, E.”

Ele tem diante de si a prova da sua própria ruína. Contempla num misto de êxtase e culpa aquela sentença enigmática – ela sabia – só ele seria capaz de decifrar. E por isso mesmo não tira os olhos daquela funesta dedicatória, que encerra o momento em que sua inconformidade se tornou maior do que ela…

Impossível não recordar os momentos felizes. Como da vez em que a levara para ver o por do sol no cais (um de seus lugares favoritos) e acabaram surpreendidos com uma forte e rápida chuva que os deixou encharcados; ou da vez que tocou ao piano uma música composta de improviso, os dedos nervosos engolindo as notas, em dado momento sendo interrompidos pelo toque de suas mãos. Uma ponta de sorriso ameaça aparecer, mas logo morre, sufocado pelo momento do fim. E então vê diante de si a noite fria, a lâmpada solitária embalada pelo vento, as palavras de desespero jamais ditas, de como virou-lhe as costas enterrando de vez a última esperança que havia, o exato instante em que tudo pifara, como toda sua vida. Enterrou-se num bar, um dos poucos abertos àquela hora e bebeu até adormecer, sozinho no balcão, numa tentativa de afogar em álcool toda aquela dor que consumia seu ser…

Ao voltar, não era só o apartamento que estava vazio: gavetas, cabides, armários, a estante desvencilhada dos porta-retratos e livros prediletos. Dali em diante teria de seguir só…

A tarde vai-se findando. Algumas sombras vão ficando espessas e maiores. Pablo sente-se exausto; sentia-se sempre exausto, as forças exauridas pelas lembranças, agora trazidas por aquela dedicatória cruel que tanto e nada tem a dizer. Por um instante pensou em Jairo, nas suas grandes frases de efeito, ditas com seu peculiar sotaque paulistano. Muitas acabou ele mesmo incorporando, citando-as como jargões que encerravam grandes e profundos dilemas. Foi uma deles, certamente, a base originária daquela dedicatória sombria e extravagante, muitas vezes repetida por Pablo: “quem dera fôssemos donos de nossas próprias respostas”. Não podia haver nada mais sábio.

Read Full Post »

Menos inteligentes?

CONFESSO: ainda não liA geração superficial – O que a Internet está fazendo com nossos cérebros”, o novo livro do escritor e ensaísta Nicholas Carr. Mas passei muito tempo refletindo sobre a teoria nada convencional dele, que trata de como a internet vem nos tornando mais burros, ou na sua própria definição os rasos, para expressar a ideia de que, com a velocidade da informação, apenar ficamos zapeando pela rede, sem jamais nos aprofundar em nada…

Fiquei absorto nessa ideia, pensando se eu mesmo não teria me tornado um “raso”. De pronto, comecei a rever meus hábitos cibernéticos. E me surpreendi ao perceber que estava praticamente viciado em redes sociais, principalmente no Facebook, uma ferramenta muito boa para interação com outras pessoas, ao contrário do quase-defunto Orkut. Com o fácil manejo e transporte do tablet que possuo, aliado ao acesso à internet em casa e no trabalho, várias vezes ao dia interrompia alguma atividade para checar minha página no Face. Às vezes, nem tinha nada de novo, mas ficava vagueando por postagens mais antigas, como se aquilo fosse aplacar essa sensação de “interatividade” que eu buscava.

Percebi ainda que gastava muito tempo saltando de site em site, ou “pulando de galho em galho” como diria Carr na sua teoria fatalista. De repente me vi passando rapidamente os olhos pelos cabeçalhos das notícias, e, quando me dava ao luxo de ler alguma coisa, já não conseguia reter muito da leitura que fazia, isso quando conseguia ter paciência de ler o texto até o final. Estaria Carr com razão? Meu cérebro teria sido corrompido pelo excesso infinito de informação? Teria eu me tornado mais…burro?

Para chegar a alguma certeza, decidi servir eu mesmo de cobaia numa pequena experiência, depois de me fazer a seguinte proposição, à qual acabei compartilhando no Facebook: “Fiquei pensando: será que consigo passar uma semana totalmente desplugado?”.

Os breves segundos que se passaram, depois de conferir meu post ali no Facebook, exposto aos meus contatos, foram para mim um estranho misto de perda aliado a uma sensação de “faltar algo”, que não consegui entender, muito menos explicar. Não pude deixar de suspirar ao pensar que aquela seria uma semana de cão, onde me absteria totalmente da internet, e que nem sequer checaria meu e-mail profissional. Era uma quarta-feira, e enfim, me lancei ao meu –  àquela altura –  indigesto experimento.

