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Lidos em 2022

O ultimo leitor [2006]

Orig. El ultimo lector

Ricardo Piglia (🇦🇷, 1941-2017)

Companhia das Letras, 2006, 192p.

Trad. Heloisa Jahn

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“Um leitor seria, assim, aquele que encontra o sentido num livro e preserva um resto da tradição num espaço onde impera outra série (o terror, a loucura, o canibalismo) e outro modo de ler os signos (de que a pegada de um pé na areia seria um exemplo)” (Pag. no iBooks 145).

Neste volume o escritor argentino Ricardo Piglia reúne 6 ensaios bastante interessantes sobre o liame entre vários clássicos literários e seus leitores ficcionais potenciais. Os excertos vão sendo capturados e destrinchados para dar uma ideia imaginária da história da leitura, algo bastante inteligente e – porque não – inovador para este leitor.

As “estórias”, montadas a partir de cenários criados por Kafka, por Tolstoi, por Defoe, por Joyce e outros mais em seus livros buscam a suprema pergunta que parece margear toda a obra: “O que é um leitor?”, desembocando inevitavelmente na figura curiosa do “último leitor”, aquele que deveras tem o papel de construir um paralelo entre os caracteres impressos e a mente criadora do escritor, que, por sua vez, usa leitores imaginários para falar do tipo de leitor e sua ligação com a escrita.

É um exercício curioso, pertinaz eu diria, apesar de sentir alguma dificuldade em diversos trechos (me falta o estofo necessário para apreender textos aprofundados), já que Piglia faz um primoroso trabalho de análise da literatura, o que exige algum conhecimento prévio.

Tirando minha canhestra atuação, dessa leitura posso dizer que vale, mas será enormemente bem vinda após ao menos ter lidos as obras citadas, livros desafiadores como Ulisses e Dom Quixote, só para iniciar.

Demian [1919]

Orig. Demian: die geschichte von Emil Sinclairs jungend

Herman Hesse (🇩🇪, 1877–1962)

Record, 2016, 196p.

Trad. Ivo Barroso

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“Nada na vida repugna tanto ao homem do que seguir pelo caminho que o conduz a si mesmo” (Posição Kindle 666/26% do ebook).

“Quem quiser nascer tem de destruir um mundo. […] destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a consequente dolorosa busca da própria razão de existir: ser é ousar ser” (Posições Kindle 1286/2366).

Demian é o típico “Bildungsroman”, narrativa do amadurecimento, do indivíduo em busca de sua essência através do autoconhecimento. Narrado em primeira pessoa, na voz de Emil Sinclair, vamos nos desdobrando pelo acontecimentos colhidos durante a infância, juventude e vida adulta do narrador, que empreende uma verdadeira caçada pelos incognoscíveis e velados sinais que se vos apresenta durante sua vida.

É um livro de muitas vozes, narrativa embargada por diversas correntes de pensamento que, penso eu, foram objeto de análise do escritor Hesse, que opera uma interesse arena de teorias: vemos traços da psicologia jungiana, quando o autor aborda o papel do inconsciente, alguma influência da filosofia de Nietzsche (abordado veladamente quando critica a tomada de ações baseadas meramente no “rebanho”, na multidão) misturados ao caldeirão de religiões orientais, tais como o Gnosticismo e o Zoroastrismo, voltas e voltas para enfim se enfeixarem no objetivo redentor do autoconhecimento e formação do caráter.

É, deveras, um livro com uma grande importância já que possui um forte tom libertário, principalmente por ser parcialmente ambientado nos dias nebulosos da guerra. Sinclair dá voz a muitos dos confusos embates internos que ora temos na vida e vai alargando sua aparente vitória ao calibrado status quo emocional com a ajuda de Max Demian, espécie de guia espiritual de Emil, cuja sabedoria imensa e precoce impressiona, auxilia o amigo a entender os sinais que se lhe apresentam na vida e a renunciar aos laivos de maldade que buscam aflorar pelas frinchas da alma.

De Hesse eu já havia lido “Com a maturidade fica-se mais jovem”, uma obra que opera a já construída e consolidada satisfação existencial da vida, apesar da destrutiva passagem do tempo sobre o corpo, que não necessariamente precisa atingir a mente e a forma como interagimos sobre a realidade.

Valeu a leitura, de qualquer forma, apesar de eu, leitor incauto, não ser versado em filosofia nem afeto às crenças. A virtude e a fé, essas tão buscadas essências humanas, deveras não são para todos. Ai de mim!

Leituras de 2022 – Lista #1001livros ✅

O poder e a glória [1940]

Orig. The power and the Glory

Graham Greene (🇬🇧, 1904–1991)

Biblioteca Azul, 2020, 296p.

Trad. Mario Quintana

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“Naturalmente”, disse a pequena, “o senhor poderia…renunciar.”

“Não compreendo.”

“Renunciar a sua fé”, especificou ela, empregando o vocabulário da sua História da Europa.

“É impossível. Não há saída. Eu sou padre. Não está em meu poder.” (Posição Kindle 847/20%).

De Greene eu já havia lido “Fim de caso”, um livro curtíssimo, mas de uma beleza estética que, recordo, me impressionara muito.

Aqui em “O poder e a glória” se dá o mesmo enlevo que vi lá nas páginas daquele primeiro livro dele lido: um padre e sua saga trágica e desesperada por tentar escapar das mãos do Estado opressor, que persegue com ardor e sangue a Igreja Católica num México dos anos 20 varrido pela intolerância.

O próprio Greene visitou o país na época e, da experiência nada agradável, pode compor este relato marcante, cujo padre anônimo e dado a beber, se vê literalmente entre a cruz e a espada: os lugares seguros vão se escasseando, à medida que o cerco policial se fecha ao seu redor; também se torna “persona non grata” em todos os vilarejos onde tenta se homiziar; sua cabeça, valendo uma pequena fortuna, atrai a cobiça de uns poucos que não temem o castigo divino nem a desaprovação de seus patrícios.

O livro aborda, ainda que de forma superficial, as discrepâncias entre a fé e a razão, entre a bondade divina e o mau que reside no homem caído. Mas ainda assim, é notável a pena de Greene ao compor os cenários áridos, a escassez, o medo do padre ao sofrimento, os laivos de orgulho e jactância que o acomete vez ou outra, sua sede intratável, mas lindamente detalha o suspense do dia da sua captura, a noite em que sente o abraço da morte (como uma clara demonstração de que a fé que tanto plantou em outros, falhou e é vazia nele mesmo).

Mais não digo, pois indico veementemente a leitura dessa obra magistral, contida na grande lista 1001, de livros essenciais a ler. Ironicamente, “O poder e a glória” está assentado ao lado de “Por quem os sinos dobram”, de Hemingway (pág 414 do livro “1001 livros para ler antes de morrer”, editora Sextante), um escritor que para mim foi um erro levado a sério demais, assim como o fato de Bob Dylan ter ganhado um Nobel e (sei que vou irritar alguns) Gil ter sido elevado a “imortal” da ABL. Grandes hiatos; díspares, felizmente. Paciência.

Leituras de 2022

Luz antiga [2012]

Orig. Ancient Light

John Banville (🇮🇪, 1945–)

Biblioteca Azul, 2013, 336p.

Trad. Sérgio Flacksman

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“O que eu achava infindável tinha chegado ao fim. Um mundo se acabava, em silêncio. Olhei novamente pela janela. A luz que orlava a cortina tinha ficado mais forte, uma luz que tremulava ao mesmo tempo em que ficava mais forte, é era como se algum ser radioso avançasse para a casa pela relva cinzenta e pelo pátio coberto de musgo, com as grandes asas frementes bem abertas; e, esperando sua chegada, sempre à espera, imergi sem perceber no sono” (Posição Kindle 3857).

Luz Antiga é o terceiro e último livro da trilogia Alex Cleaver e, na minha opinião, o melhor, mais bonito e mais poético dos três. É um romance que fala sobre a doce memória do grande amor da infância, vivido por Cleave que, aos 15 anos, se envolve com Celia Gray, 20 anos mais velha, casada e mãe de dois filhos, um deles, inclusive, amigo de Alex.

Passadas várias décadas, o ator decadente passa em revista as memórias daquele verão distante, intervaladas pela ainda viva dor da perda de sua filha Cass, 10 anos antes (tema do livro dois, “Sudário”), morta nas águas azul-turquesa de Portovenere, Ligúria, Itália e pela tentativa de entender porquê um tal Axel Vander parece se imiscuir nessa tragédia familiar.

Eu tenho cá para mim que John Banville tem a melhor pena para escrever sobre perdas e as lembranças boas (e não menos tristes) delas. O autor gosta de operar sobre os equívocos daquelas memórias que julgamos serem exatamente o que aconteceu, eclipsadas pelo nosso olhar e nossa emoção. O que é um fato, sobretudo quando olho para a minha própria coleção de memórias, muitas delas amarelecidas, carcomidas e distantes, tão distantes que há muito se foram as cores da nitidez e da certeza. Enfim.

Fazia muito não lia um livro que deveras me empolgasse tanto: e sempre achei em Banville, autor de “O mar”, outra obra necessária, esse escritor soberbo, uma ponte para esta beleza literária, dos amores que deixamos para trás, das certezas incertas, do equívoco da existência. Ciao!

Leituras de 2022

Sudário [2002]

Orig. Shroud

John Banville (🇮🇪, 1945–)

Biblioteca Azul, 2015, 296p.

Trad. Cassio Arantes Leite

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“Raiva, raiva e medo, esses são os combustíveis que me movem, misturados em igual medida: raiva por não ser o que não sou, medo de descobrirem o que sou. Se um dia uma ou outra dessas forças se exaurir, o violento equilíbrio que me sustenta irá para o espaço e desmoronarei” (Posição Kindle 1058).

Se em “Eclipse”, John Banville, o autor do magistral “O mar”, compôs uma narrativa triste (sempre, aliás), meio fantasmagórica de um ator decadente que, ao não saber mais atuar nos palcos, vive se escondendo na vida real sob a capa do personagem mais apropriado para a ocasião, em “Sudário”, o volume dois dessa “trilogia Alex Cleave” vai narrar a vida de um homem que assumiu a identidade de outra pessoa por décadas.

Não sabemos exatamente quem está por trás de Axel Vander, o verdadeiro, morto há décadas, mas seguimos seus passos, sua trajetória como escritor, as muitas mulheres que seduziu e de quem acabou sendo odiado por muitas delas, um homem de certa forma arrogante, pedante, envolto e carcomido pelos fantasmas do seu passado inexplicado.

Ele está confortável no papel que soube desempenhar por anos, até que Cassandra Cleave (será a mesma que aparece em Eclipse?), pesquisadora literária, junta os pontos e descobre o segredo por anos ignorado. Cass acaba se envolvendo com o falso Vander, muitos anos mais velho que ela, com quem vive um romance complexo, onde ambos têm de lidar sobre os meandros da culpa, do engano e da falsa aparência.

Não por acaso o livro se chama Sudário, o incongruente e contestado manto que teria sido usado para cobrir o corpo morto de Jesus, para explorar a capa do Vander copiado. Ele vai revelando em camadas e cenas temporais circulares a multidão de equívocos, de escolhas erradas, quase sempre envoltas pelo desejo fescenino com o qual se nutre e, por fim, a descoberta do amor que sente por Cass. A derrocada trágica do volume é narrada com as últimas páginas, um verdadeiro exercício de boa literatura, que me agradou demais e que já me fez iniciar o terceiro volume, “Luz antiga”. Vejamos.

Leituras de 2022

Homens sem mulheres [2014]

Orig. Onna no inai otoko tachi – 女のいない男たち

Haruki Murakami (🇯🇵, 1949-)

Alfaguara, 2015, 240p

Trad. Eunice Suenaga

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“Quando o coração dela se move, o meu é puxado junto. Como dois botes presos por uma corda. Mesmo querendo cortá-la, não encontro em lugar nenhum uma faca que possa fazer isso” (pág 119/iBooks).

Neste volume, Murakami reúne sete histórias curtas, sete contos, por assim dizer, onde, além de misturar os elementos musicais mesclados à paisagem da plaga japonesa, todos falam de alguma forma de solidão e da grande dificuldade que é entender-se com outra pessoa.

Todos tem um grau de inventividade que não costumamos achar em historietas do gênero, mas ele como que consegue captar a forma com que a solidão e o receio de se abrir com o próximo impedem o desenrolar dos relacionamentos. Esse traço eu tinha percebido quando li outro livro dele, no caso o “Incolor Tsukuru Tazaki…”, a saga do rapaz insípido que busca compreender as razões pelas quais fora abandonado pelos amigos ainda na adolescência. É uma escrita nostálgica, simbolista e cinzenta.

Não diferente, os contos de “Homens sem mulheres” expressam também essa mesma urgência inacabada. Os personagens buscam refúgio no sexo fugaz, na ressignificação da própria existência, no silêncio musical de uma tarde chuvosa. Eles anseiam por coisas indizíveis, anelam se locupletar mas, apesar do expediente da palavra dita, preferem calar-se na muda resignação onde parece (só parece) encontrarem certo paz.

Em coletâneas assim, é comum elegermos aqueles textos que julgamos gostar mais. Eu particularmente fui tocado por “Drive my car”, a história de um ator que teve a carteira de motorista suspensa, contrata uma motorista a quem acaba confessando a experiência de se aproximar do último amante da sua esposa, já falecida, para entender porque ela o traía. Já outro conto do livro, “Órgão independente”, narra o trágico fim de um médico que definha de amor pela ingrata mulher que o engana e lhe subtrai grande soma de dinheiro, levando-o a um quadro de inanição aguda. E, claro, o próprio conto que dá título ao volume, “Homens sem mulheres”, que narra a história de um homem que, ao ser acordado no meio da noite pelo marido de uma antiga namorada dos tempos de colégio, elabora uma interesse teoria sobre o porquê de as mulheres se afastarem inapelavelmente dos homens. Para mim, este o mais poético e bonito de todos. Espia:

“Um dia, de repente, você vai ser um dos homens sem mulheres. Esse dia chegará subitamente, sem nenhum aviso prévio nem sinal, sem premonição nem pressentimento, sem uma tosse que seja ou uma batida na porta. Ao virar a esquina, você vai descobrir que já está ali. Mas não poderá voltar atrás. Uma vez que virar a esquina, será o único mundo para você. Nesse mundo você estará entre os “homens sem mulheres”. Em um plural infinitamente indiferente” (pág 226/iBooks).

Como se viu nessas parcas linhas, o título não é tão fidedigno em seu trato, já que não fala somente de homens solitários: as mulheres tem um espaço interessante aqui (não subalterno), já que Murakami dá pinceladas do não menos doloroso viés da solidão feminina, ainda que de forma implícita, mas fortemente presente, formando um conjunto compacto mas profundo em suas reflexões.

Os demais contos, “Yesterday”, “Sherazade”, “Kino” e “Sansa apaixonado” não são ruins; pelo contrário, fecham o conjunto com perfeição e, me parece, um pouco menos emoldurados das pitadas fantásticas que Murakami parece operar em seus romances. Bom livro e sigamos o baile!

Leituras de 2022

Flores da ruína [1991]

Orig. Fleurs de ruine

Patrick Modiano (🇫🇷, 1945-)

Record, 2015, 144p

Trad. Maria de Fátima Oliva do Coutto

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“No instante em que chegamos à Rive droite, após ter atravessado a pont du Carrousel e os arcos do Louvre, dou um suspiro de alívio. Nada mais tenho a temer. Deixamos para trás a zona perigosa. Sei bem que se trata apenas de uma trégua. Um dia terei de prestar contas. Experimento um sentimento de culpa cujo motivo permanece vago: um crime do qual participei na qualidade de cúmplice ou de testemunha, não saberia dizer com exatidão” (Posição Kindle 810).

“Flores da ruína” é o segundo volume da chamada Trilogia Essencial, do escritor francês Patrick Modiano, prêmio Nobel de 2014. É o terceiro livro dele que leio (os outros foram o muito bom “Para você não se perder no bairro” e o bom “Remissão da pena”, justamente o primeiro da trilogia), mas a mesma temática segue o estilo do autor, acostumado a lidar em seus romances com memórias antigas, reconstruídas graças ao referencial geográfico da cidade de Paris, onde os livros são ambientados.

Neste volume, Modiano busca reconstruir um evento trágico no distante ano de 1933, quando ocorreu o duplo suicídio de um jovem casal na periferia parisiense. É uma tarefa hercúlea, tendo em vista terem passado cerca de 30 anos do acontecido, halo temporal suficientemente grande até mesmo para a memória, essa pregadora de peças.

Narrado em primeira pessoa, Modiano utiliza a técnica da pergunta para ir reconstruindo aquele evento onde o autor entremeia as próprias memórias, que se misturam àquela em particular, sendo muitas delas ligadas a andanças aleatórias pelos “arrondissement” da Paris dos anos 30, levando o leitor a círculos e mais círculos (uma alusão à forma de caracol de Paris?) cujas camadas vão rejuvenescendo a tinta da memória.

Modiano demonstra sua habilidade narrativa com o conhecimento de fato da cidade. Você como que se vê errando por Paris, flanando pelas margens do Sena, pelos boulevards, pelas places, absorvendo a atmosfera local. E nessas andanças, ele busca exorcizar os fantasmas que inevitavelmente levam-no a recobrar a culpa por, de alguma forma, ter sido cúmplice daquele crime do qual jamais se esqueceu, fazendo uma espécie de registro memorialístico misturado com romance policial.

Olhando os comentários no Skoob sobre este livro, me chamou a atenção pela quantidade de leitores frustrados com a leitura de “Flores da ruína”. Bem, não os culpo. De fato, a escrita de Modiano pode não ser uma boa para os leitores que preferem estórias mais dinâmicas, com mais cores e entreveros. Isso porque, à semelhança de um John Banville ou um Julian Barnes, Patrick Modiano tem uma escrita lúgubre, monotemática, saudosista, características que não agradam a todos. Eu não posso dizer que seus livros sejam maravilhosos e marcantes, mas há neles um quê de beleza suficientemente grande para instigar a caminhada por Paris e as muitas memórias encravadas por suas ruas. Vale!

Leituras de 2022

O último voo do flamingo [2000]

Mia Couto (🇲🇿 ,1955)

Companhia das Letras, 2016, 256p

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“No meio da noite, em plena tempestade, quando se perde noção da terra, é a presença e a voz dos flamingos que orienta os pescadores perdidos” (Posição Kindle 1426/57%).

“Face à neblina, nessa espera, me perguntei se a viagem em que tinha embarcado meu pai não teria sido o último voo do flamingo. Ainda assim, me deixei quieto, sentado. Na espera de um outro tempo. Até que escutei a canção de minha mãe, essa que ela entoava para que os flamingos empurrassem o sol do outro lado do mundo” (Posição Kindle 2365/95%).

Meu primeiro contato com a escrita do moçambicano Mia Couto foi em 2016, quando li “Jesusalém” (no Brasil, o título ficou como sendo “Antes de nascer o mundo”). Já deu, naquela experiência, para perceber que Mia Couto se utiliza de neologismos que, misturados aos dizeres locais num português mais europeu para contar suas histórias, tem muito de fábula.

Em “O último voo do flamingo” não é diferente: aquele eterno tom de fábula, mesmo que a história pareça pilheiresca ou mergulhe no suspense, você é atropelado pelo eterno tom de fábula, tanta que é difícil separar o que é sério do que é humor ou crítica.

Logo no início do romance, um acontecimento aparentemente trágico prende logo o leitor: num país africano fictício, soldados da ONU explodem-se, assim, sem mais nem menos, fato que não só chama a atenção dos moradores locais como também de prepostos externos. Para entender o estranho fenômeno, é convocado um especialista da ONU, o italiano Massimo Risi, que tem a missão de estudar e documentar os eventos extraordinários, para no final remeter o relatório a seus superiores.

Bueno.

A partir daí, Couto vai desenvolvendo uma narrativa que mistura assuntos políticos (o chefe de Estado que tenta impedir a intromissão europeia em seus domínios), magia, cultura local, poesia e provérbios populares.

Os personagens também seguem a mesma linha, o narrador e designado tradutor local, que acompanha Massimo em sua missão, entre curandeiros, mortos que ainda convivem com vivos e uma infinidade de feitiços que acometem mulheres e homens, deixando-os velhos, “explodíveis “… Vamos caminhando para o final para, ora bolas, entender o porquê das explosões. É quando, a meu ver, o livro vai perdendo vigor, estofo, fica demasiado lento e até, em algumas partes, repetitivo e macilento.

Me recordo vivamente que Jesusalém me cansou na leitura. O último voo do flamingo, apesar de ser bem mais leve, até mesmo mais liricamente bonito, não chegou a me impressionar tanto quanto gostaria, afinal é um título que venho tentando ler desde bom par de anos. Não que o livro seja ruim, repito. Mas, diferente do realismo fantástico de Gabriel Garcia Márquez, aquela perfeita enxurrada de palavras, de adjetivos milimetricamente bem construídos que impressiona sempre, a escrita fabular de Mia Couto, até o momento, deixa a desejar.

Leituras de 2022

Por que escrever? – Conversas e ensaios sobre literatura – 1960-2013 [2017]

Orig. Why Write?

Philip Roth (🇺🇸, 1933-2018)

Companhia das Letras, 2022, 568p

Trad. Jorio Dauster

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“Escrever para mim não é uma coisa natural, que eu simplesmente vou fazendo, como um peixe nada ou um pássaro voa. É algo feito sob uma espécie de provocação, uma urgência especial. É a transformação, mediante uma personificação complexa, de uma urgência pessoal num ato público (nós dois sentidos da palavra “ato”)” (Posição Kindle 2612/34%).

“A única leitura que chega perto da ideal é a que faz o próprio escritor. Todas as demais são um pouco surpreendentes, para usar minha palavra, ou ‘equivocadas’, para usar sua expressão, o que não significa que a leitura seja superficial ou burra, e sim que foi determinada por formação, ideologia, sensibilidade e outros fatores que caracterizam o leitor” (Posição Kindle 2993/39%).

Às vésperas de 19 de março de 2022, data em que, se vivo, Philip Roth completaria 89 anos de idade, encerro a deleitosa leitura de “Por que escrever?”, densa coletânea de ensaios e entrevistas do grande autor norte-americano, desaparecido em maio de 2018.

Os textos reunidos neste volume abarcam o período que vai de 1960, onde encontramos um Roth jovem, mas já famoso e consagrado, e vai até 2013, um ano após o romancista ter anunciado sua aposentaria, mas deixando um legado literário que inegavelmente compõe o melhor da literatura do século XX. Sua pirâmide literária, iniciada com a publicação da coletâneas contos “Adeus, Columbus”, de 1959, e findada com “Nêmesis”, de 2010, é um primor das letras, composto por cerca de 31 livros com os quais o autor ganhou fama, dinheiro e reconhecimento, assim como também problemas.

Roth produziu livros que abordam temas sensíveis, repletos de tabus, ligados à condição judaica, à decrepitude física e sexual e a finitude da vida do homem. Seus romances são povoados de figuras masculinas problemáticas, claudicantes, constantemente bombardeados pela obrigação de serem perfeitos, bem sucedidos, potentes sexualmente. Não por isso, Roth é considerado por muitos como misógino, já que a figura feminina é posta quase sempre secundariamente. À exceção de Lucy Nelson, de “Quando ela era boa”, todos os livros de Roth têm como personagens principais masculinos.

O que muita gente não sabe (ou por ignorância ou por leviandade) é que no universo rothiano o homem nunca se dá bem. Ele vive mal, numa crise constante, tem medo de morrer, vê as marcas indeléveis do tempo destruindo seu ideal de sonho perfeito, sua virilidade sendo consumida pelo câncer, pela impotência e pela incontinência urinária, seus ideais despedaçados pela incerteza resultante da implosão dos dilemas sociais e políticos nos quais os livros são ambientados. São, na verdade, uma feroz crítica ao chamado sonho americano, que vendia a esperança do sucesso certo e, por isso, buscavam retirar as camadas de pintura que metamorfoseavam de belo o mais feio lado do ideário americano.

Com tantas oposições, Roth passou mais de meio século se defendendo das acusações de anti-semitismo, misoginia e libertinagem. Mediante entrevistas e ensaios, buscou desmistificar os diversos e falsos simbolismos atribuídos erroneamente a sua obra, desfeito tantas pechas a si atribuídas, provando que, na verdade, ele só quis produzir, enquanto a saúde e o vigor não lhe faltassem, boa literatura. E que literatura produziu, não?

Apesar de suspeito, não posso mitigar o imenso entusiasmo que tenho sempre que leio Roth ou converso sobre seus livros (na verdade sinto falta de mais contato com interlocutores com quem possa conversar sobre os seus livros…). Isso porque, após me ter imposto a solitária e deleitosa — mas não fácil! — tarefa de ler cerca de 21 livros de Philip Roth, em ordem cronológica de publicação, posso reiterar com conhecimento de causa que Philip Roth é parte da curta lista de grandes nomes da literatura de todos os tempos. Os quase sete meses em que fui lendo todos esses livros mais que me convenceram que um autor americano possa ter produzido uma prosa envolvente, inteligente, de um estofo que você facilmente encontra num Garcia Márquez, num Vargas Llosa, num Jorge Amado, num Machado de Assis, num John Updike, num Saul Bellow, num Bernard Mallamud, num Javier Marías, só para citar os escritores modernos.

No texto não-ficcional de Roth o leitor se depara com o rosto por trás da máscara, aquele que concebeu um Michey Sabbat, um Alexander Portnoy, um David Kepesh, um Sueco Levov, um Coleman Silk, um Ira Ringold e um Nathan Zuckerman, o escritor-observador, o fantasma que se recolhe para falar dos seus alvos jamais atingidos, idealizados como sendo homens a cujos adjetivos o próprio Zuckerman nunca terá. E Roth tem muito de Zuckerman mas Zuckerman tem muito mais de Roth, pois o autor, ao contrário do que a gente pensa, nem sempre se vê compelido a se dar às suas páginas para que todo o resto funcione.

“Por que escrever?” é justamente para trazer esta e outras respostas sobre o seu processo de escrita, as influências extrínsecas e a motivação reacionária que servem de combustível para o ato de escrever, de “lutar com a palavra”, no dizer do próprio Roth. Ele conta um pouco de suas amizades com outros escritores, de como tomou partido a favor dos escritores dissidentes de Praga, da sua busca por mais facetas de Kafka, das confusões que o cacetearam por meio século de atividade literária, das inspirações para escrever, sempre entremeando suas impressões do mundo à sua volta, comprimido no estreito universo da Newark de sua infância. Enfim, é leitura obrigatória para se aprofundar na literatura de Philip Roth, um passo a mais no conhecimento da vida e obra desse escritor que tanto fez e deixou no mundo literário, laureando-o com diversos prêmios (exceção do Nobel) e uma existência certamente dicotômica, pelo menos para as vozes algozes que duramente o criticaram. Ainda bem que, a despeito destes, a história provou estarem errados.

Leituras de 2022

14 [2012]

Jean Echenoz (🇫🇷, 1947-)

Editora 34 – Coleção Fábula, 2013, 136p

Trad. Samuel Titan Jr.

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“E na manhã seguinte foi a mesma coisa, aquilo não teve mais fim, num perpétuo trovejar polifônico sob o frio bem instalado. Canhão trovejando à maneira de baixo contínuo, morteiros de todos os calibres explodindo pelos ares ou em terra, balas que sibilam, estalam, suspiram ou miam conforme a trajetória, metralhadoras, granadas e lança-chamas, a ameaça vem de toda parte: de cima, com os aviões e os tiros dos obuseiros, da frente, com a artilharia inimiga, e mesmo de baixo, quando, acreditando aproveitar um momento de calmaria no fundo dá trincheira onde se tenta dormir, ouve-se o inimigo que cavouca surdamente, abrindo túneis para instalar minas e aniquilar toda a trincheira, com quem estiver nela” (pág. 81/82).

Em mais uma leitura sobre a guerra, neste caso também, como na história do bom soldado Svejka, a primeira grande guerra e, diferente do tom excesivamente jocoso daquele livro, em “14”, o leitor se depara com uma potente descrição do conflito. Um pequeno recorte, aliás, onde, sob a lente atenta do narrador, acompanhamos o início do conflito na França, quando se iniciaram as convocações para o front.

Centrado no personagem Anthime, o livro vai descrevendo o dia a dia dos soldados, desde a ordem convocatória até os primeiros embates no teatro de operações, contra o exército alemão. Apesar de linear, Echenoz, esse escritor que me surpreendeu com este relato, conseguiu unir a frieza da situação com a beleza por trás dos detalhes, desde o fulgor brilhante dos objetos metálicos carregados pelos soldados quanto a sombria expetativa de retorno a uma “vida norma”.

O autor consegue equilibrar tragédia e esperança, rotina e recomeço a um dos mais nefastos momentos da história humana, convergindo neste livro curto mas de páginas tocantes, findado com a mágica e certa certeza de a vida segue seu rumo. É como aquela história do terreno seco, encravado por ranhuras sob um sol inclemente: até ali é possível que nasça uma bela flor. Que livro!

charlles campos

Impressões literárias e fotogênicas

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Resenhas e aleatoriedades literárias

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