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Leitura 33/2020 – Lista 1001

Adeus às armas [1929]

Orig. A farewell to arms

Ernest Hemingway (EUA, 1889-1961)

Bertrand Brasil, 2018, 406 p.

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“Queria esquecer a guerra. Eu havia declarado a paz em separado” (Posição Kindle 3345).

“Mas você não ama o chão de um vagão, nem canhões com cobertura de lona, nem cheiro de metal lubrificado ou uma lona que a chuva atravessa, mesmo sendo tão confortável estar aqui debaixo da lona e com todos esses canhões; acontece que você ama uma pessoa a qual não pode sequer fingir que está aqui, agora” (Posição Kindle 3409).

Sim, mais um livro do Hemingway – o cara que logrou o prêmio Nobel de literatura de 1954 – que leio. Com este, já são cinco os livros que li dele. E, como já previa, mais um livro insosso, medíocre (na média), desconexo, dispensável, para dar envergadura à minha teoria de que os críticos da Academia, aqueles que negaram o Nobel a Roth, o grande escritor essencial, sofriam de obtusidade córnea ou má fé cínica, no dizer de Eça de Queiroz, outro escritor essencial.

Eu sabia onde estava me metendo: depois de tantos livros fracos, sem estofo, com diálogos e passagens sofríveis, eu sabia intimamente que iria me decepcionar, mas queria muito ler este livro, por dois motivos: pelo tema da guerra e por ser um dos primeiros livros do escritor, que talvez pudesse ter sido concebido com algum esmero a mais.

A história transita em torno do tenente Freddy Henry, um oficial a serviço do exército italiano que, ao se “cansar”da guerra, resolve abandonar sua função e posto (era responsável pelo serviço de ambulâncias) e deserta, fugindo para a Suíça. Hemingway introduz um improvável amor entre Henry e a enfermeira Catherine, com quem foge num bote pelas águas geladas do norte da Itália. Eles professam amar-se; ela acaba engravidando; no fim, um parto difícil que ceifa a vida do filho e da mãe…

Não nego que Hemingway não tenha tido boas ideias para seus romances. Por exemplo, neste, são epicamente notáveis as passagens em que Henry decide pela deserção e pelo fuzilamento e foge numa retirada dramática pela mata castigada pelo frio. É, talvez, a parte mais aproximada de uma história que se passa no tempo da guerra (quem puder, leia o excelente “Nada de novo no front”, um belo e excelente livro!).

Mas há algo em sua forma de contar que é patético, raso e sem nexo. Uma mulher ridiculamente submissa a Henry, sempre com palavras excessivamente açucaradas que soam quase imbecis; o próprio drama do tenente Henry, um homem que busca sobreviver em meio à guerra, que para mim não soou tão diferente do que a agonia de um gato que procura pegar uma mosca; um mar de clichês e mais clichês que tornam essa orgia de mais de 400 páginas um exercício de paciência incomum. Tenho para mim que ou Hemingway tinha algum prazer na autossabotagem, tamanha era sua habilidade em escrever livros tão ruins.

Então me vem os exemplos na seara da música, aqueles filhos de cantores consagrados que só vieram ao conhecimento do público pelo carisma e dinheiro de seus pais famosos e verdadeiramente talentosos, e ficam patinando numa carreira patética e sem qualquer originalidade. É mais ou menos o que vejo em Hemingway, um autor levado demasiadamente a sério por uma obra que até um Irving Wallace seria capaz de escrever melhor.

Este era o último livro de Hemingway que nutri desejo em ler. Acabou-se a agonia. Agora estou em paz e com a consciência lavada.

Leitura 32/2020

O rei de Havana [1999]

Orig. El Rey de la Habana

Pedro Juan Gutiérrez (Cuba, 1950-)

Companhia das Letras, 2017, 184 p.

