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Título: O leitor

Título original: Der Vorleser

Autor: Bernhard Schlink (Alemanha)

Tradução: Pedro Süssekind

Editora: @grupoeditorialrecord

Ano de lançamento: 1995

Ano desta edição: 2014

Páginas: 240

Classificação: ⭐️⭐️⭐️

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“Não é preciso contar, porque a verdade do que se conta está no modo como se é” (Posição no Kindle 1727/79%).

Michel Berg tem 15 anos. É estudante na Alemanha na primeira metade dos anos 40 e, num dia em que percebe que está bastante doente, sua vida muda para sempre…

Ajudado por uma desconhecida, uma mulher mais velha, que mais tarde vem a saber seu nome, Hana Schimitz, Michel se apaixonada perdidamente por ela, com quem mantém um tórrido romance que durou uma estação. A relação é marcada, sobretudo, por pequenos gestos e rituais: a leitura de clássicos de Tolstói, Goethe e Tchekov precede os encontros. Isso até o súbito desaparecimento de Hanna, para desespero do imberbe rapaz.

Para quem se aventurar nas páginas de O leitor, do jurista e escritor alemão Bernhard Schlink (bem como ao filme baseado no livro, que igualmente gostei muito!) não pense que vai encontrar um romance apenas, com começo, meio e fim. Mas um história embargada de lirismo, onde são entremeados metáforas, analogias e aforismos. Os capítulos são curtos, a história é fluida, apesar de em vários momentos seja necessário ao leitor parar para uma reflexão mais demorada..

Muito mais que um mero romance entre um jovem estudante e uma mulher madura, o livro mostra o dilema de um homem que briga consigo mesmo entre a ideia que tem da mulher que ama (aquilo que viveu), com aquilo que a mesma mulher tem de explicar e pelo qual está sendo acusada. E, apesar de passados os anos, a dureza do hiato – simbólico e real – que os separaram, Michel percebe que se perdeu, que sua vida se estagnou desde o verão quando Hanna sem explicação alguma o abandona, e ali é criada toda uma saga sem explicação e sem fim para entender até que ponto foi devastado pela simples ideia da existência de Hanna em sua vida. Daí voltar sempre ao passado, trazer à baila aquela figura, revista com seus cheiros, manias e incompletudes.

O livro ainda tem um alto nível de engajamento político, tocando numa ferida perigora: abarca o julgamento de algumas mulheres que trabalharam ativamente para a SS nazista. E este ponto, um dos altos do romance, é uma bela aula de jurisprudência contra as atrocidades que todos sabemos o Reich praticou, num dos mais horrendos episódios contra a vida humana, no talvez mais obscuro capítulo da história humana: o campo de concentração nazista.

Sem dúvida, Bernhard Schlink nos lega um romance completo em tudo, seja na dose de emoção e perda vividos por Berg e Schmitz, seja na culpa e lassidão legados por essa experiência, principalmente para Michel, seja na habilidade do autor em tratar de um tema tão nevrálgico, ainda hoje.

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Título: O testamento de Maria 

Título original: The Testament of Mary

Autor: Colm Tóibín (Irl)

Tradução: Jorio Dauster

Editora: @companhiadasletras

Ano de lançamento: 2012

Ano desta edição: 2013

Páginas: 88

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️

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“Certa noite me afastei sob o céu coalhado de estrelas e acreditei, por um instante, que em breve elas deixariam de brilhar, que as noites no futuro seriam escuras para além do escuro, que o próprio mundo sofreria uma grande mudança, e então rapidamente entendi que não, a mudança se daria apenas em mim e nos poucos que me conheciam: somente nós olharíamos no futuro para o céu noturno e veríamos o negrume antes de ver o brilho” (Posição no Kindle 625/53%).

“Se a água pode ser transformada em vinho e os mortos podem ressuscitar, então quero que o tempo retroceda. Quero viver de novo antes da morte do meu filho, antes de ele ter saído de casa, quando era um bebê e seu pai estava vivo e havia tranquilidade no mundo” (Posição no Kindle 999/84%).

Eu sempre quis ler Colm Tóibín, escritor irlandês, dono de uma obra prolífica e bem conceituada. Tencionava começar a lê-lo ou pelo Brooklyn ou por Nora Webster, os livros dele que tenho aqui em casa. 

Uma opinião bastante bem vinda, da minha amiga remota e leitora voraz e experimentada Márcia Huber, me fez começar a experimentar a prosa de Tóibín por um livro, bem pequeno em páginas, mas enorme em magistralidade: O testamento de Maria, publicado em 2013 no Brasil.

O Testamento de Maria é uma novela melancólica sobre o sofrimento de uma mãe que perdeu um filho. É assim que podemos resumir esse livro e foi assim que tentei ler essa história, fugindo dos enlaces teológicos que certamente devem ter causado alguma polêmica em torno do livro. Mas o que Tóibín tentou fazer, acredito que ele conseguiu foi buscar humanizar uma “personagem” que é um mito sobretudo para a comunidade católica, torná-la antes de mais nada uma mulher, uma mãe. E são esses sentimentos humanos e maternais que nos aproximam de Maria, uma mulher que perdeu seu filho para o mundo, que não aceita tê-lo perdido, que não acredita no que os outros dizem: que ele é o filho de Deus.

E aliás, este não é somente o único ponto polêmico do livro. Isso porque a Maria mãe não só não acredota nos portentos atribuídos ao seu filho como ainda busca refutar as apaixonadas expressões de devoção a ele dirigidas, sobretudo daqueles que ficaram conhecidos como seus discípulos.

Uma das partes que mais me chamou a atenção foi o fato em torno da ressurreição de Lázaro, no igualmente famoso episódio onde ele, já sepultado há quatro dias, é chamado do sepulcro em meio a uma pequena multidão. Tóibín amplia essa passagem bíblica, mostra um Lázaro desconectado, refém (apesar de estar na condição de “morto” há quatro dias apenas) de uma realidade espiritual que o torna um pária entre os vivos. Uma passagem e tanto!

Sem entrar em nenhum mérito religioso (lembremos que é ficção), o leitor é levado a reviver eventos já bastante conhecidos, mas eles não são o foco aqui. A história toda é contada através dos olhos de Maria, do seu luto, seu sofrimento, sua perda. Raiva e um sentimento de culpa por não ter conseguido salvar seu filho se misturam na narrativa de Maria, que é bastante lírica ao relembrar os últimos dias do seu filho antes da crucificação e o que aconteceu depois disso. O arrependimento de não ter buscado livrá-lo da cruz que o mataria, a fuga sem olhar para trás… Sem dúvida um livro belíssimo, uma perspectiva muito interessante que gostei bastante! Obrigado, Márcia!

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Título: Todos os belos cavalos 

Título original: All the pretty horses

Autor: Cormac McCarthy (EUA)

Tradução: Marcos Santarrita

Editora: @editoraalfaguara

Ano de lançamento: 1992

Ano desta edição: 2017

Páginas: 270

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️

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“Dentro do arco das costelas entre suas pernas o negro coração pulsava segundo a vontade de quem e o sangue latejava e as entranhas se mexiam em suas maciças circunvoluções azuis segundo a vontade de quem e os fortes ossos das coxas e joelhos e canelas e os tendões parecendo amarraa de linho que puxavam e dobravam e puxavam e dobravam suas articulações segundo a vontade de quem envolta e abafada na carne e nos cascos que abriam rombos na neblina rasteira da manhã e na cabeça virando de um lado para outro e no grande teclado escravizante dos dentes e nos globos quentes dos olhos onde o mundo ardia” (Posição no Kindle 2348/42%).

Todos os belos cavalos, do escritor americano Cormac McCarthy, pode ser considerado uma obra prima. Ambietado na fronteira entre o Texas e o México, narra a história de John Grady Cole, que parte a cavalo com seu amigo e companheiro Lacey Rawlins para o território mexicano na metade do século, em busca de algo que o compense de duas grandes perdas: a desagregação familiar e a derrocada de seu ideal de tornar-se rancheiro como seus antepassados. Exímio cavaleiro, ele se vê domando potros selvagens numa hacienda mexicana, perdidamente apaixonado por Alejandra,  filha do proprietário e lançado numa aventura sangrenta em que só os mais fortes sobrevivem. 

A vigorosa prosa de McCarthy eu já tinha experimentado em outro romance seu, “Onde os velhos não têm vez”, igualmente excelente, mas bem mais sangrento e que trouxe de volta o gosto pelos romances western. Mas, diferente do anterior, “Todos os belos cavalos” vai ainda mais além, tanto na beleza em si, na construção de personagens fortes, cuja sabedoria adquirida com o trato com a terra e os animais não deixa de trazer profundas reflexões sobre a vida. O leitor como que fica encantado com a ligação entre homem e cavalo, numa harmoniosa co-existência.

Todos Os Belos Cavalos é o primeiro volume da Trilogia da Fronteira, formada ainda pelos “A travessia” e “Cidades das planícies”. Nesse primeiro volume são tratados temas como o desencanto com o sonho americano, a busca pela sobrevivência, a descoberta do amor e o amadurecimento de um homem, tudo isso tendo como pano de fundo a natureza selvagem na sua mais pura rusticidade. 

É um livro perfeito. Aquela agilidade nas frases que quem já leu algum livro do McCarthy saberá a que me refiro. Repleto de passagens que merecem ser destacadas, tamanha a sua beleza marcada pela dor, pelo desespero, pela resignação e pelo apreço àqueles que vão promovendo tanto encanto como são os cavalos.

“Cavalgou com o sol acobreando-lhe o rosto e o vento rubro soprando do oeste a terra noturna e os passarinhos do deserto voavam chilreando entre as samambaias secas e cavalo e cavaleiro e cavalo seguiam em frente e suas longas sombras passavam engatadas como a sombra de um único ser. Passavam e empalideciam na terra a escurecer, no mundo a vir” (Posição no Kindle 5465/98%).

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Título: O amante

Título original: L’amant

Autor: Marguerite Duras (Vietnã/França)

Tradução: Denise Bottmann

Editora: Cosac Naify (Col. Portátil nº 4

Ano de lançamento: 1984

Ano desta edição: 2007

Páginas: 128

Classificação: ⭐️⭐️⭐️

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“Era ele no banco de trás, aquela forma quase invisível, que não fazia nenhum movimento, prostrada. Ela estava apoiada à amurada como na primeira vez na balsa. Sabia que ele a olhava. Ela também o olhava, não o via mais, mas ainda olhava para a forma do automóvel preto. E depois, no final, já não o via mais. O porto tinha se apagado, e depois a terra” (Pág. 94).

Foi com 70 anos que Marguerite Duras, escritora nascida em 1914 no que atualmente é o Vietnã, que publicou este romance perturbador. Narrativa fragmentada, espécie de autobiografia, ali Duras narra os difíceis dias da adolescência de Hélène Lagonelle, marcada pela pobreza, pela vida familiar desestruturada e por um fortuito e tórrido romance com um chinês rico. Ainda menina, Hélène percebe que, apesar da aparência infantil, é capaz de atrair o olhar e o amor daquele desconhecido abastado. 

O livro engana os desavisados por aparentar ser uma leitura fácil. Duras desenvolve a história utilizando uma intricada mistura de tempos, onde o futuro é narrado com uma voz do passado e a narrariva, já adulta, parece tomar emprestada a voz da menina Hélène.

Outra curiosidade causada pelo livro é que, apesar do título, o romance é totalmente focado na mãe de Hélène, que devido à perda da sanidade mental somada à decadência financeira da família (tornada mais grave com as constantes subtrações dos já parcos recursos da família com a jogatina e a dependência de ópio do irmão mais velho) que arrastam Hélène para se prostituir. A mãe e o irmão mais velho a rechaçam, mas ironicamente não deixam de aproveitarem-se do dinheiro trazido por Hélene, o já se pode perceber que a autora de fato gastou um bom par de décadas para se sentir suficientemente à vontade para falar com liberdade de tabus tão arraigados na sociedade indochinesa. Com certeza um livro que merecerá outras releituras.

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Título: São Bernardo 

Autor: Graciliano Ramos

Editora: @grupoeditorialrecord

Ano de lançamento: 1934

Ano desta edição: 2014

Páginas: 270

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

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“Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão” (Posição no Kindle 1440/27%).

“Vivia agora a passear na sala, as mãos nos bolsos, o cachimbo apagado na boca. Ia ao escritório, olhava os livros com tédio, saía, atravessava os corredores, percorria os quartos, voltava às caminhadas na sala” (Posição no Kindle 2534/47%).

Um homem cinquentenário pesa os anos de sua vida. Devastado pela perda e pela solidão, percebe que estragou aqueles que poderiam ter sido anos felizes. Paulo Honório, personagem principal deste magnífico romance da lavra de Graciliano Ramos, é o dono da fazenda São Bernardo, adquirida através de um hábil negócio, e que a transforma num celeiro de prosperidade, onde se discute a sociedade, a fé e a política. É ali também que divide a vida com sua esposa, a jovem professora Madalena, cuja existência é marcada pelos desgostos e humilhações do marido grosseiro e ciumento.

Paulo Honório se deixa levar pelo temperamento difícil e rabugento, pelas manias, pelo desprezo que tem a qualquer forma de erudição e saber, e por pessoas que gastam tempo com livros. Mas, já no fim da vida, a escrita, aquela atividade que tanto lhe gerara desprezo, é a única centelha de vida que lhe resta, após ser abandonado pelos amigos interesseiros, pelos empregados e pela esposa que, infeliz com os maltratos do marido, ceifara a própria vida. Paulo Honório se isola, impacienta-se com o filho desprezado, vê o resultado da Revolução de 1930 tomarem, pouco a pouco, os limites de suas terras, aliás cada vez mais entregues ao ostracismo…

Sempre admirei o escritor alagoano Graciliano Ramos. O leio desde ainda estudante secundarista. Sua escrita enxuta, por muitas vezes esmerilhada e lapidada pelas constantes reescritas, retratam não só a dureza e secura do Nordeste. Elas como que emprestam uma beleza sombria aos ditames vividos pelos povos do Norte. Muitos de suas personagens se parecem com o próprio Graciliano, o jeito seco e duro, as palavras ácidas sempre na ponta da língua, aliás como o próprio Paulo Honório de São Bernardo. Um intelectual incansável, praticamente desenvolveu uma forma de escrever, provinda de seu autodidatismo, onde a economia das palavras são fundamentais para tudo se dizer. Na excelente biografia “O velho Graça”, de Dênis de Morais, e que li há uns 4 anos, Graciliano teve de exolicar à Ditadura sua ligação com o Partido Comunismo, apesar de o escritor nunca ter sido militante. Com isso veio a prisão política, fartamente e belamente narrada em “Memórias do Cárcere”, outro livro de Graciliano que li.

Mas minha obra preferida do autor é Vidas Secas, pequenininho e devastador, que não me farto de periodicamente reler. A história curta de uma família de retirantes, que vivem as mazelas próprias advindas das secas castigantes. Ali, Graciliano se agiganta, sua literatura absurdamente bela emerge como uma das vozes mais importantes da Geração de 45, um seleto grupo de escritores entre os quais figuram José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Ariano Suassuna e João Cabral de Melo Neto.

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Título: Canção de ninar 

Título original: Chanson douce

Autor: Leila Slimani (França)

Tradução: Sandro M. Stroparo

Editora: tusquetseditores

Ano de lançamento: 2016

Ano desta edição: 2018

Páginas: 192

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️

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“O destino é perverso como um réptil, ele sempre dá um jeito de empurrar a gente pro lado ruim do caminho” (Posição no Kindle 1062/47%).

“Quem cuida de seus filhos quando você não está olhando”? Essa frase, capaz de imprimir reações nada boas, permeia a história contida nas páginas desse livro perturbador.

De cara, ficamos sabendo que duas crianças são mortas pela babá. Chocante a forma, dita em frases curtas e diretas. Então, resta ao leitor saber o que houve para que um crime brutal pudesse ter acontecido…

O livro alterna capítulos entre o ponto de vista de Myriam e Paul, pais de Mila e Adam, e a babá Louisie, que fora contratada, após longa seleção, pelo casal que tenciona voltar a trabalhar fora. Louise a princípio personifica o sonho da baby sitter perfeita: a super competente, que mantém casa e filhos em perfeita ordem. E é o que Louise faz: consegue dar conta de cuidar das crianças durante a ausência dos pais e ainda deixar a casa impecável, o que deixa os patrões satisfeitíssimos. Mas, como nada na vida é perfeito, a aparente singeleza de Louise esconde intenções e reações que inevitavelmente irão levar a babá a cometer o ato bárbaro que de cara abre o livro.

Quando nos deparamos com um horror assim logo nos perguntamos: ‘como ninguém suspeitou?’, ‘como ninguém viu os sinais?’. As informações estão todas na narrativa, mas ao leitor o exercício de tirar suas próprias conclusões.

Este é, certamente, um daqueles thriller psicológico bem construídos e excepcionalmente escritos. A autora, a franco-marroquina Leila Slimani, ganhou o Prêmio Goncourt de 2016 com esse livro, merecidamente, diga-se de passagem…

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Título: Se um viajante numa noite de inverno 

Título original: Se una notte d’inverno un viaggiatore

Autor: Ítalo Calvino (Ita)

Tradução: Nilson Moulin

Editora: @companhiadasletras

Ano de lançamento: 1979

Ano desta edição: 2003

Páginas: 280

Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️

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O personagem principal, chamado Leitor, compra um romance intitulado “Se um viajante numa noite de inverno” e, já preso pela narrativa, percebe que há um erro de impressão: falta exatamente a página 33 do volume! Indignado e frustrado, ele volta à livraria a fim de trocar o livro defeituoso por uma edição completa. Lá conhece Ludmilla, uma leitora voraz, que coincidentemente está com o mesmo problema que o seu e também retornou à livraria para trocar o livro com defeito.

Eles recebem livros novos mas estranhamente os livros recém trocados não correspondem ao volume que compraram originalmente. Acontece que, uma vez mais entranhados na nova história, percebem que este livro também está incompleto e é tamanha a frustração de ambos que iniciam uma verdadeira epopéia em busca de livros cada vez incompletos, misturando narrativas fantásticas e enredos cíclicos.

O livro de Calvino traz, de forma criativa e inteligente, a dramática busca pelo prazer de ler um bom livro. Isso acontece num processo circular onde histórias são sobrepostas umas às outras formando um círculo vicioso cujo livro abruptamente interrompido é encadeado a outro. Mistura desde as descrições técnicas utilizadas para a composição dos cadernos que posteriormente formarão o livro, bem como todas as possibilidades de erro que o processo pode ter. Sem falar que, a cada novo livro descoberto pela dupla (Leitor e Ludmilla), somos imersos numa trama de conspirações revolucionárias, autores disfarçados e estranhos títulos que sequer existem, tudo contribuindo para gerar o ambiente propício buscado por dois leitores que se ligam ao perceberem que leram e gostaram do mesmo livro.

Calvino muito me impressionou com este livro, minha estreia em suas letras. E fiquei satisfeito em descobrir tantos títulos seus, a maioria verdadeiros instrumentos de incentivo ao amor à leitura. Vale e muito!

charlles campos

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