Exatamente uma semana depois, retorno ao intenso, interativo e colorido seio da web. Passeei um pouco nos costumeiros sites de notícias; vi quanta coisa foi dita, “curtida” e compartilhada no Facebook (acredito que minha ausência não foi muito sentida, ou pelo menos pouco notada…), gostei de reencontrar  os sempre ótimos posts do meu amigo remoto (adicionado ao meu Face!) Paulo Nogueira, autor do site “Diário do Centro do Mundo”. Baixei alguns ebooks de David Hume, que já estão adicionados na biblioteca do Galaxy Tab. Vida normal!

Mas, como diria meu mestre Paulo Nogueira.

Mas, não obstante tanta coisa para se fazer na rede, não pude deixar de notar que esse período desplugado me trouxe algumas lições. A primeira é que percebi que não estava lendo tanto como devia e gostaria (minha lista de livros – de papel e digitais – inacabados estava crescendo de forma lenta, mas constante). Então retomei algumas dessas leituras interrompidas e fiquei feliz de poder concluí-las nesses dias “vagarosos”. Por que vagarosos? É que, já que não estaria concentrado no ritmo frenético da internet, me pus a gastar todo meu tempo ocioso fruindo deliciosas páginas – ou deslizando o dedo na tela do tab, quando queria ler algum livro digital.

A segunda impressão é que notei como estava tenso, intelectualmente inquieto, quase não conseguindo relaxar, fruto da inútil tentativa de me manter permanentemente informado. Não foi muito fácil trocar toda essa agitação digital por tardes tranquilas, sentado nos fundos da casa, um livro na mão, que eu vencia vagarosamente, ao tempo que bebericava uma fumegante xícara de café…

E por último, a mais importante das lições: embora não irei deixar de gastar um tempo considerável navegando na web, não vou desconsiderar o tempo gasto com uma higiene mental mais profícua e natural. Lerei os livros que me esperam numa lista interminável, embora escolhidos por um critério mais rigoroso: os que me acrescentem mais sabedoria para lidar com a vida, a exemplo dos clássicos ensaios Sobre a brevidade da vida, e os Aforismos, ambos do pensador romano Sêneca, de onde cito uma passagem que pretendo guardar por toda a vida:

“Concentra-te, durante a tua curta vida, nas coisas essenciais, e vive em paz contigo próprio e com o mundo”.

Carr pode até provar que a internet é prejudicial ao cérebro humano. Mas, como tudo o que está à nossa disposição, se utilizada com equilíbrio, pode nos abrir possibilidades úteis e benéficas, como os tantos bons livros à disposição a quem quiser se embrenhar por páginas magistralmente bem escritas.

Read Full Post »

O gênio...

JULIEN SOREL SE PARECE com tantos jovens por aí. Ambicioso, inteligente, possuidor de uma memória prodigiosa, amante inveterado. Disposto a fazer qualquer coisa para galgar os preconceituosos degraus da sociedade francesa, onde vive, no século XVI. Inclusive a morrer…

Esta foi a combinação mais que perfeita do personagem principal de “O vermelho e o negro”, livro que acabei de ler, do escritor francês Henri Marie Beyle, mais conhecido como Stendhal.  Sem dúvida, posso afirmar que este é um dos grandes clássicos de todos os tempos, tanto por sua importância literária como por ser o retrato de uma sociedade marcada pela preconceito, pela ambição desmedida, pelo cinismo e pela ganância.

Julien, nascido de uma família pobre dos arredores de Verrières sempre sonhou ser alguém na vida. Sua inteligência ímpar, aliada à memória impressionante o levou a trabalhar como professor particular dos filhos do prefeito da cidadezinha imaginária de Stendhal. Daí para o sonhado reconhecimento foi um pulo, que o levou a conviver no meio da aristocracia pedante e preconceituosa, à qual Julien odeia.

Mas as linhas magistralmente escritas de Stendhal ficam mais evidentes ao descrever as tórridas paixões vividas pelo jovem seminarista. Com a Senhora de Rênal, esposa do prefeito de Verrières, Julien experimenta um sentimento sincero, calmo e que o envolve de uma atmosfera de imensa sofreguidão; já com a Srta. de La Mole o que ele tem é uma paixão cega, egoísta e fatal, que o faz cometer loucuras por alguns instantes de pura volúpia aos pés de Mathilde. Julien se vê em meio a dois sentimentos tão singulares, a ponto de perder a cabeça e, em nome dessas paixões arrasadoras, cometer um crime contra a esposa do prefeito, o que acaba por custar-lhe a própria vida…

Eu, saboreando as páginas de Stendhal...

Como disse em outras oportunidades, ler é um desafio muitíssimo prazeroso; algo que muitos não querem ou não têm oportunidade de experimentar. Somente a leitura é capaz de transformar as pessoas, estimular a criatividade, trazer um prazer diferente. Com a era cibernética, os jovens de hoje jamais trocariam a algazarra digital, a internet e as redes sociais pela quietude de explorar vagarosamente páginas bem escritas como são as de Stendhal. Muitos dizem que vivemos o século da superficialidade, onde cada pessoa acaba se tornando “profunda como um pirex”.

Ainda não foi respondida a pergunta sobre se estamos nos tornando mais imbecis, com a internet. Mas, com certeza, a rapidez da informação jamais substituirá os tijolos pacientemente lapidados do conhecimento adquirido através dos livros.

Read Full Post »

Rua Matacavalos, onde viveram Bentinho e Capitu...

EM POST ANTERIOR, falei um pouco sobre umas das obras fundamentais do Realismo Brasileiro: o livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, do grande escritor Machado de Assis.

Mas hoje, irei considerar o que, creio, seja sua maior obra literária: o clássico de todos os tempos – Dom Casmurro.

Se naquele primeiro, o livro fora escrito por um defunto autor, quando, na tranquilidade da pós-vida –  que lhe permitiu falar dos seus infortúnios com uma acidez e pessimismo incomuns para nós, pobres mortais – neste o autor, Bento Santiago,  o fez em vida mesmo. Desde a primeira página, onde tentara recompor os dias de sua infância e adolescência, não deixou de fazê-lo sem utilizar-se do mesmo recurso: expor com uma crueza fria a hipocrisia, a perfídia, a dissimulação, o fingimento, próprio das pessoas.

Se Machado foi originalíssimo na forma como concebeu a história narrada pelo morto Brás Cubas – deus o tenha! – o foi mais ainda ao criar o maior enigma já dantes narrado: até hoje não se sabe precisamente se a esposa de Bentinho, Capitu, cometeu realmente adultério com seu melhor amigo e companheiro de seminário, Escobar, que supostamente seria o verdadeiro pai do seu filho, Ezequiel.

Juazeiro-Ba, de ontem...

Desconfiança esta que o fez maquinar as mais diversas formas de se livrar da mulher e do filho, que foram desde seu próprio suicídio até em envenená-los.

A genialidade de Dom Casmurro está justamente no fato de que, ao ser comparado com histórias análogas de adultério e traição, foi mais além do que livros como Ana Karenina e Mme. Bovary. Nestes percebe-se muitos lugares-comuns e o fim que levaram as personagens adúlteras é quase idêntico. O que não ocorre em Dom Casmurro. Embora o autor guarde ternas lembranças da linda garotinha da Rua Matacavalos, a Capitu dos olhos de ressaca, oblíquos e dissimulados, que amara ainda no início da sua adolescência. Mas, ainda que nutrisse tal sentimento por ela, jamais compreendeu o que realmente se passava por seu coração. Por mais que ela demonstrasse um grande afeto por nosso herói, com a mesma certeza se mostrara tão pouco fiel a este amor.  E este foi um dos motivos porque Bentinho andava tão desconfiado, ao ponto de certa manhã, não mais suportando a grande semelhança de Ezequiel com o falecido Escobar, decide romper o casamento com a amada de toda sua vida…

...e eu com Dom Casmurro nas mãos, na Juazeiro-Ba de hoje, onde vivo.

Certamente é um livro que vale a pena ser lido e relido. Muito mais, em se tratando de Machado de Assis, incontestavelmente, o nosso maior expoente literário.

Read Full Post »

O morto continua falando...

LER MACHADO SEMPRE será uma experiência nova. Eu mesmo que tive a insigne oportunidade de poder ler todos os seus romances, na sequência em que foram publicados, posso afirmar com conhecimento de causa: Machado será sempre o nosso melhor escritor!

Nesse instante em que concluo mais uma “treleitura” do romance Memórias Póstumas de Brás Cubas fico matutando em como alguém pôde escrever grandes livros com uma profundidade tão simplória e, ao mesmo tempo, tão singular. Em como, apesar de já conhecer as histórias machadianas, na medida em que folheio suas páginas magistralmente construídas, um sempre renovado assombro toma a minha mente de leitor claudicante.

Então penso nos infortúnios amorosos porque passou o Brás Cubas. No amor afoito (e caro!) por Marcela. Na beleza estranhamente maculada por uma perna coxa de Eusébia. Na passagem tão inopinada pela vida de Nhã-Loló, beleza pueril subtraída pela febre amarela. Por fim, no trágicômico romance que manteve com Virgília, figura tão enigmática quanto atraente, que acabou tomando todos os espaços da vida – e da morte –  de Brás.

