Liberdade, em parte última

antídoto do fim…

PABLO SORVE O CAFÉ saboroso, preparado na cafeteira elétrica. O apartamento do 17ª andar começa a ser invadido pelas primeiras sombras do fim do dia. Sentado na varanda, vê ao longe os prédios manchados pelo alaranjado do sol que se põe. Daqui a pouco serão apenas torres cravejadas de luzes brancas, amarelas e azuladas.

Dá uma última olhada no livro pousado em seu colo. O “Retrato de Dorian Gray” tem sido um bom passatempo nesses dias de puro ócio.  Tira um cigarro do maço e, entre tragadas demoradas, contempla o horizonte. Sair de sua rotina massacrante foi, de fato, uma boa ideia. Os dias insípidos, repletos da dura rotina das grandes metrópoles, ficaram para trás.

Ali, num ponto remoto de Fortaleza, sentia-se livre. Podia acordar bem tarde, fato que desesperavam as camareiras que buscavam adiantar seus afazeres; para intensificar o seu  protesto contra as regras, pedia o desjejum incomum em hotéis como o que estava: torradas com chocolate, ao invés de café.

Após comer, dava uma rápida caminhada pelo calçadão, os olhos perdidos na imensidão aquático-azulada do Oceano Atlântico. Uma música do iPod tornava estes passeios ainda mais lúgubres. E era disto que gostava… Em algum ponto, sentava-se sob a sombra de coqueiros levados pela dança de um vento fresco, sacava o livro e punha-se a se perder por lugares ainda mais distantes e remotos. Pairava no ar um gosto salgado de saudade. Era uma saudade prematura, por saber que logo teria de voltar para os dias sem graça que consumiam sua mente e espírito; voltaria a ser o mesmo Pablo, perdido nas suas más escolhas, farto das banais relações que o arrodeavam, envolto pelos fantasmas que o atormentavam, cobrando um legado de dor, vazio e nada…

Agora, ali, sentado na varanda, vendo os prédios serem envoltos por luzes noturnas, sentiu vontade de estar com Jairo e Alberto, os seus amigos alhures. Com certeza Alberto sacaria do seu violão, e dedilharia, naquele fim de tarde, canções que falavam de tantas coisas: da certeza de que tudo na vida resumia-se a mistério, dor, desilusão e fim; dos amores incompreendidos e que, por nunca terem se tornado reais, iriam imortalizar-se no ideário quimérico de suas vidas. Pablo esboça um sorriso ao lembrar do amigo: a figura esguia e magra, o cigarro pregado no lábio inferior, a barba de vários dias, o cacoete habitual quando iria dizer algo sério, as mesmas ideias ditas sempre de forma diferente. Em algum momento Alberto partiu, deixando atrás de si um rastro de vazio marcado por sua ideologia atéia. Que Deus o tenha, pensa Pablo ao imaginar o amigo horrorizando-se ao ouvir aquela frase tão embargada de fé e misticismo.

Jairo não teve destino diferente. O único entre os três que possuía um talento singular, tanto musical quanto literário. Em algum instante fora traído pela própria dependência de seu corpo esquálido e maltratado. Jairo entregou-se à confusão mental de seus tantos sonhos. Jairo, Jairo, o que fizeste contigo?…

De alguma forma a liberdade era uma palavra com um significado singular para cada pessoa. Para Alberto, era poder não crer; para Jairo, entorpecer-se diante um mundo cruel. E quanto a Pablo, onde estava a metafísica da sua liberdade? Em desimpedidamente buscar a si mesmo…

2 respostas para “Liberdade, em parte última”

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