Feeds:
Posts
Comentários

O impostor

impostor1

Pablo nunca existiu. Não o Pablo completado, o profundo amante de letras, a cuja biblioteca portentosa e caótica jamais soube cativar sua verdadeira sabedoria. Não o Pablo poético, aquele que tão facilmente se deixava embevecer pela profusão colorida e brilhante dos dias vividos e vindouros, o mesmo homem capaz de absorver toda a beleza pululante das flores, do canto dos pássaros, da mínima palavra do seu amor, que soube ser capaz de ouvir as canções do coração, melodia imarcescível capaz de salvar da solidão até mesmo ele, agora se foi.

Pablo, certamente, nunca existiu. Aquele que costumeiramente caminhava, noite alta, por ruas vazias, envolvidas pela madrugada chuvosa, a fímbria de um sorriso pela promessa de um amanhã marcado pela concreta certeza de que o sonho não se tornara uma perdida ilusão. O mesmo que havia dado as costas ao contínuo barco que teimava em carregá-lo incessantemente rumo ao passado, os temerosos dias que jazem perdidos nos mais antigos anos.

Esse Pablo, deveras nunca existiu. O mesmo Pablo que era capaz de tirar arte da desilusão, que buscava transformar em acordes a fúria sonora da dor, que transcendia o caos interior, que sentia prazer em ser bom e humano. Não, esse Pablo nunca existiu.

Antes, um impostor está em seu lugar. Talvez a fala e as feições sejam semelhantes às suas, mas não há brilho em seus olhos, não há paixão em suas mãos, não há sonhos em suas palavras, não há luz na treva real em que fora abocanhado. O impostor se utiliza de um falso espelho onde pode manipular a imagem e semelhança, o que outros olhos veem, se aproveita das ilusões literárias para esconder o vazio existente dentro de si mesmo, é contumaz em dissimular atitudes e momentos, é mestre em continuar sendo ao invés de existir.

O impostor que se diz Pablo jamais pode escrever um verso perfeito, jamais soube exteriorizar a beleza porque esta não pode existir sem que nela esteja a certeza. O impostor não pode ser Pablo, embora Pablo se diga ser o que é. Se pudesse se ver e não somente se olhar, certamente entenderia a impossibilidade da existência, de que o mundo não pode acolhê-lo, de que tudo o que faz e produz carece de existência.

O impostor existe porque a inexistência de Pablo é real. O impostor se reflete porque Pablo foi tragado pelo ódio que o impostor nutre por si mesmo. E se continua a existir é porque não há claridade suficientemente capaz de esmaecer essa busca contínua pela derrocada rumo a páginas sombrias e poesias insensíveis. Por isso mesmo Pablo é irreal e o impostor existe. Por que em algum momento da história Pablo deixou cair algo, deixou que uma parte de si mesmo se desvencilhasse, animal arredio que voluntariamente se emancipou da possibilidade do belo, vislumbrado por Pablo, parte de si mesmo, pedaço do todo que agora se tornara o impostor.

Pablo, o doce Pablo, o Pablo escritor, a cujos livros, à semelhança das ilusões perdidas, não existem senão na quimérica estante onde pode ver as lombadas repletas de palavras extraídas de si próprio. O Pablo a cujas cartas estão embargadas do perfume do coração, a cujas mãos teriam construído sinceras melodias, a cujos olhos poderiam aquecer a mais fria noite, deixou de existir. Esse ser humano extraordinário, a cujas potencialidades foram louvor de muitos, a cujos sonhos seriam fortes o bastante para fustigar o mais sombrio dos medos, outro e não ele se materializou, deixou que o impostor se tornasse real.

Pablo deixou de existir. Falhou a vida, falhou a promessa de ser Pablo. Pablo agora é o impostor, e por isso mesmo Pablo nunca mais existirá.