Uma trama assim só poderia mesmo ser sobrepujada pelo maior dos romances concebidos da verve machadiana: Dom Casmurro.

Mas, por enquanto, antes de reler a história de Bentinho e da dúvida jamais sanada que levou-o a duvidar da fidelidade de sua esposa Capitu, vou ficando com Brás e suas elucubrações nada gentis postergadas pelo verme que primeiro roeu as frias carnes de seu cadáver.

Read Full Post »

 

Paulo, o jornalista...

QUANDO GURI, SEMPRE que me perguntavam a quem puxei no hábito (e gosto) pelos livros, nunca sabia responder. Na casa materna, eu não tive quem me influenciasse a gostar tanto de ler. Minha mãe só cursara o ensino fundamental; já meu pai, embora tivesse estudado até o segundo ano do antigo ginásio, jamais o vi lendo qualquer coisa na vida. Então, como isso começou, quer dizer, minha fome pelos livros?

A resposta: não sei!

Mas eu cresci. Muita coisa mudou desde aqueles saudosos dias de guri. Só não no que tange aos livros, que sempre estiveram presentes na minha vida. O que mudou, na verdade, foi a forma como leio hoje, bem como a qualidade do que e quando leio. Deixe-me ser mais claro. Quando guri, eu lia de tudo, só que muito dos livros que passaram por minhas mãos eu os li sem a devida maturidade para uma compreensão efetiva. Alguns livros memoráveis tiveram uma segunda, e até terceira releitura de minha parte, então já adulto e com uma percepção mais apurada das belas nuances desses amigos queridos. Como também a qualidade dos livros melhorou: não preciso dizer para minguém que existem livros que jamais deveriam ser escritos, ou lidos, de tão ruins!…

Então, como escolher verdadeiros bons livros, nos dias de hoje, em que há uma infinidade de títulos à disposição?

É aqui que entra meus dois novos velhos amigos: Paulo e Fábio.

...e Fabio, o escritor barato

De Paulo Nogueira, aprendi a buscar e ler livros que tratam da realidade dura e crua bem como aqueles que encerram a sabedoria de grandes escritores que primaram pela compreensão das questões da vida. Sua visão apurada de jornalista experiente, aliada ao imenso arcabouço de leituras que fez e faz, me fizeram desejar ainda mais aprofundar-me em livros importantes da literatura, tanto pela sua robustez literária como por legar aos nossos dias a realidade de uma sociedade dinâmica e em constante mutação que foi à época em que foram produzidos. Livros como A Família Moskat, de Singer, obra que aborda a trajetória de uma abastada família judaica e seu lento declínio ao longo dos cinquenta anos que antecederam à 2ª Guerra Mundial; os Capitães da Areia, do colosso baiano Jorge Amado, um verdadeiro livro-denúncia do descaso social vivido por moleques de rua nos trapiches soteropolitanos.

Já com Fabio Hernandez tenho aprendido a cultivar uma literatura mais sinestésica, livros que buscam olhar para dentro da natureza humana, a perscrutar o cinismo,a cobiça, o hedonismo, como se fossem agentes destiladores dos não virtuosos apetites humanos, dos arquétipos e estereótipos, da eterna e muitas vezes infecunda busca por si mesmo e sua realidade interior. Como exemplo cito o O Grande Gatsby, de F. Scott Fitzgerald, livro que trata da busca pelo poder, pelo dinheiro, pela estabilidade, as metas de Jay Gatsby, ainda que esses alvos sejam distorcidos por sua própria ignorância e pela corrupção encravada na sociedade à qual ele está inserido. Um verdadeiro clássicos da busca pelo amor perdido…

Mas são tantos, há aqui obras monumentais como os Irmãos Karamazov, de Dostoievski, os livros de Flaubert, a exemplo de Mme. Bovary, e Eça de Queiróz e seu Os Maias, importante obra da literatura portuguesa, que descreve uma sociedade de transição, caracterizada por uma aparência de despreocupada alegria de viver, escondendo um não disfarçado mal do século…

Esses são Paulo e Fabio. Dois apaixonados pela leitura, pelos grandes clássicos. Estar com eles é sentir-se intimado a buscar a profundidade da cultura, das páginas escritas com esmero e talento, próprio dos grandes escritores, que juntos formam uma plêiade incomum, de mortais que, na verdade, nunca morreram.

 

Read Full Post »


Em Fortaleza-CE, saboreando o viciante veneno de Salander...

