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Título: O inferno dos outros
Título original: A horse walks into a bar
Autor: David Grossman (Israel)
Ano de publicação: 2016
Tradução: Paulo Geiger
Editora: @companhiadasletras
Páginas: 208
Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️

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Era para ser um show de stand up. Deveria haver risos nada comedidos. Isso numa cidadezinha do interior de Israel, Netanya. Nele o humorista já decadente Dovale Grinstein tenta arrancar um punhado de risadas da plateia com as já tradicionais piadas que vão desde a depreciação da cidade, do público e dele mesmo.
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Mas, para cada piada contada, muitas delas cutucando temas espinhosos e politicamente incorretos aos costumes judaicos, Dovale vai desfiando um pouco de seu inferno pessoal, quando ainda menino passara pelo trauma de perder a mãe. Dos risos ao repúdio Dovale vai recebendo diversas reações negativas de sua plateia, que vão desde impacientes reações até a saída das pessoas cansadas e irritadas; isso porque ninguém está interessado em suas tragédias pessoais, mas nem isso fê-lo calar-se: ao invés, ele adentra cada vez mais no universo tenebroso origem da dualidade em que ele tem vivido até então.
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Talvez apenas uma pessoa presente entre o público inamistoso receba bem essa partícula do que Dovale é, Lazar, juiz aposentado que no passado dividiu seus dias com o humorista. A simpatia por ele demonstrada se dá na forma de olhares cúmplices e de pequenas anotações que vão delineando a atuação de Dovale. O público, a princípio, não entende onde ele quer chegar com o rumo de suas divagações, mas se percebe que o que menos querem é não rir ja que “pagaram por um show de stand up”.
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Ainda assim, a curiosidade natural do ser humano impede uma evacuação imediata. Antes, cada espectador — e aí inclui-se também o atônito leitor — permanece, vai deglutindo a carga amarga das confissões do artista…
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David Grossman é um escritor israelense contemporâneo. Do mesmo quilate de Amoz Oz, o autor consagrado de romances como “A caixa preta”, “Judas” e “Cenas da vida na aldeia”, é um autor sofisticado, cosmopolita, inteligente. Percebi no seu texto uma habilidade em vagar por temas diversos, polêmicos ou não, com uma elegância estilística de quem sabe escrever bem e sobre qualquer coisa. A maneira como o drama de Dovale vai avançando num crescendo constante, (sua dor de tão humana e por isso compartilhada entre os presentes como que magnetiza as atenções) como numa peça musical, cujo sinistro ápice se dá com a debandada do público e um exaurido humorista diante de uma plateia vazia, mas ali na penumbra está Lazar, seu único publico fiel, dividindo a dor do amigo que não exita em encerrar o espetáculo com a frase final mostrando que, aconteça o que acontecer, “o show tem que continuar”.
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Recomendo vivamente!

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Título: A amiga genial: infância, adolescência (Série Napolitana 1)
Título original: L’amica geniale: infanza, adolescenza
Autor: Elena Ferrante
Ano de publicação: 2015
Tradução: Maurício Santana Dias
Editora: Biblioteca Azul (@globolivros)
Páginas: 336
Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️

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Meu primeiro contato com a escrita da Ferrante se deu com “A filha perdida”, um drama que narra os acontecimentos durante as férias da professora Leda no litoral sul da Itália. Naquela leitura, dinâmica e de uma fluidez poeticamente maravilhosa, já percebi o porquê do alvoroço literário em torno de sua obra.

Uma amiga remota do Instagram, quando lhe dissera tencionar começar a ler a Série Napolitana, me advertiu que poderia estranhar o ritmo da tetralogia, segundo ela muito menos dinâmico que em outros livros da Ferrante.

Contudo, após a leitura de “A amiga genial”, tenho de admitir justamente o contrário do que ela mo dissera: a dinâmica arrebatadora da escrita de Elena Ferrante a sorvi também nesse início de série, tão bom de ler, tão simplório mas de um deleite incomum. E essa dinâmica não está na multiplicidade de acontecimentos e fatos em torno da história. Mas na habilidade da autora em contar e no próprio ritmo de palavras, ali confundidas e entranhadas nos pensamentos de Elena Grecco, a narradora no livro.

Lenu, como é conhecida, decide, após Rafaella (ou Lila) Cerullo sumir, relembrar o passado e reconstruir a história em torno da amizade das duas, iniciada na infância em comum vivida num subúrbio da Nápoles dos anos 50. Ali, num ambiente pobre, marcado por famílias desestruturadas e até violentas, Lila, recém-chegada, toma o centro das atenções no bairro e principalmente da vida de Lenu. Enquanto esta é uma menina estudiosa, bem comportada e cheia de sonhos, muitos dos quais ficar rica escrevendo livros, Lila é explosiva, mal comportada, às vezes me parecendo até selvagem. Lenu logo vê na amiga o que lhe falta: a coragem, a intempestividade e a ousadia, a inteligência genial, traços que por não os possuir a faz muitas vezes sentir-se deprimida, derrotada, incompleta. Logo ela percebe que essa incompletude é mitigada com a presença feroz da amiga, que à medida que vai entrando na adolescência, vai conquistando também os olhares nada cândidos dos outrora garotos da vizinhança.

Este primeiro volume de um total de quatro narra as descobertas, as frustrações, o nascimento do amor dessas duas amigas tão diferentes na essência, mas, que, percebe-se logo, impossível de vê-las uma sem a outra. Um livro deveras forte, emocionante, impossível de largar, tamanha a sedução que empesta a mente do leitor. Tanto pela forma como Lenu se expõe quanto às profundíssimas análises que ela faz de si mesma, do lugar onde vive e tenciona se libertar até o incerto futuro sem a presença marcante de Rafaella, que ela tanto teme. Então, no ápice do fim do livro, dadas as reviravoltas na festa que em si marcariam a desconexão de Lila da vida de Lenu, me pergunto: o que será dessa menina tão intensa, tão genial, mas tão presa que está à amiga?

Melhor emplacar a leitura do próximo volume.

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Título: Joe Speedboat
Autor: Tommy Wieringa (Holanda)
Ano de publicação: 2005
Editora: Rádio Londres
Páginas: 336
Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️

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Fransje, um jovem garoto da remota localidade de Lomark, passa quase um ano em coma depois de sofrer um acidente que o torna quase inválido. Não anda ( a não ser na sua charanga, uma espécie de carrinho) e não fala (utiliza largamente a escrita com seu braço sadio para expressar-se e entender o mundo). Sua vida, resumida pelo humor ácido com que vê e enxerga as coisas, é entremeado com os caudalosos cadernos onde passa a descrever o que passa ao seu redor e da própria Lomark e os ensinos milenares do mestre samurai Miyamoto Musashi, de quem Fransje retira a sabedoria para lidar com seu dia a dia.

Mas tudo muda quando Joe, um garoto recém chegado a Lomark, entra na vida de Fransje trazendo um alargamento de horizontes nunca pensado pelo pequeno personagem.

Narrado a partir da ótica de Fransje, sabemos que Joe é um menino engenhoso, que ocupa seu tempo fabricando pequenas bombas caseiras e o responsável pela construção do pequeno avião que levou Fransje a ver do alto tudo o que tem meticulosamente colocado em seus diários.

Este é sim um livro sobre amizade. Mas seria definir minimamente este livro que só comecei a gostar — confesso — lá pela metade, quando percebi que estava diante de uma obra bem mais profunda.

Por isso mesmo meu encantamento com a literatura holandesa. Desde que li Tirza (Arnon Grunberg, também publicado pela Rádio Londres) ano passado, quando Hofmeester ainda tem me tirado do sério na tentativa de compreender suas nuances, me decidi a buscar outros títulos contemporâneos holandeses. E é claro que há um grande abismo entre esses dois títulos e, portanto, muito pouco referencial de análise, mas vejamos. Se em Tirza você adentra na mente de um psicopata, em Joe Speedboat você toma parte na redescoberta da forma de viver a partir de um menino que tem sérias limitações, mas que aprende a converter sua aparente fraqueza numa força capaz de abrir horizontes antes inimagináveis.

Fransje é um personagem fascinante: sabe como contar a história de sua Lomark. No cronista Fransje você se depara com passagens como esta:

“Quando eu espiava pessoas que conhecia, elas se tornavam estranhas para mim. Criava-se certa distância e, paradoxalmente, não era a intimidade que aumentava, mas a sensação de alienação.” (Pag. 189).

Ele é hábil na forma de observar, captar, compartilhar seus sentimentos, sua raiva, seu embevecimento pelo que vê, sua opinião política, o dia a dia dos moradores de Lomark, o desaparecimento inexplicável do padrasto de Joe, depois de construir por meses, um barco, seu amor silencioso pela garota PJ. Ele sabe que é um amor impossível de ser consumado, diante das suas limitações. Essa impossibilidade é lindamente e tristemente registrada no trecho abaixo:

“Não queria que eles me vissem. Subitamente, uma grande raiva me invadiu ao pensar que eu não podia ficar de pé, e que só me restava olhar para ela, raquítico e mudo, de baixo para cima. Tinha de me obrigar a não imaginar o homem que poderia ter me tornado se eu não… daquela altura em que a olharia nos olhos, quais palavras usaria para fazê-la rir da mesma maneira que Joe ou o tal idiota do escritor faziam. (…) Na presença de PJ, meu defeitos se realçavam, e eu me encolhia e encurvava mais do que já fazia normalmente.” (Pag. 186-187).

Focando em Joe, Fransje se esmera. Seja no aprofundamento da sua amizade com Joe que vai da adolescência até vermos os dois já adultos, seja nas peripécias que Joe cria e sempre procura incluir Fransje, é quando seu melhor como contador se sobressai, quando ele nos ensina, mesmo que muitas vezes o faça às expensas do mestre Musashi, que basta uma mão amiga (no caso deles, um braço!) para que não se passe na vida sem de fato vivê-la. Talvez Fransje não saiba, mas eu trocaria os ensinos de Musashi por um daqueles diários… Ah, leiam o livro! É muito bom. E vocês saberão do que estou falando. 😉

 

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Título: O Largo da Palma
Autor: Adonias Filho
Ano de publicação: 1981
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 110
Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️

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Andar pela cidade velha da Bahia, Salvador, com seu casario secular, suas íngremes ladeiras cheias de curvas e de histórias, sua gente musical, sua cultura multifacetada, é uma aventura sem igual.

Mas, e o que dizer daqueles lugares singulares, verdadeiros nichos onde a história, sendo contada num bom “dedo de prosa” revelando nuances, detalhes e que trazem comoção, dos quais Salvador está cheia?

Com suas seis novelas, o excelente “O Largo da Palma” faz exatamente aquilo que eu, morador por três anos de Salvador, procurei viver intensamente: sorver em generosos bocados a beleza poética, nua e crua das gentes e dos lugares da Bahia.

Embora pequeno em tamanho, a prosa contida no livro do escritor e ensaísta Adonias Barbosa (1915-1990) consegue levar o leitor a enxergar cada casa, cada canto, sentir na pele a brisa vinda do mar e que se expande por todo o largo onde as novelas se entremeiam e comovem. A escrita direta, crua, sem rodeios, traz toda sinestesia das cores, dos cheiros e dos sons do Largo da Palma, um pequeno reduto entranhado entre a Mouraria, Nazaré e o Pelourinho, onde, coincidentemente há 15 anos pus pela primeira vez os pés na capital baiana.
Nesse pequeno cenário objeto da obra, Largo da Palma, acontecem as histórias narradas no livro. Histórias de amor, como a de Célia e Gustavo de a “A moça dos pãezinhos de queijo”, de perdição como em “Os enforcados”, de tragédia como a comovente história do velho negro Loio de “Um avô muito velho”. Todas as histórias se tocam, mas não os personagens. Antes, o autor menciona em cada conto os lugares onde prefere conduzir cada trama, como a pequena padaria onde Célia encontrou o amor ou mesmo o bordel onde a desconhecida prostituta do conto “Um corpo sem nome” (este conto foi um dos textos utilizados no vestibular da Uneb de 2017, que prestei nesse fim de semana e que me fez buscar este livro lindíssimo!) todos desembocando no próprio Largo, defronte à Igreja Nossa Senhora da Palma.

Talvez o personagem principal comum a todos as seis novelas do livro, silencioso observador de anos sem fim, o ambiente retratado do Largo da Palma é como um laboratório em tamanho reduzido de toda a encantadora beleza que sempre busco, em visitas periódicas, quando vou a Salvador.

Como morador transitório, sempre buscava o silêncio daquelas ruas tão repletas de história, temperado com o salgado cheiro do mar. O vai e vem de ruidosos turistas muitas vezes embota o encontro da poesia que é a Cidade Alta, onde de várias balaustradas como a de Santo Antônio Além do Carmo, a minha preferida, me sentava contemplando a vastidão esverdeada da Baía de Todos os Santos, ou ainda ali me perdia nas páginas igualmente embevecedoras de Jorge Amado. Nessa mistura de literatura e paisagem, aprendi a amar os homens do mar, verdadeiros gladiadores em busca do fruto das águas, seus rústicos saveiros, os trapiches alumiados pela noite da Bahia, a musicalidade dos moradores, tudo isso revi lendo O Largo da Palma, um achado, já que o livro foi publicado faz muitos anos.
Se antes buscava em Jorge Amado essa Bahia que muitas vezes foge aos olhos destreinados, Adonias Filho me comoveu com suas curtas páginas, mas que de tão profundas e mágicas contam uma Bahia que é impossível deixar de amar.

A Adroaldo Ribeiro Costa, outro escritor que soube captar o espírito da cidade velha da Bahia e cujas crônicas sempre volto a ler, e a Jorge Amado, membro efetivo de minha curta lista de escritores favoritos, junto Adonias Filho, eleito para a ABL em 1965, um gigante, um retratista em preto e branco do que há de melhor, em termos de escrita, na Bahia.

 

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Título: Os fatos – a autobiografia de um romancista
Título original: The Facts – A novelist’s autobiography
Autor: Philip Roth (EUA)
Ano de publicação: 1988
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 208
Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️

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A fórmula sempre dá certo: qualquer bom leitor que possua sua lista de escritores prediletos vai querer se deleitar sobre sua vida, os detalhes e nuances por trás da forma como os livros foram concebidos.
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Philip Roth compõe minha [curta] lista de escritores essenciais. Assim como fiz com Machado de Assis — outro escritor essencial– de quem li todos os romances e mais uma porção de contos e crônicas, pretendo ler todos os seus romances também. Com a diferença que não na ordem em que foram publicados, como fiz com os romances machadianos.
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Enquanto em Machado eu me deleite com o melhor do Realismo tupiniquim, com seus laivos irônicos e dissecadores da alma humana, em Roth encontro uma prosa de uma elegância sem igual, cujos temas espinhosos e nada agradáveis como a morte, a questão judaica e o próprio sentido da existência são desfiados em livros maravilhosos como Homem comum e Patrimônio.
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Neste Os fatos nos é apresentado um pedaço generoso da vida pessoal do autor de O complexo de Portnoy. Abarca desde a juventude no bairro de Weequahic, em Newark até mostrar um Roth já consagrado, mas saído de um casamento devastador que muito mais que dinheiro, tornou infernal a sua existência. É um livro revelador sob vários aspectos. Não traz exatamente aquilo que todo leitor quer encontrar numa biografia de um autor amado, como as leituras que fez, de onde foram extraídas as ideias que conceberam livros ou mesmo detalhes banais, que em algum grau traz deleite ao fã-leitor. Contudo, você encontra facilmente em Os fatos detalhes que compõem boa parte da matéria tratada em seus livros, principalmente no que se refere à sua essência judaica. Roth aparentemente busca ter uma vida o mais americanizada possível. Em nenhum momento de sua narrativa você o vê preocupado com tradição, hábitos e exigências com objetos ligados ao judaísmo. Talvez por isso possa, com toda propriedade, estar sempre pondo em xeque seus personagens judeus, com suas incongruências e ditames.
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Desse livro gostei muito de saber como o autor se depara muitas vezes com suas criaturas. Ou mesmo percebe que não é possível dissociar um do outro. Muitas vezes Roth percebe essa dualidade, ou mesmo sua incapacidade de criar personagens com nuances tão complexas. Notável a passagem em que ele analisa o “golpe” que sua ex-esposa lhe deu ao comprar uma amostra de urina de uma negra que estava grávida e fê-lo crer que iria ser pai….
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Aliás, é na vida emotiva que o livro mais se detém, principalmente no casamento falido que teve com Maggie Williams, uma mulher desestruturada e incontrolável que além de enganar Roth com uma falsa gravidez, é a sua maior e mais terrível algoz por anos, até morrer num acidente de carro. Sim, escritores tem vidas aparentemente normais.
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Roth jamais decepciona: mesmo falando de si mesmo através da boca de um de seus mais primorosos personagens, Nathan Zuckerman, ele vai revelando uma faceta que a meu ver, em nada o diminui.

 

E na melancólica partida da luz, jaz mais (ou menos) um dia…

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Título: Ensaio sobre a cegueira
Autor: José Saramago (Portugal)
Ano de publicação: 1995
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 310
Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️

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Um motorista parado num sinal vermelho de repente percebe que está cego. Seu desespero chama a atenção de outros motoristas e pedestres, um deles mesmo o ajuda a chegar em casa, mas não é exatamente um bom samaritano, apenas um ladrãozinho de carros que vê oportunidade na desgraça alheia.
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Dali em em diante, na cidade mítica criada por Saramago as pessoas começam a apresentar os sintomas da “cegueira branca”, característica comum a todos que tiveram seus olhos inutilizados por ninguém sabe porquê, causando desespero e medo por parte dos que “ainda vêem”.
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É assim que nos é apresentada a história narrada neste livro soberbo, o Ensaio sobre a cegueira. Sendo meu primeiro contato com a escrita de Saramago, não pude ter escolhido melhor começo: um livro poderoso, tanto na envergadura estilística quanto na profundidade de reflexão que sua leitura causa.
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É fácil ver-se no cenário imaginário de Ensaio sobre a cegueira, na angústia e medo por não enxergar onde os pés são postos, na forma como a dignidade humana, ou o que achamos que isso seja, vai se deteriorando, causando o esfacelamento ético e moral vivido pelos cegos aquartelados num manicômio que lhes imprime uma nefasta quarentena, este livro, creio eu, não pode ser contido numa simples e mera resenha como esta que pretensiosamente tenta decifrá-lo.
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Isso porque este romance é uma espécie de ode ao cabedal emotivo do ser humano, um duro e realístico retrato da alma humana, onde ali é mostrada a pequenez, o hediondo, o reprovável, mas também a solidariedade, o desapego, um altruísmo incomum presente principalmente na “mulher do médico”, o surreal, muitas vezes representado nas reações aparentemente humanas do “cão das lágrimas” (sempre me fez relembrar os complexos mecanismos e pensamentos da Baleia de Vidas Secas).
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Ensaio sobre a cegueira vagueia ainda pelo terreno da fé cega, do sentimento de perseverança, de pertencimento e também da perda da identidade (não há nomes, como se os personagens não passassem de “invisíveis sociais”), do ódio vingativo, até desembocar nos mais animalescos instintos. Enfim…
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Demorei a ler a minha edição com texto no português de Portugal não somente pelas palavras e expressões que não conhecia, mas principalmente pela total ausência de pontos de interrogação, o que traz ao leitor a responsabilidade adicional de dar uma carga interpretativa a perguntas que não parecem ser perguntas (li numa resenha que outro livro do Saramago, o Memorial do Convento, também tem alguma proposital ausência de caracteres como sendo um livro de um parágrafo só. Vale conferir…).
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Ensaio sobre a cegueira é daqueles livros cujos múltiplos significados merecem mais de uma leitura. Talvez, posteriormente, ainda venha acrescentar algo mais nessas singelas palavras porque, mesmo sendo um leitor disciplinado, a leitura de Saramago exigiu muito, tira-me da inércia e passividade interpretativa e sem convite me lança no meio das agruras e belezas dessas suas páginas. Não poderia ser diferente para o ganhador do Prêmio Nobel de 1998. Agora é partir para outras obras desse titã lusitano da literatura!

charlles campos

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