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“Apesar de todo aquele vestuário novo e distinto, Rey continuava parecendo o mesmo mulato morto de fome, magro, desnutrido, com a pele dos braços e das pernas coberta de bolhas e furúnculos de pus das picadas dos mosquitos e maruins, o cabelo desgrenhado e sujo, os olhos remelentos e, sobretudo, aquele ar de susto e desamparo, temeroso de levar um pontapé na bunda a qualquer momento” (Posição no Kindle 2481/68%).

O livro do escritor cubano Pedro Juan Gutiérrez relata, através dos olhos de Reynaldo, um menino que perde irmão, mãe e avó repentinamente, uma Havana nos anos 90 marcada pela escassez, pelas condições sociais precárias e pelo constante sentimento de abandono. Ainda aos 13 anos, Rey acaba sendo enviado para um reformatório e, após fugir, começa suas aventuras e desventuras pela cidade de repente agigantada.

Apesar do título, que soa um tanto anacrônico, e da percepção canhestra que Rey tem de si mesmo, e apesar de viver uma liberdade própria, sem freios, sem limites, regada a muita bebida e sexo desmesurado, o que Rey experimenta de fato é a solidão, o eterno conflito interno que vive, a privação extrema e a antipatia dos seus patrícios. O autor é direto, sem romantismos; se utiliza duma linguagem crua, ferina e visceral para descrever os infortúnios do garoto e suas mazelas pelos arrabaldes da ilha cubana. É um livro bastante interessante em sua essência e que, por fazer parte da literatura marginal, da qual estão incluídos autores como Bukowski e Kerouac, vale ser lido.

Leitura 31/2020

Até o dia em que o cão morreu [2003]

Daniel Galera (Brasil, 1979-)

Companhia das Letras, 2007, 104 p.

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“Me dava agonia ver alguém se preparando constantemente pra começar a viver. Eu não conseguia fazer isso. Parecia bem mais adequado permanecer exatamente onde eu estava, aceitando que minha vida era aquilo mesmo” (Posição no Kindle 194).

“É difícil imaginar sensação de maior conforto e serenidade do que esta, que surge da ilusão elaborada de que fazemos parte da vida de uma pessoa a ponto de estarmos verdadeiramente unidos, de tudo estar bem se o outro estiver por perto, se apenas nos for dada a chance de saciar os desejos e interesses um do outro, de tolerar um ao outro quando sacrifícios forem necessários e deixar que o resto se foda, se destrua e morra, porque não haverá problema” (Posição no Kindle 830).

A história que o livro narra é simples, mas poderosa porque fala da humanidade comum, daqueles que se resignam por uma existência banal, sem atrativos ou circunstâncias que as façam sair da mesmice. O livro de Galera fala de encontros, de perdas, de alguma falta de esperança ou da renovação desta, tudo numa prosa direto, lisa, límpida. Um homem que busca na solidão seu refúgio, até que abre um pouco o espaço para um cão que aparece num dia qualquer e com mantém intervalada relação. Uma modelo fotográfica com quem cogita abandonar a vida ermitã, nem sem antes se voltar com avidez à introspecção. Até que a falibilidade natural da vida entra em cena e muda tudo. Um bom livro, um livro triste.

Leitura 30/2020

Vestido para morrer [1994]

Orig. Dressed for death

Donna Leon (USA, 1942-)

Companhia das Letras, 2006, 288 p.

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“Quando a lama é jogada, é impossível limpá-la completamente. As pessoas gostam de pensar mal das outras; o pior as deixa felizes” (pág iBooks 275).

No terceiro livro da série, Donna Leon uma vez mais brinda o leitor com os sucessos do Comissário Guido Brunetti e, como é corriqueiro, um tema paralelo – às vezes polêmico – para incrementar a trama.

No caso, além de um misterioso assassinato, o livro transita pelo universo das instituições supostamente filantrópicas que, em nome de cerrados preceitos morais, buscam condenar certos comportamentos. É o reinado da hipocrisia em detrimento à fé e à moral.