Todos que me conhecem sabem o quanto gosto de ler. Uma paixão que trago desde os tempos meninos na distante (tanto territorialmente quanto sentimentalmente) Floriano. Na casa materna, exatamente sob a sombra da grande mangueira que reinava em nosso quintal, me perdia fecundamente nas páginas que não cansava de devorar. Ali conheci um pouco do mundo, sem, contudo, sair sequer do meu quintal sombreado…

Muitos jovens, naquela época, nunca chegaram a conhecer o Pequeno Príncipe, ou só o fizeram pela TV. Eu preferi ver o colorido das páginas encantadoras da historieta embargada de emoção e profundas verdades, do Saint-Exupèry. Ali soube da responsabilidade que é o cativar alguém. Mesmo que nunca tenha sabido por isso em prática.

Um dia, quem sabe…

Mas muitos outros autores e livros passariam por minha vida, desde então. Alexandre Dumas, Machado de Assis – que li quase que na íntegra, a famosa trilogia de Victor Hugo – Os miseráveis, Os trabalhadores do mar, Nossa Senhora de Paris. Também Milan Kundera, F. Scott Fitzgerald, Franz Kafka, e tantos outros, que não saberia listá-los todos.

E não quero parecer pedante ou fazer apologia a alguns livros, muito embora todos os autores acima deveriam ser lidos por todos. Mas li muitos outros, que numa classificação, estariam posicionados como livros e autores secundários. Um exemplo? O atual sucesso de vendas, que são os três livros mais relevantes da obra de Dan Brown, O Código da Vinci, Anjos e demônios, O símbolo perdido. São livros que, embora sejam construídos com muitos clichês e lugares-comuns, fascinam o leitor, sobretudo aquele que é fissurado por histórias de conspirações. Que o diga o personagem central, professor Robert Langdon…

Outro exemplo ainda, a explosiva Trilogia Millenium, do sueco Stieg Larsson, que conheci através do grande jornalista Paulo Nogueira, quando em visita ao seu blog. A cativante e não pouco excêntrica Lisbeth Salander, com suas habilidades de hacker, encheram exatos dezoito dias, em que li a trilogia inteira (mais ou menos 1.800 páginas!).

Diante de tantos problemas, de um mundo onde virou modismo cultivar valores decaídos e superficiais, ler é um alívio. Aristóteles, um dos mais importantes filósofos de todos os tempos, dizia que o livro é um animal vivo. Então convido você a empreender caçadas mais e mais ousadas a esses animais que valem a pena serem cultivados.

Read Full Post »

Faz bem para o coração...

LER, PARA MIM, sempre foi algo muito fácil. Não porque tive muita influência em casa ou por qualquer outro motivo que não fosse o prazer de viajar pelo universo maravilhoso da página impressa.

Dentre as muitas aventuras em que me lancei nesses anos todos, posso dizer (sem falsa modéstia) que ler “A Cabana”, de William P. Young, foi uma experiência muito interessante e diferente. Não pela história – até comum –  contida nas páginas desse pequeno grande livro; não por encará-lo como mais um livro de auto-ajuda, que, ao meu ver, não é a única classificação que posso fazer em “A Cabana”. Mas justamente por ser um livro escrito (acredito!) com o coração para tantos corações que desaprenderam a arte da reflexão.

Não é novidade que passamos a vida inteira nos abarrotando de conceitos, de preconceitos, de achismos e suas conjugações. Como também transformamos, nessa caminhada, algumas coisas bem gostosas de se fazer, num mero clichê. Como o curtir a solidão. A solidão boa, é claro. E onde quero chegar com isso? Justamente no ato de esvaziar-se a si mesmo, de uma forma tal que possamos enxergar nossa própria imagem, sem máscaras, sine cera, ou sem cera, como diziam os atores helênicos. Enxergar-se tal como somos talvez seja a tarefa mais difícil, sobretudo nesse nosso mundo moderno, onde reina o culto da superficialidade e dos relacionamentos via redes sociais.

Mas onde ficamos com tudo isso? Por que o medo de ouvirmos aquela vozinha que vem lá de dentro, que costumamos sufocar com o som do iPod, com a correria da era moderna, com a internet e a tv invadindo este momento a sós consigo mesmo?

Ler “A Cabana” me fez refletir em tudo isso. Foi bom. Com certeza o será para quem tiver a coragem de se ver além de apenar olhar-se.

Read Full Post »

charlles campos

Impressões literárias e fotogênicas

r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias

Mundo de K

Impressões literárias e fotogênicas

livros que eu li

Impressões literárias e fotogênicas

%d blogueiros gostam disto: