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Leitura 49/2020

A trama do casamento [2011]

Orig. The Marriage Plot

Jeffrey Eugenides (EUA, 1960-)

Cia das Letras, 2012, 440 p.

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“As pessoas jamais se apaixonariam se tivessem ouvido falar do amor” (Posição Kindle 15).

No início do ano, eu li “As virgens suicidas”, o excelentíssimo romance do escritor americano Jeffrey Eugenides, um livro que busca reconstruir a adolescência de cinco amigos que nutriram mutuamente uma paixão platônica por cinco garotas excêntricas vizinhas deles e que dão cabo de suas próprias vidas. A maestria do romance, eivada de planos temporais em círculo me impressionou bastante, ao pontos de me prometer buscar outras cousas do autor.

Findando as leituras deste ano tenebroso que foi 2020, concluo exatamente com outro romance de Eugenides, “A trama do casamento”. Confesso que o título por mim foi interpretado pelo viés romanesco que vez ou outra me acomete (ai de mim!), e imaginei que o romance se tratava justamente dos caminhos que levam duas pessoas a se convencerem de se casar. Mas – percebi depois, enquanto avançava pelas páginas, não é um roteiro comum assim que Eugenides opera: ele traça com primor os caminhos que DESUNEM os três personagens principais da trama, Madeleine, Leonard e Mitchel, uma estudiosa do romance vitoriano, um cientista que desenvolve um estudo sobre células haploides e um especialista em religião, a cujas vidas se entrelaçam e se repelem. Madeleine, casada abruptamente com Leonard, é devassada pela doença psicológica do marido, que é amada quase secretamente por Mitchel, que odeia Leonard. Mas o romance tem muito mais que apenas esse triângulo disforme formado por eles, e aconselho sua leitura vivamente.

Eugenides, como de costume, narra esse trio às avessas utilizando seu ponto forte que é entregar o fim, a consequência, para depois reconstruir as partes que levaram a tal acontecimento. Primoroso também é o auto grau de qualidade literária que Eugenides deu ao enriquecer o romance com ótimas referências da literatura vitoriana, da ciência e da religião (a parte em que Mitchel faz sua peregrinação pela Índia é sublime!), fazendo com que o leitor tenha em mãos mais que um mero romance, mas um verdadeiro mini-tratado enciclopédico. Vale, por me fazer terminar este ano dos diabos com um romance acima da média, um bom augúrio para o 2021 vindouro!

Éramos dois

Éramos inseparáveis na escola, Leandro e eu. Apesar de sua chegada repentina, numa manhã em que já ia avançado o ano letivo, nos demos bem de cara quando ele se instalara na carteira ao lado da minha. Uma amizade que nasceu e que, apesar daquele único ano, ainda carrego comigo mesmo passados tantos anos.

Um detalhe particular o distinguia dos demais garotos do colégio: Leandro era o único aluno da minha escola que tinha bigode, aquela robusta e prematura composição de pelos acima do lábio superior que de certa forma era motivo de inveja, minha e dos demais moleques.

Também nas meninas o Leandro angariara especial atenção: muitas foram as vezes em que, após as aulas, tive de esperar meu amigo trocar beijos com alguma moça na pracinha perto do colégio. Foi a primeira vez em que “segurei vela” para alguém. Enquanto Leandro se dava bem, eu seguia, esgueirando o canto dos olhos ao banco onde meu amigo experienciava as alegrias de namorar alguém. Enquanto, naquela época, eu seguia devaneando o beijo que daria na então musa dos meus sonhos ao som de “Al dilá”, a bela canção de Emílio Pericolli e que recordo, não me cansava de ouvir, o meu amigo já era versado na arte de namorar. Paciência.

Ambos, como era natural das grandes amizades, tínhamos os nossos pactos. Leandro, por aparentar ser mais velho e mais alto que eu, de certa forma me protegia da importunação dos garotos maiores. Eu, um aspirante a nerd, ajudava meu amigo nos seus tropeços em aritmética e na sua falta de tato com o português. Quase sempre dividíamos o mirrado lanche que um ou outro comprava no recreio, quando nos era dado por nossos pais alguns cobres. Como morávamos na mesma rua, nossas casas adelgaçadas pela distância de uns três quarteirões, era minha a incumbência de passar na sua casa a fim de irmos juntos ao colégio. Coisa de amigos.

E logo ele soube da menina que era alvo de meu coração. Por acaso, havia notado ela, procurando saber de mim, em sussurros para não chamar a atenção da professora, o nome e a possibilidade de conhecer Ivone, a ruiva de cabelos caudalosos e cheirosos, para quem havia escrito versos e com quem muitas vezes sonhara sonhos românticos onde sempre me declarava a ela. Leandro, ao saber de meus intentos (isso mesmo, intentos), de como eu vinha planejando uma oportunidade de poder falar do que por ela sentia, fiel ao sentimento do amigo, manteve a distância dela. Partiu para conquistar Simone, a melhor amiga de Ivone. Você pode bem intuir quem de nós dois, afinal, teve êxito…

Mas então o tempo passou. Vários capítulos de minha vida depois, eu vejo como a fortuna nos levou por caminhos distintos. Eu, rumo a este ofício de escritor barato; ele, uma incógnita para mim, que perdi totalmente seu contato e seu paradeiro com meu degredo a uma terra distante onde, enfim, plantei raiz.

Então só me resta me fiar da lembrança daqueles bons tempos, tempos mais vagarosos, onde as minhas únicas preocupações eram a escola e o indomável desejo de conquistar Ivone. Eu, como um Florentino Ariza canhestro, à moda do personagem pitoresco de “O amor nos tempos do cólega”, vivi os suspiros do amor não correspondido, quando vislumbrava a certa distância o ideário deste meu coração calejado cada vez mais de mim se afastar rumo aos braços de outro…

Diferente do solitário personagem de Garcia Márquez, que após 51 anos de espera pelo amor de sua amada Fermina, ainda se mantinha firme e fiel à única dona de seu coração, ao menos eu pude ter um amigo que, nas muitas horas de vazio, me fez ver o fio de esperança, lá para a frente, ainda que quase sempre tenha meu olhar voltado lá para trás, onde permanece intacto um eu bem mais feliz.

Leitura 48/2020

O corpo em que nascí [2011]

Orig. El cuerpo en que nací

Guadalupe Nettel (MEX, 1973-)

Rocco, 2013, 224 p.

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“É estranho, mas desde que comecei com isso, tenho a impressão de estar desaparecendo. Não só tenho me dado conta de quão incorpóreos e voláteis são todos esses eventos cuja existência, na maioria dos casos, não se pode provar de forma alguma, se trata também de algo físico. Em certos momentos totalmente imprevisíveis, as partes de meu corpo me produzem uma sensação de inquietante estranheza, como se pertencessem a uma pessoa que nem sequer conheço”

(Posição Kindle 1960).

“Pôr em questão os acontecimentos de uma vida, a veracidade de nossa própria história, além de exasperador, deve ter algo de saudável e bom. Talvez seja normal essa impressão contínua de estar perdendo o solo, talvez sejam as certezas que tenho sobre mim mesma e as pessoas que me têm rodeado sempre as que estão desaparecendo. Meu próprio corpo, que desde há muitos anos tem constituído o único vínculo crível com a realidade, me parece agora como um veículo em decomposição, um trem em que vim montada ao longo de tanto tempo, submetida a uma viagem muito veloz mas também a uma inevitável decadência” (Posição Kindle 2031).

Topei com o nome de Guadalupe Nettel quando zapeava pelo catálogo da editora espanhola Anagrama e, lendo algumas sinopses, coloquei mentalmente a escritora mexicana na extensa e infindável lista de autores de quen quero ler algo. Movido mais uma vez por uma sinopse, desta vez da Amazon, resolvi ler “O corpo em que nasci” pelo relato inicial da menina que detinha um problema óptico e os tratamentos que teve de se submeter para não perder a visão do olho direito.

No “O corpo em que nascí”, Nettel fia, em uma espécie de sessão psicanalítica, suas memórias (me remeteu, guardadas as devidas proporções, ao longo monólogo de Alexander Portnoy de O complexo de Portnoy, de Philip Roth) que vão desde a infância até a vida adulta. É uma espécie de bildungsroman que busca no próprio reencontro lá para frente, na vida adulta, o reflexo no espelho do peso, da ponderação e das conclusões de uma jovem que, criada num ambiente pululante de pulsões sociais e políticas, a cujo constante choque, inevitavelmente imprimiram profundas cicatrizes na autora.

A Cidade do México das décadas de 70 e 80, delineada no romance, como qualquer grande centro, atravessou um tempo de transformações e experiências sociais, quase sempre rechaçadas por regimes totalitários que impuseram sua mão de ferro. A profunda crise econômica vivida à época, as catástrofes naturais de um país atravessado por furacões e terremotos, a marcante estada em terras francesas, de certa forma libertária para Nettel pelas descobertas que viveu, a volta ao início de tudo quando o fio da infância encontra a autora já madura e com uma visão alargada da sua própria significação, são alguns dos aperitivos literários encontrados nesse livro que mistura memória, política, drogas, amor e libertação. “O corpo em que nascí” entra para a lista de bons achados deste ano mais tenebroso que suave. Vale!

Leitura 47/2020

Nascidos tempos líquidos [2017]

Orig. Nati Liquidi

Zygmunt Bauman (Polônia, 1925-2017)

Zahar, 2018, 96 p.

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Lição 1- Transformação na pele: Tatuagens, cirurgia plástica, hipster – “A cirurgia estética, sobretudo se reiterada, é a manifestação mais violenta e camuflada da tendência à automutilação, escondida sob a capa da medicina oficial. O indivíduo não aceita o próprio corpo tal como é, e paralelamente busca também um desafogo para a própria exigência de ‘autodestruição’ (Freud a denominou pulsão de morte). Através da máscara da medicina oficial, segundo essa tese, a pessoa pode satisfazer essas duas necessidades e ao mesmo tempo se sentir parte da cultura dominante, que quer criar uma forma de beleza segundo cânones preestabelecidos e identificados como os melhores” (Posição Kindle 138).

Lição 2- Transformações da agressividade: Bullying – “As principais características dos ritos de passagem se dão em três estágios. O primeiro é o período de separação do indivíduo em relação à comunidade. A esse segue-se o período de margem, no qual ocorre uma verdadeira suspensão de status social. No terceiro, é o estágio da agregação, aquele tecnicamente chamado de rito pós-liminar, porque o sujeito volta, para todos os efeitos, ao seu habitat como parte integrante e novamente conectada, mas com novas características individuais, que se tornam vivas quando relacionadas às sociais” (Posição Kindle 242).

Lição 3- Transformações sexuais e amorosas: derrocada do tabu na era do amor online – “O desejo é um impulso que destrói, ou melhor, um impulso de autodestruição. O amor, ao contrário, é o desejo de acudir ao objeto pelo qual se tem apego. Você definiu o amor como um impulso centrífugo, à diferença do desejo, que é centrípeto. Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. O amor é uma ameaça para o próprio objeto, e isso é um importante ponto em comum com o desejo. O desejo é autodestrutivo, mas a proteção que o amor tece em torno do objeto amado acaba por escravizar esse objeto. O amor detém seu prisioneiro e o vigia, prende-o para protegê-lo” (Posição Kindle 617).

“Nossa época líquida pede somente um requisito a nós nascidos em tempos líquidos: que seja-mos especialistas em flexibilidade” (Posição Kindle 702).

A primeira vez que li algo de Bauman, o maior estudioso da sociedade moderna, foi em 2009, quando praticamente devorei as páginas instigantes de “Vidas desperdiçadas”. Foi, me lembro bem, uma leitura avassaladora, que deixou ressabiado por dias, não só pela densidade do vigoroso pensamento do sociólogo polonês, mas principalmente por tocar em feridas que de certa forma, todos nós, consumidores e capitalistas por excelência, acabamos por gerar: uma multidão de pessoas descartadas, para o trabalho, para as relações, para a vida. Apesar de ter alguns outros volumes de Bauman comigo, estranhamente nunca me animei a lê-los, até pegar este pequeno livreto, uma reunião de emails entre Bauman e um jovem italiano. Uma explicação, talvez: a de que não é fácil enxergar ao espelho o que somos e porque o somos, fazemos com nosso semelhante.

Leitura 46/2020

Henderson, o rei da chuva [1959]

Orig. Henderson, the Rain King

Saul Bellow (Canadá, 1915-2005)

Companhia das Letras, 2010, 416 p.

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“Ser. Outros se deixam levar pelo vir a ser. As pessoas do ser desfrutam todas as pausas. As do vir a ser são muito infelizes, estão sempre agitadas. As pessoas do vir a ser estão sempre tendo que dar explicações ou oferecer justificativas às pessoas do ser” (pág 195).

Ninguém pode negar que a literatura tem na essência humana um de seus mais importantes nascedouros. Retratando as camadas da psiquê, ela é capaz de fazer frutificar o imaginário de tal forma palpável, como se estivéssemos tendo uma conversa com tal personagem, tamanha sua semelhança às pessoas reais.

Essa ideia sempre me veio ao pensar a narrativa machadiana, cheia de vieses e meandros obscuros, onde o autor tem liberdade para dissecar a mais profunda das essências. O Rodrigo Cambará, da super saga “O tempo e O vento” (salve, Erico Veríssimo!) é outro que me fascina até hoje. Também o Coelho Angstrom, de Updike, um personagem tão complexo e completo como nunca havia visto antes na alta quilometragem de páginas que já li.

Hoje, mais um desses fenômenos literários se juntam a essa plêiada de meio-homens-meio-personagens: Eugene Henderson, o tragicômico personagem do escritor canadense Saul Bellow. É ele que povoa as páginas de “Henderson, o rei da chuva”, um livro que mistura drama, algumas pitadas de comédia, suspense e algum teor épico mas que pode ser classificado como um romance de formação, ainda que para um personagem já mais velho. Henderson, um quase sexagenário, milionário americano, herói de guerra, cansado da sua vida de confusões, problemas de saúde, dois casamentos, vários filhos, decide que é hora de dar uma guinada em sua existência, a fim de buscar algum sentido à sua vida. Parte para os rincões da África onde vive algum tempo em duas tribos, os Arnewi, engraçados e simpáticos, e os Wariri, uma tribo estranha, que cultuam deuses bizarros e mantém uma aura de mistério, a começar por seu rei.

É nelas que Henderson buscar por em prática seu plano de fazer o bem ao mundo. Se, na primeira, ele acaba desastrosamente, devido a uma barbeiragem, aumentando o sofrimento de um povo já arruinado, entre os Wariri, Henderson é cooptado pela estranha organização política do local: uma cerimônia o condecora como “Rei da Chuva”, e a partir de então, ele ganha as graças do rei, que inicia um nada comum treinamento (vocês terão de ler o livro! :p).

É nessa parte do livro que de fato vamos adentrando ao drama existencial de Henderson. Se, por um lado, temos um rei que, apesar das conspirações contra seu governo, não se abalar com o estado de perigo que corre, por outro, vemos um Henderson que perde a cabeça por qualquer coisa, um homenzarrão de quase dois metros de altura destilando suas inquietações que não o deixam em paz em nenhum momento. Um evento trágico abala ainda mais as emoções fragilizadas do nosso personagem, vindo a tomar a decisão de que, então, era hora de voltar para casa. No retorno tumultuado ao Ocidente, Henderson percebe que não é mais o mesmo homem que abriu mão de tudo em busca de significados: ele se vê renovado, uma espécie de halo de esperança parece o rodear e é então que aquela voz que o perseguia incessantemente, que o tirava a paz e o sentido de tudo, se cala e ele pode ver o belo no simples…

Fazia tempo que eu queria ler algo do Bellow, um dos autores mais importantes da literatura do século XX, ao lado de Bernard Mallamud, Philip Roth e Norman Mailer. Henderson, o gigante em frangalhos, nascido da cinza e da chuva, não poderia ter sido melhor escolha! Vale!

Leitura 45/2020

O espírito da prosa – uma autobiografia literária [2012]

Cristovão Tezza (Brasil, 1952-)

Record, 2012, 224 p.

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“Volto ao começo. O que me levou a escrever foi um misto de infelicidade e esperança, embora eu não soubesse disso no momento em que produzi a minha primeira frase literária: o nascimento da obra, digamos assim, para definir com alguma pompa o que não tinha nenhum valor autônomo além de um desejo. Comecei, de fato, copiando formas de livros” (pág 31).

Depois de ler “O filho eterno”, publicado em 2007, o relato contundente onde o escritor catarinense (radicado em Curitiba) Cristovão Tezza aborda os desafios da relação de um pai com o filho portador de Síndrome de Down, eu vi que estava defronte de um grande escritor! A sensibilidade do livro, narrando as dificuldades diárias, as redescobertas, a esperança nascedoura onde florescem os mais nobres sentimentos, tudo ali aflige e alegra.

Antes de ler o volume que agora pontuo minhas impressões, eu também já havia lido dele o “Beatriz”, volume de contos publicado em 2011, alguns interessantes, outros nem tanto. O cenário sempre é a cidade de Curitiba, onde floresceram a pena e a verve de Tezza, terreno propício para encontros e desencontros explorados sempre pela protagonista Beatriz.

Então, a minha natural curiosidade pela vida dos escritores. Que costumam legar em volumes de não-ficção toda a sua trajetória que culminou com o ofício de escrever – me levou a ler a sua autobiografia. É um livro cheio das memórias, dos mais erros que acertos, das referências culturais, dos caminhos alternativos, de fato um exercício honesto de redescoberta e reimersão nas trilhas que o levaram ao encontro da literatura. Ali, o autor também desabafa mais de uma vez a frustração das primeiras obras, livros fracos, sem identidade, sem a presença do autor. “Um escritor ausente de sua frase é a derrota do texto”, diz Tezza. Relata a auto-construção do escritor, num ambiente ideológico e culturalmente efervescente, a cuja atenção Tezza despendeu muito de si e que acabaria refletindo no que então escrevia.

O bom de livros como este é fuçar na origem de tudo, do porquê e do como aquele autor acabou se tornando um artífice da palavra. Gosto particularmente de saber o ambiente onde foram criados, quais as lembranças que recheiam os livros que escreveram, quais fantasmas procuram ser purgados com algum tipo de redenção literária. Também vemos que todo bom escritor leu muito e muitas coisas, que, em geral, teve uma existência difícil e desengajada de alguma forma (aqui reitera meu ponto do porquê Hemingway é um escritor medíocre: um cara que curtiu a vida como ele, que fez o que amou, que viveu de forma intensa, que estava tão apegado à vida que no momento em que percebeu a ruína, se deu um tiro fatal, não poderia produzir nada bom em matéria de literatura. “O sentimento de inadequação parece ser o primeiro motor de quem escreve a sério. O que nos leva a um paradoxo interessante, que é em si uma inadequação metafísica: a felicidade não produz literatura”, diz uma vez mais o Tezza.

Depois de uma frase dessas, o que mais dizer? Vale!

Leitura 44/2020 [Lista #1001livros]

A volta ao mundo em 80 dias [1873]

Orig. Le tour du monde en quatre-vingt jours

JúlioVerne (França, 1828-1905)

L&PM, 2011, 256 p.

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“Phileas Fogg ganhara sua aposta: ele perfizera em oitenta dias aquela viagem ao redor do mundo! Para isso, empregara todos os meios de transporte, navios, trens, carruagens, escuna, barco cargueiro, trenó, elefante… O excêntrico cavalheiro demonstrara nesse empreendimento suas incríveis qualidades, seu sangue-frio e seu rigor. Mas… e daí? O que ele ganhara, afinal, com essas locomoções? O que lhe rendera a tal viagem? Nada, alguém dirá? Nada, é verdade, a não ser uma mulher encantadora, uma mulher que – por mais inverossímil que isto possa parecer – fez dele o mais venturoso dos homens! Verdade seja dita: não faríamos, por menos que isso, a Volta ao Mundo?” (pág 218).

Esta novela do escritor francês Jules Verne o levou, definitivamente, à fama. À época de sua publicação, segunda metade do século XIX, vendeu mais de 100 mil exemplares, vindo a ser traduzido para vários idiomas, um feito inédito! Trata-se de uma epopeia repleta de incidentes e eventos canhestros a cujas adversidades, são friamente transpostas por um rico e excêntrico inglês, Phileas Fogg, que aposta toda sua fortuna no clube ao qual é filiado, que consegue dar uma volta pelo globo em exatos 80 dias.

O livro é muito mais uma obra de ficção juvenil, ali para os idos dos 15, 16 anos de idade, perfeito para introduzir os nossos jovens cada vez mais alienados virtuais ao mundo da boa literatura, sendo uma boa porta de entrada mesmo. Como diversão, cabe por ser uma leitura bem dinâmica e fluída, dado algumas passagens onde Flogg e seu fiel escudeiro “Chavemestra” se debatem com seitas hindus violentas, palhaços japoneses e índios americanos, a fim de cumprirem a aposta aceita pelo ilustre cavalheiro britânico. Do que: é mais um (ou menos) da enorme lista 1001 a que me pus a percorrer. Todos (incluo aí o Fogg) temos nossas estranhas obsessões…. Paciência.

Leitura 43/2020 [Lista #1001livros]

O jovem Törless [1906]

Orig. Die Verwirrungen des Zöglings Törless

Robert Musil (Áustria, 1880-1942)

Nova Fronteira, 2019, 145 p.

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“É sempre assim: aquilo que num momento experimentamos como indivisível e inquestionado torna-se incompreensível e confuso, quando queremos amarrá-lo com as cadeias do pensamento, tomando posse dele. E aquilo que parece grande e estranho enquanto nossas palavras, de longe, anseiam por ele torna-se simples e perde o que tem de inquietante tão logo entra no ritmo de nossa vida diária” (pág 60).

O romance conta a história de Törless, um adolescente que é mandado para o internato, onde é submetido a experiências que marcarão a sua vida para sempre. A história é centrada em três rapazes onde são tratadas questões como a transição da adolescência à vida adulta, do experimento de certa atividade homossexual, não incomum em ambientes assim, os jogos de poder, onde parte da personalidade é formada e o papel da crueldade, bullying físico e psicológico e, claro, nos questionamentos existenciais de Törless.

Apesar de ser o primeiro trabalho do escritor austríaco Robert Musil, é inegável a maturidade do livro, frases fortes e marcantes, de uma atualidade incomparável. A leitura também me fez lembrar de outro romance, brasileiro, com matéria-prima análoga: trata-se de “O ateneu”, da lavra de Raul Pompéia, que li faz muitos anos, para um trabalho escolar. Ambos são clássicos que merecem ser lidos por agregarem algo da essência de todos nós, ou mesmo as perguntas pelas quais inevitavelmente passamos. Valem!

Leitura 42/2020 [Lista #1001livros]

Nove noites [2002]

Bernardo Carvalho (BRA, 1960-)

Companhia das Letraa, 2006, 150 p.

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“O certo é que, ao deixar a aldeia pela última vez, ele estava fugindo. E isso eu já lhe disse, mas repito, porque quero que guarde bem. Quando muito, haverá um lugar para uma única causa e uma única imagem na sua cabeça. Terá que aprender a se lembrar dele como um homem fora do seu campo de visão, se é que pretende vê-lo como eu o vi. Também demorei a entender o que ele queria dizer com aquilo, o que havia de mais terrível nas suas palavras: que, ao contrário dos outros, vivia fora de si. Via-se como um estrangeiro e, ao viajar, procurava apenas voltar para dentro de si, de onde não estaria mais condenado a se ver. Sua fuga foi resultado do seu fracasso. De certo modo, ele se matou para sumir do seu campo de visão, para deixar de se ver” (pág. 100).

Até ler este livro, eu nada sabia sobre Buell Quain, um etnólogo americano que se suicidou aos 27 anos no meio da Floresta Amazônica, quando cruzava a mata onde passara semanas isolado no seio da tribo indígena Krahô.

O livro mistura reportagem de fatos com elementos de prosa a fim de preencher as lacunas, vastas e até hoje não explicadas, do porquê Quain se matara. Carvalho constrói em sua narrativa uma espécie de prestação de contas pela história trágica do jovem etnólogo que o levou à busca obsessiva por respostas desde que ouvira falar de Quain e sua saga até a obscuridade. Os capítulos são narrados ora pelo próprio autor, ora por um narrador onisciente, duas vozes que vão misturando as camadas de ficção e realidade, vindo a compor um dos livros mais interessantes que li até então. Também, inevitavelmente, leva o leitor a se voltar para a cultura dos povos indígenas, a cujos matizes somos quase que ignorantes, mas que sempre foram objeto de estudos antropológicos, como o que Quain fez. Bravo, lista!

Leitura 41/2020 [Lista #1001livros]

Mas não se matam cavalos? [1935]

Orig. They Shoot Horses, Don’t They?

Horace McCoy (EUA, 1897-1955)

L&PM, 2007, 130 p.

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“Não existem experiências novas na vida. Alguma coisa pode acontecer que você acha que nunca aconteceu antes, que você acha que é novidade, mas é um engano. Basta você ver, ou sentir um cheiro, ou escutar alguma coisa para você entender que essa experiência, que você pensou que era nova, já aconteceu antes” (págs. 51/52).

A lista não decepciona! “Mas não se matam cavalos?” é prova disso. Um livro bastante curto, que conta o dia a dia de um evento, uma maratona de dança ininterrupta, a cujo prêmio de mil dólares é o objetivo de várias duplas. Uma dessas duplas, Robert e Gloria, são dois artistas de cinema mal fadados que buscam uma nova chance em Hollywood mas que, sem trabalho, se submetem àla fatigantes sessões de dança. Roberto sonha produzir o próprio filme; Gloria, uma atriz decadente, quer ter uma nova chance na carreira. Depois de dias extenuantes dançando, vários casais vão sendo desclassificados mas os dois, apesar do cansaço, perseveram. A poucos dias do fim do concurso, uma tragédia acaba encurtando a maratona de danças. É quando Glória toma a mais difícil decisão da sua vida.

O escritor Horace McCoy legou um romance que reflete o tempo em que viveu, quando ideais e sonhos foram destroçados pela Depressão americana. O lado trágico da história mais a figuração das agruras do entretenimento americano é o pano de fundo de um livro tão pequeno, trágico e bonito.

charlles campos

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