Em “Vestido para morrer”, um corpo é encontrado perto de um matadouro numa zona industrial de Mestre, pequena cidade ao lado de Veneza, conhecida por ser um local empestado de garotas de programa e travestis. O curioso é que a vítima – um homem – está usando um vestido vermelho, sapatos de salto alto de mesma cor e os resquícios de maquiagem, maculados pelos bárbaros golpes que deformaram o rosto do desconhecido.

Montado o mote do livro, caberá a Brunetti, há poucos dias do início de suas férias, frustradas afinal pela ausência de outros comissários aptos na cidade, descobrir a identidade do homem assassinado, os seus motivos e a autoria, vindo a adentrar num ambiente onde estão envolvidos diversas figuras e instituições importantes da sociedade veneziana bem como o submundo da prostituição de travestis.

Ainda neste volume, não bastassem os entraves que Brunetti irá enfrentar, corre em paralelo outros assuntos como o escândalo envolvendo a mulher do chefe de Brunetti, vice-questore Patta, envolvida com um empresário do ramo de filmes pornô e o próprio “Ferragosto”, o feriado italiano do qual Brunetti tenta se esquivar devido ao calor infernal – do clima e do excesso de turistas em sua Veneza.

Donna Leon tem uma habilidade interessante em misturar temas nessa série, da qual este é o quarto volume que leio. Sempre somos brindados com a descrição de bons vinhos, deliciosas “pastas”, da cidade cortada por tantos canais, das leituras dos clássicos gregos a que Brunetti se dedica, da beleza inteligente de sua esposa, Paola. São bons expedientes para amainar a tensão que paira sobre o caso e as engenhosas táticas de investigação de Brunetti. Segue!

Leitura 29/2020 [Lista 1001 livros]

Meu Michel [1968]

Orig. מיכאל שעלי (Michael Shelí)

Amós Oz (Israel, 1939-2018)

Companhia das Letras, 2002, 304 p.

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“O tempo e a memória preservam especialmente as palavras banais. Favorecem-nas com sua compaixão. Estendem sobre elas uma penumbra piedosa” (Posição Kindle 1124/27%)

O livro é o relato pessoal do desgaste psicológico da narradora, Hana Gonen sobre sua vida conjugal ao lado de Michel. O período compreende parte dos anos 50, quando ainda se estabelecia a consolidação da independência de Israel, fato que muito tem a ver com esta obra ímpar.

Oz vai narrar um longo processo de desprendimento da realidade, onde a personagem Hana mantém uma relação conturbada com o professor de geologia Michel Gonen. Como uma espiral às avessas, ela recua no tempo ao momento em que conheceu aquele que viria a ser o seu marido e passa a narrar toda a história desse relacionamento.

Assim, vamos sendo levados pelo turbilhão sensorial de Hana, desde quando era uma jovem estudante de letras, passando pelo namoro, o casamento e o progressivo estranhamento que se instala na jovem esposa em relação ao marido, sob uma ótica desconectada por vezes, mas que anseia por libertar-se. Michel, ao contrário, é centrado, equilibrado, o típico intelectual que busca a vida sem maiores escrutínios. Essa relação dualista por vezes se chocará, e é das fissuras do embate que vamos conhecendo os fantasmas que circundam e assombram Hana.

No livro, o teor político é forte e evidente. Por isso mesmo, muitos dos que encararam essa leitura densa e perturbadora acreditam que Hana é na verdade uma metáfora do próprio processo de nascimento e amadurecimento do estado judeu, o que mostra com perfeição o engajamento político deste intelectual soberbo que Oz, morto em 2018, é.

Estranhamente, o livro faz parte da “Lista 1001 Livros Para Ler Antes de Morrer”, mas, ao consultar meu exemplar para a foto clássica e “dar baixa” em mais um lido nele, fico surpreso que foi incluído na mesma página de “A caixa-preta”, também de Oz, e que li faz bem pouco tempo. Detalhe que achei absurdo, já que, apesar de algumas semelhanças, “Meu Michel” é livro suficientemente relevante para ter seu espaço único. Paciência. Prossigamos.

Leitura 27/2020

Del amor y otros demonios [1994]

Gabriel García Márquez (Colômbia, 1927-2014)

Debolsillo, 2018, 176 p.

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“No se saciaron de hablar de los dolores del amor. Se esgotaban a besos, declamaban llorando a lágrima viva versos de enamorados, se cantaban al oído, se revolcaban en cenagales de deseo hasta el límite de sus fuerzas: exhaustos pero vírgenes” (pág 148).

Há alguns pares de anos, quando fazia um curso de inglês que me levou apenas a algo mais que o “the book is on the table”, lembro de ter dito a alguns colegas de classe sobre o certo desprezo que eu sentia pela língua espanhola. Não achava, à época, que uma “língua secundária” merecia o investimento do aprendizado numa escola de idiomas. Ledo engano.

Depois de ter tido a experiência de ir a alguns países de língua espanhola, de ter conversado com nativos usando plenamente essa mistura salva-vidas chamada “portunhol”, acabei me interessando pelo idioma, a gastar algum tempo estudando-o, a sentir uma considerável melhora nas conversas que tive com motoristas de Uber e pessoas que ia encontrando pelas “calles”, graças a essas imersões no espanhol, e de ler um livro de Montalbán em castelhano, hoje vejo a beleza musical que é este idioma tão marcante. Essa a razão de ter lido este delicioso livro de Gabriel García Márquez, o grande Gabo, escritor colombiano, autor de dois de meus livros prediletos da vida, “Cem anos de solidão” e “O amor nos tempos do cólera”.

A edição que li, da editora Debolsillo, a comprei numa pequena e lindinha livraria numa ruela do bairro da Recoleta, em Buenos Aires. Não é o melhor lugar para comprar um livro colombiano (outra de minhas manias: comprar um livro do escritor local nos lugares por onde passo…), mas o preço baixo – livros só são caros no Brasil, me parece – o pus na sacola com um Borges junto, que lerei em breve.

Del amor y otros demonios traz uma história que Gabo diz ter ouvido de sua avó e que lhe foi lembrada durante uma reportagem que fez em Cartagena de Índias, a bela cidade caribenha banhada pelo Pacífico colombiano. Na ocasião, enquanto cobria uma reportagem sobre as antigas criptas de um mosteiro, viu de uma delas ser extraído uma ossada com cabelos que mediam 22 metros! Por isso, o livro vai contar a trágica história de amor entre um padre, Cayetano Delaura e a bela Sierva María, filha de um fidalgo que, devido a uma mordida de cachorro raivoso, foi enclausurada num convento por suspeita de possessão demoníaca. Desde pequena desprezada pelos pais, acaba sendo praticamente criada por escravos, que a educaram nos costumes e rituais yorubás, sendo versada em invocações e cantigas “profanas” daquele povo africano.

Cayetano é escalado para presidir o ritual de exorcismo para livrar a garota da suposta possessão, mas essa ajuda lhe custa caro porque acaba se apaixonando por Sierva, um amor proibido numa situação em que ciência e cultura africana se chocam com os dogmas da Igreja. A história, ao modo de contar de Gabo, é permeada por eventos fantásticos, comuns à sua prosa, e pela tragicidade em que acabam seus personagens, fadados que estão a morrer de amor e de solidão, como o próprio Cayetano que, uma vez descoberto seu sentimento pela “doente”, é julgado e condenado a trabalhar num hospital comunitário, onde deseja ardentemente morrer para não sofrer pela ausência de sua amada. Já Sierva, morre de amor em sua solitária cela, sendo encontrada já sem vida mas com seus cabelos a crescer veementemente…

Reli algumas vezes o “Cem anos…” e “O amor nos tempos do cólera”, sempre em português. A prosa super recheada de adjetivos e dinâmica de Garcia Marquez encanta e envolve o leitor pela forma como elementos mágicos se misturam com o realismo criando uma atmosfera onírica de luzes diáfanas (palavra que aprendi lendo Gabo) e musicalidade exarcebada. Mas nada como sorver um autor em seu próprio idioma que, como disse acima, me fez me apaixonar pelo espanhol. Vale!

Leitura 27/2020

A mercadoria mais preciosa [2019]

Orig. La Plus Précieuse des merchandises

Jean-Claude Grumberg (França, 1939-)

Todavia, 2019, 80 p.

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“Vencera a morte, salvara a filha perdida com aquele gesto insensato, derrotara a monstruosa indústria da morte. Tivera a coragem de dar um último olhar para sua filhinha reencontrada e reperdida para sempre” (iBooks, pg 72.)

Um casal de velhos lenhadores, moradores da beira de uma floresta por onde passava regularmente um trem, ao qual chamavam de trem de mercadorias, e de onde a pobre lenhadora, um dia após tanta esperança, lhe é jogado um embrulho. Dentro dele, uma criança recém-nascida, uma menina de olhos claros e berro potente.

É assim que o escritor francês começa seu livro, na suas palavras uma fábula. Nas não mais que 80 páginas, o que o leitor tem é o relato da fealdade da guerra coberta por camadas de inocência ou, quem sabe talvez, uma forma distinta de olhar o terror com alguma veia de esperança. Porque o que o escritor traz em sua fábula é um pedaço da gigantesca máquina de produção de morte nazista, na segunda grande guerra.

Capaz de dar um tom absurdamente conformador ao relato, Grumberg conta a história de um casal judeu que, uma vez transportados para um campo de concentração, tem a difícil decisão de “abandonar” um dos filhos gêmeos que acabara de nascer. O pai, tolhido pelas lágrimas de desespero ante o destino terrível que os aguarda, escolhe ao acaso um dos gêmeos, não sabe se o menino ou a menina, e a deposita em um trecho onde o trem diminui a velocidade da escala da morte, esperando que ao menos aquela semente berrante possa ter um destino diferente que o de seus pais e irmão. A menina – sabemos depois – acaba sendo resgatada pela velha e pobre lenhadora, que a acolhe e dá os cuidados de uma mãe amorosa, ainda que poucos e escassos. Anos depois, com a chegada do exército russo que, estupefatos, presenciaram o horror dos campos de concentração, o pai, se vendo liberto do horror nazista ao qual só pode sobreviver por milagre, reencontra sua menina, num acaso composta pela vida…

O leitor é simplesmente tragado pela estorieta. Grumberg, que perdeu os avós e os pais para as inclementes torres de fumaça humana dos campos nazistas, mostra a coragem de uma vez mais, creio, olhar para aquela mancha terrível da história humana, que ceifara parte de sua família, e dela extrair um belo conto, uma fábula, povoado por personagens sem nome mas com sentimentos mais que humanos, mais que reais. Eleva pela escrita o poder restaurador do amor, que tudo suporta, tudo crê, tudo espera.

À medida que ia lendo e sendo carcomido por tão dolorida estória, ia pensando nos tantos escritores que lidaram com essa mesma via crucis: Primo Levi e Aharon Appelfeld, dois grandes escritores que viveram o horror do campo de concentração, este último, aliás, escreveu um romance instigador, o Badenheim 1939, um balneário que acaba se tornando um pogrom judeu sem que seus moradores, embevecidos pelas águas termais e calmantes, o percebessem. Levi descreveria em “É isto um homem?” o dia a dia para conseguir sobreviver em um campo nazista. Eles e tantos outros escritores buscaram nas letras uma espécie de resignação, de paz para com o passado para o grande mal causado por seu semelhante, e que acabaram se tornando obras primas da literatura, que merecem ser lidos.

Quanto ao livro de Grumberg, é uma leitura que vai tocar qualquer um que a queira ler. É um livro tão real que até parece uma fábula. A definição fica por sua conta. Vale!

Leitura 26/2020

Um, dois e já [2006]

Orig. Prontos, listos, ya

Inés Bortagaray (Uruguai, 1975-)

Cosac Naify, 2014, 96 p.

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“(…) fecho os olhos e trato de pensar no futuro. Não consigo imaginar nada sobre o futuro e penso no passado” (pág 43).

Infância sempre foi o lugar da magia e do encanto. Para mim e para todos que um dia por ela passamos, mesmo aquelas mais desfiguradas e canhestras, a infância guarda um jeito tão peculiar de enxergar o mundo e os seres que o habitam.

À medida que lia este livro tão curto, ia pensando cá comigo como possuo guardadas tantas memórias que dariam muitos livros. A escritora uruguaia Inés Bortagaray foi capaz de capturar num viagem real a quimera de todas as suas viagens de quando criança. O tempo, muitas vezes o senhor do passado e do esquecimento, perde parte de seu poder de borrar os retratos do passado ao se ver congelado pelas memórias da menina sem nome, que é levada juntamente com os irmãos pelos pais a um litoral idílico. No máximo a sucessão rápida e borrada dos postes na estrada. O relato é cheio de riquezas da memória, partes da vida da autora que, embora criança ainda, certamente sentiu as fortes convulsões que abalaram o seu países nos anos de chumbo. Resulta daí um relato onde a fantasia e a imaginação se misturam com lembranças reais de um tempo que, embora já há muito ido, se dobra à pena daquela que é capaz de recordar. Bem bonito, o livro!

Leitura 25/2020

Aspectos do romance [1927]

Orig. Aspects of the novel

E. M. Foster (UK, 1879-1970)

Globo, 2005, 323 p.

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“É preciso ler os livros (o que é um infortúnio, porque isso leva tempo); é o único modo de descobrir o que eles contêm” (Posição no Kindle 549/15%).

É sempre bom, no intervalo entre romances lidos, ler sobre o ofício da literatura. Gosto de buscar entender os mecanismos por trás da escrita, suas motivações, objeto e meios pelos quais se dá a composição. Quase sempre, nessas leituras, além de aprender um pouco mais como valorizar os livros por algum viés, acabamos por nos deparar com ótimas listas de sugestões para ler.

Ano passado li o livro do James Wood, “Como funciona a ficção”, um bom texto onde o autor traça em dez capítulos elementos para a construção do texto literário. Não é um livro muito acessível no quesito didático, mas apresenta um interessante olhar pelo modo como a ficção é feita.

Nesse campo, meu queridinho mesmo é o fabuloso “Para ler como um escritor”, da americana Francine Prose, e que li no já distante ano de 2016. É uma obra cara para mim, não porque eu queira ser escritor, seu público alvo primário, mas por possuir uma forma bem acessível e nada academicista de apresentar o texto literário e a forma como apreciar esse texto de forma mais integral, enxergando os elementos por trás da intenção do autor. Prose mostra com detalhes os elementos que fazem diferença no texto, a beleza da musicalidade, os detalhes na escolha da palavra, coisas que leitores quase nunca se atentam. Ler com tanto apuro é quase uma tarefa hercúlea de tão lenta, ainda mais a dinâmica alucinada que nos obriga a correr sempre e, por consequência, a ler mais rápido, o que, na visão da autora, não é bom para o processo de ler para obter prazer. Sempre revisito o livro de Prose, ao acaso, capítulos e passagens esparsas, ou mesmo a magnífica e esclarecedora entrevista que a autora dá no fim do livro.

Não posso dizer que o livro de E. M. Foster, que acabo de ler, esteja no nível do de Prose. Talvez entre ela e Wood. Nele, o autor britânico expõe uma espécie de conferência dada em Cambridge, e que aborda em oito capítulos os aspectos do romance que considera relevantes: estória, pessoas, enredo, fantasia, profecia, padrão e ritmo.

Na obra o autor diz não ter a pretensão de ser “científico”, daí o título “aspectos”, dando ao leitor alguns olhares diferentes para o romance, o que, a meu ver, e apesar de fazê-lo num esforço de apresentar sua tese em uma linguagem mais simplista, ainda me pareceu bastante intrincado. Não que o livro seja ruim, é muito bem escrito. Mas, Foster peca em não expandir a apreciação de sua análise para outros integrantes da série “A” da literatura. Apesar de citar Tolstói e Dostoiévski, os dois maiores romancistas russos, Foster se debruça quase que absolutamente a autores ingleses ou de língua inglesa, como as irmãs Brontë, Henry James e Herman Melville. Aqui ou ali uma referência à literatura clássica antiga.

Comum a este tipo de publicação, o leitor é brindado com trechos de livros os quais são analisados e que acabam motivando posteriores procuras destes autores. É quando é possível ir montando as famosas e infindáveis listas de livro para ler, que são engordadas com as sugestões ali dadas, o que no livro de Foster encontramos à larga.

Sim, valeu a pena ter lido, até porque quanto mais aberto for o entendimento dos mecanismos de formação da ficção, talvez sirva para leituras mais apreciadas e mais produtivas. Apesar de que, eu mesmo não leia como um crítico, um analista ou mesmo um aspirante a escritor. O faço pelo prazer mesmo, porque a vida é curta demais para ler academicamente. Segue o baile!

Leitura 24/2020

A cidade solitária [2016]

Orig. The lonely city: Adventures in the Art of Being Alone

Olívia Laing (UK, 1977-)

Editora Anfiteatro, 2017, 304 p.

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“E a dor dos outros? É mais fácil fingir que não existe. Mais fácil se recusar a fazer o esforço da empatia, acreditar, em vez disso, que o corpo do estranho na calçada é simplesmente uma imagem processada em computador, uma acumulação de pixels coloridos que deixa de existir quando viramos a cabeça, mudando o canal de nosso olhar” (Posição no Kindle 3215/77%).

“Há muita coisa que a arte não pode fazer. Não pode trazer os mortos de volta à vida, não pode remendar brigas entre amigos, ou curar a Aids, ou conter o ritmo das mudanças climáticas. Mesmo assim, a arte tem funções extraordinárias, uma estranha habilidade de negociação entre pessoas, incluindo pessoas que nunca se encontram, mas que se infiltram na vida umas das outras e a enriquecem. Tem uma capacidade de criar intimidade; tem uma maneira de curar feridas e, melhor ainda, de tornar evidente que nem todas as feridas precisam ser curadas, e nem todas as cicatrizes são feias” (Posição no Kindle 3546/85%).

Cheguei ao livro unicamente pela capa, já que nada sabia da autora nem do que se tratava. Nesses tempos de pandemia, quarentena e lockdown, foi natural o interesse em ler um livro com capa e título tão chamativos.

Em “A cidade solitária” a escritora britânica Olívia Laing narra o período em que se “refugiou” em alguns dos bairros de Nova York, uma diacrônica experiência solitária em uma das cidades mais populosas do mundo. Ela começa falando sobre como a solidão é um elemento real e presente na vida das pessoas, sobretudo em tempos onde todos buscamos construir as relações com outras pessoas através do confortável e seguro distanciamento provido pelas telas retroiluminadas de nossos smartphones.

Mas ela vai além, adensa sua prosa dinâmica e galante adentrando o universo de alguns artistas, como Edward Hopper, o supremo pintor da solidão americana, a cujas pinturas – olhares atentos aos pormenores de um abajur acesso – são as minhas preferidas ao lado das de Monet, tudo para falar como a cidade, apesar da dicotomia existente num lugar superpovoado, pode ser fatal para a evisceração dos indivíduos. Para embasar sua ideia, parte de episódios da vida de Hopper, já citado, do multiartista Andy Warhol, de quem já ouvira falar mas sem saber muito sobre suas peças e serigrafias, e outros a cujos nomes nunca havia ouvido antes, como o excêntrico cantor lírico Klaus Nomi, do escritor outsider Henry Darger, do pintor, escritor e fotógrafo David Wojnarowicz, da cantora negra Billie Holiday. Todos grandes e talentosos artistas. Todos com algo em comum: o sentimento de, por causa dos desajustamentos íntimos que levavam, eram tidos como problemáticos, excêntricos, incomuns e, por se sentirem como párias em seu tempo, usaram da arte como uma forma de linguagem que os permitisse se sentirem parte dos demais.

Entremeando experiências pessoas, Laing discorre largamente sobre esses artistas. O leitor é apresentado a trabalhos surpreendentes na pintura, na música, na colagem, na arte publicitária, na literatura. Particularmente me chamou a atenção sobre o “caso” de Henry Darger, um faxineiro que nas horas vagas coletava e acumulava objetos no lixo da cidade. Nesse ínterim, compôs painéis, montagens e também um livro com cerca de 16 mil páginas que retrata um universo paralelo onde abundam elementos sensoriais, violentos e de certa forma desconfortantes mostrando crianças sendo abusadas, o que foi considerado como fruto da mente de um pedófilo. Mas Darger na verdade buscava a paz com seus próprios fantasmas, retratando sua própria experiência quando criança numa espécie de orfanato. O livro um primor segundo a autora, só foi descoberto depois da morte de Larger, aliás algo tão comum com tantos artistas que, por não terem o reconhecimento devido em vida, se tornam estrelas da noite para o dia, um reconhecimento tardio e canhestro.

Warhol talvez seja o caso mais famoso, mas nem por isso, menos dramático, citado no livro de Laing. Ele buscou na arte que produziu, entre colagens, filmes e arte publicitária, disfarçar o enorme desconforto que sentia por sua natural excentricidade. Se não bastasse sua aparência, feia para os “padrões”, e que ele disfarçava com maquiagem e perucas, ainda sofreu uma tentativa de homicídio que o obrigou a usar cintas pelo resto da vida, para suportar as sequelas que a bala deixou em seu abdômen, disparada por uma outra artista, a militante feminista e lésbica Valerie Solanas, que não soube lidar com sua essência singular e o fracasso de sua obra, tida como excêntrica demais.

Cada pessoa citada no livro, todos artistas, alguns famosos e outros não, buscaram, segundo a autora, uma forma de pertencimento numa época em que ser gay, ter contraído Aids (então sem tratamento) e ser “diferente” eram elementos causadores de reclusão, de isolamento. Não bastassem toda uma carga de preconceito, dos olhares canhestros, da intolerância, esses personagens tiveram de improvisar, através da arte que produziam, maneiras diferentes de mostrar sua face, de cativar olhares mais amigáveis e calar o silencioso grito da necessidade de aceitação que todos uma vez ou outra temos. A cidade não é exatamente o lugar do acolhimento sendo, antes, o produtor de humanos cada vez mais perdidos, cada vez mais desfigurados em suas matizes, cada vez mais sozinhos estando rodeados de outros humanos. É um livro bonito, poético, mas que emana uma sútil dor, um coro sussurrado dos desvalidos, dos que se perderam de si mesmos, dos que foram obrigados a engolir sua verdade mais íntima a fim de produzirem personagens com os quais poderiam ser capazes de atingir a coexistência e lidar com a sociedade feroz que os criou e os afastou do seu seio. Belíssimo livro, essencial, eu diria.

charlles campos

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