Anúncios

A18D2646-61AF-4A1E-89FB-26EB828F02AF
Título: A resistência
Autor: Julian Fuks (BRA)
Editora: @companhiadasletras
Ano desta edição: 2015
Páginas: 144
Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️
______________________________________________
tenho tido maravilhosos encontros nas letras brasileiras. foi assim com marcelo maluf, michel laub, heloísa seixas, cristóvão tezza e o grande escritor joão anzanello carrascoza. de todos esses escritores brasileiros citados eu pude ler livros soberbos e intensos como foi o caso de “o filho eterno”, do tezza e o magistral “aos 7 e aos 40”, do carrascoza, que me deixou emocionalmente despedaçado e à beiras de lágrimas.

me propus, nesse novembro corrido, a ler outros brasileiros em evidência literária. pretendo ler “simpatia pelo demônio”, do bernardo carvalho e algum do daniel galera (aceito sugestões por onde começar a ler galera, por favor!), que tenho certeza, também não decepcionarão. as constantes menções e corriqueiras premiações a que nossos autores contemporâneos têm logrado provam isso e o que é muito bom para um país que tem machado de assis como baluarte literário da gloriosa biblioteca, como diria susan sontag.
.
dessa vez acabo de ler o magnífico “a resistência”, de julian fuks, romance ganhador do prêmio josé saramago deste ano e do o jabuti do ano passado. julian fuks, apesar da pouca idade, traz um romance devastador, intenso, a reconstrução memorialísticos de sebastian dos seus dias meninos nos rincões da república argentina e a eventual ida da sua família para o brasil. a resistência mistura poesia em prosa, junta pedaços do passado revolucionário argentino e tenta mitigar essa espécie de dívida para com o irmão adotado, cujo quarto vazio leva sebastian a formalizar um auto-retrato de si mesmo e de um tempo onde era necessário resistir para sobreviver. o próprio título do livro remete a uma poética simbiose onde resistir pode perfeitamente estar ligado aos fragmentos meninos dos irmãos cuja convivência complexa é o cerne dessa releitura e à corajosa atitude dos pais intelectuais diante os dias turbulentos a que foram veementemente contrários mas onde puderam ver nascer seus rebentos. livro maravilhoso, que inevitavelmente me remeteu ao meu bom e velho carrascoza…

13ACF3F7-D15D-47B4-8967-E38A21ECE09B
Título: Nada como ter amigos influentes
Título original: Friends in high places
Autor: Donna Leon (EUA)
Tradução: Carlos Eugênio Marcondes de Moura
Editora: @companhiadasletras
Ano de lançamento: 2001
Ano desta edição: 2017
Páginas: 264
Classificação: ⭐️⭐️⭐️
______________________________________________
da escritora americana de romances policiais radicada em veneza, donna leon, eu já tinha lido o bom “morte no teatro la fenice”, onde pude conhecer o comissário guido brunetti, o protagonista de uma longa série de livros.

neste “nada como ter amigos influentes” encontramos brunetti investigando o assassinato de franco rossi, uma espécie de fiscal de edificações do “ufficio catasto”, que fora encontrado morto após supostamente cair de um prédio que fiscalizava. para tornar ainda mais complexa a trama, outros dois corpos são encontrados no mesmo prédio onde rossi foi encontrado morto, o que leva brunetti a uma lista de suspeitos no mínimo inusitados.

brunetti, com seus métodos e manias, próprios de policiais investigativos (rio comigo mesmo ao recordar das muitas manias do detetive particular cormoran strike, o maravilhoso personagem britânico da genial série de robert galbraith-j.k.rowlling) vai apresentando ao leitor uma veneza incomum, muito diferente das típicas belezas naturais. antes, a pena habilidosa de donna leon retrata uma veneza marcada pela corrupção dos órgãos públicos e pela igualmente nefasta agiotagem, a cujas garras muitos venezianos são aprisionadas.

aqui brunetti está mais parecido com o estereótipo do policial, que não receia fazer uso de uma profusa rede de contatos (os amigos influentes, a que o título faz menção) e com essas “ajudinha” ele consegue a um só tempo resolver os assassinatos a que está empenhado em solucionar. gostei bastante!

E1B917ED-E1DA-43E4-9276-729D09855245
Título: Zero K
Título original: Zero K
Autor: Don Delillo (EUA)
Editora: @companhiadasletras
Ano de lançamento: 2016
Páginas 272
Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️
_________________________________________________
tomei conhecimento da obra de don delillo através de uma entrevista de philip roth onde ele citava alguns autores contemporâneos que mereciam ser lidos. Além de delillo, roth citara joyce carol oates, de quem li “as cataratas”, um romance perturbadamente psicológico e intricado por dramas de pessoas comuns.

à época também li “ruído branco” o aclamado romance de delillo que lhe angariara o american book award de 1985, cujas páginas contam a história de um professor universitário que vive numa cidade do interior evacuada por um acidente industrial.

em zero k delillo atinge um ápice literário magistral. antevendo um futuro ainda incerto e sem nitidez, o autor concebe a história de Jeffrey Lockhart, que, a convite do pai, viaja para um lugar remoto onde são desenvolvidas técnicas de criogenia voltadas para a conservação do corpo humano. diante de tantas perguntas, horrores e anseios, jeffrey vai nos apresentando o ambiente do projeto convergência, cujo pai é um dos criadores.

mas ele não está ali por acaso: na verdade vai presenciar a “morte” da sua madrasta artis, cujo corpo será conservado numa cápsula e “ressuscitado” num futuro remoto…

delillo traz através desse romance, antigos debates sobre o estudo da imortalidade humana, sobre o sentido do existir, a latência existencial do corpo ao ser “desligado” é posto para hibernar em cápsulas cujas temperaturas chegam à marca do “zero k”.

o romance, páginas não muito fáceis de ler, mistura ambivalências existenciais, o próprio medo do futuro calamitoso marcado por guerras e pestilências cada vez mais intensas e a busca por respostas ante à discrepante concepção de uma eterna existência num mundo cada vez mais fragilizado.

delillo está mais atual do que nunca. obrigado, roth!

79B1B2A6-F4F0-4563-AB80-A13048F87343
Título: Origem
Título original: Origin
Autor: Dan Brown (EUA)
Editora: Editora Arqueiro
Ano de lançamento: 2017
Páginas 432
Classificação: ⭐️⭐️⭐️
_________________________________________________
Este é o quinto livro da assim chamada Série Robert Langdon. Logo podemos esperar que um grande acontecimento envolvendo ciência e religião obrigue o famoso professor e simbologista de Harvard a uma corrida contra o tempo (mais exatamente 24hs) para impedir/ajudar/desvendar algum fato que ponha em risco os alicerces da Humanidade. Coloque aí como ingrediente adicional uma bela e inteligente mulher, uma relevante cidade com cultura e beleza próprios, e alguma teoria da conspiração. Voilà!

Foi esta a fórmula – reiteradamente – utilizada pelo escritor americano Dan Brown com seus livros mais famosos, “O código Da Vinci”, “Anjos e demônios” e o último até então, “Inferno”, aventura de Langdon passada em Florença e Istambul.

Se há previsibilidade nos enredos de Brown, qual sentido em lê-lo, principalmente após quatro livros com temáticas centrais semelhantes?

Confesso que me fiz esta pergunta quando peguei “Origem”, o mais novo livro de Dan Brown. Como disse acima, os mesmo detalhes estão ali presentes: Langdon tem 24 horas para descobrir o motivo do assassinato de um ex-aluno seu, um famoso cientista, especialista em “futurologia”, e que é morto em Bilbao, na Espanha, quando apresentava uma teoria que poria todas as religiões no saco. Langdon corre perigo porque é acusado de estar envolvido tanto na trama que levou à morte de Edmond quanto ter sequestrado a noiva do futuro rei da Espanha…

Origem não é um livro ruim. Nas suas quase 500 páginas, Brown trata de temas bastante complexos, como a utilidade da fé, o desenvolvimento de inteligências sintéticas e a resposta às milenares perguntas sobre a origem do ser humano e o seu futuro. Misturando arte, ciência e uma gama de ambientes e pontos turísticos de Bilbao e Barcelona, Brown, apesar da fórmula já um tanto batida, talvez tenha conseguido um tipo de “ápice” para a série, como se, ao tratar de origem e fim do homem, ele buscasse ele mesmo se “reinventar”. Esperemos os próximos capítulos.

D9B5039F-D476-4E8A-BE6B-DCF90D43ABCF
Título: Acontecimentos na irrealidade imediata
Título original: Întâmplari în irealitate imediata
Autor: Max Blecher (Romênia)
Tradutor:Fernando Klabin
Editora: Cosac Naify
Ano de lançamento: 1936
Ano desta edição: 2013
Páginas: 192
Classificação: ⭐️⭐️⭐️
_________________________________________________
O escritor romeno Max Blecher, morto precocemente aos 29 anos, conseguiu, apesar de sua curta carreira literária, produzir boa literatura.

Dono de um estilo que se assemelha a Kafka e Walser, Blecher traz nesse seu “Acontecimentos na irrealidade imediata” os dramas de um adolescente no começo de suas iniciações amorosas e eróticas mas que vive às voltas com instabilidades emocionais.

Narrado em primeira pessoa, nosso conturbado personagem vai tecendo suas memórias, suas aflições, seus medos e incertezas, tudo com uma muitas vezes exagerada emotividade que ora o leva a pensar no sentido de sua própria existência.

Um livro curto, mas de uma força narrativa intensa, corroborado pela belíssima edição (interessante a sensação trazida ao tato pela textura das palavras em alto relevo da capa e contracapa) da – Deus a tenha – finada Cosac Naify. Vale, e muito!

FFA06356-2783-47DD-9882-9C4B664D52F4

Título: O deserto dos tártaros

Título original: Il deserto dei tartari
Autor: Dino Buzzati (Itália)
Tradutor: Aurora Fornoni e Homero Freitas de Andrade
Editora: Nova Fronteira
Ano de lançamento: 1940
Ano desta edição: 2015
Páginas: 176
Classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️
_________________________________________________
2017 tem sido um ano de excelentes leituras: quase que numa sequência — longa, eu venho experimentando o melhor que a literatura pode legar!

Desta vez foi com este super clássico dos anos 1940, O Deserto dos Tártaros, romance meio épico, meio filosofal, cuja história gira em torno da designação de Giovanni Drogo, oficial recém formado, a servir no desconhecido e inóspito Forte Bastiani.

Chegando ali e com o passar dos dias, Drogo vai percebendo e refletindo sobre a inutilidade daquele lugar, cuja espera por um improvável ataque o faz meditar que sua vida ali vai se perder. Drogo espera que tão logo possível possa ser transferido para outro destacamento, mas quando menos percebe, os anos já foram se acumulando e ele, agora uma velha parte inegável do forte, perde a capacidade de se adaptar ao ritmo da cidade.

À medida que ia avançando nas páginas, fui me perguntando como e porque um livro com uma história tão simplória se tornou um clássico, dúvida mitigada à medida que a história ia se desenrolando, quando as reflexões mais profundas de Drogo atingem em cheio o leitor.

O deserto dos Tártaros é um livro soberbo, sem dúvida e lindo mesmo. As desilusões de Drogo nas duas fases do livro, quando quer ir embora e quando, mesmo doente quer lutar a guerra que por uma vida inteira esperou, juntamente com as descrições poéticas dos entornos do forte Bastiani são o ponto forte do livro, e Buzzati se mostra um escritor extraordinário. Mais um clássico que em nada fica a dever.

charlles campos

Impressões literárias e fotogênicas

r.izze.nhas

Resenhas e aleatoriedades literárias

Mundo de K

Impressões literárias e fotogênicas

livros que eu li

Impressões literárias e fotogênicas

%d blogueiros gostam disto: