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Leitura 09/2021

O imitador de homens [1980]

Orig. Mockingbird

Walter Tevis (1928-1984)

Rádio Londres, 2019, 288p

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“Durante anos a fio, ele achara que, se conseguisse encontrar uma mulher como aquela e viver com ela, encontraria a chave da outra vida vivenciada por sua consciência — a vida daquele cujo cérebro havia sido copiado para criar o seu. E agora ele estava fazendo isso. Mas não encontrara a chave” (Posição Kindle 2327).

“Todos aqueles livros — até mesmo os entediantes e quase incompreensíveis — me fizeram entender mais claramente o que significa ser um homem” (Posição Kindle 3948).

Se você assistiu (ou leu) O gambito da rainha, a saga da jovem enxadrista Beth rumo ao topo, então você deve ser saber que seu autor, o escritor americano Walter Tevis, gosta de produzir literatura distópico com pitadas de ficção científica.

O ótimo “O imitador de homens”, escrito nos anos 80, conta, a três vozes distintas, um mundo onde coisas como laços humanos, leitura de livros e valores foram esquecidos e substituídos por hábitos robotizados (em parte fomentado pela grande quantidade de robôs) e uso desenfreado de psicotrópicos.

Sendo espécie de distopia passada nos anos 2400, o livro uma sociedade decadente onde humanos viciados em drogas, inférteis e cada vez em menor número são quase que dominados por máquinas que, de certa maneira, foram criados para servi-los. É nessa atmosfera de desengano e solidão que o autor traça uma busca pela essência humana, esquecida há tanto tempo, e ansiada pelo robô narrador Spofforth, um estranho e único exemplar “tipo Nove” (os robôs são classificados de 1 a 9, conforme o grau de inteligência) que busca a chave que o diferencia dos humanos. As digressões são intensamente permeadas de dúvidas, as lembranças recorrentemente trazidas por sonhos turbulentos, de humanos que precisam reencontrar sua identidade perdida no tempo e de máquinas que anseiam por aquilo que nem sempre temos valorizado enquanto humanos.

Tevis poderia ter aprofundado mais isso no livro, sobretudo a visão de Spofforth e de suas pretenções, mas ainda assim é uma obra que vale ser lida.

Leitura 08/2021

O mundo da escrita [2017]

Orig. The Written World

Martin Puchner (Alemanha, 1969-)

Companhia das Letras, 2019, 488p

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“A característica mais marcante da literatura sempre foi sua capacidade de projetar o discurso no espaço e no tempo” (Pág. Kindle 376).

Martin Puchner se propôs, nesse livro, um projeto ambicioso, ainda que não foi sua a primazia para tal: reconstruir in loco alguns dos principais episódios da história, cruciais para impulsionar e desenvolver a literatura como a conhecemos. Foi a lugares onde escrita, papel e impressora foram produzidos, leu vários dos livros tidos como representantes da cultura local, analisou documentos, viu preciosíssimas primeiras edições de alguns livros consagrados, conversou com ganhadores do Nobel Prize de literatura…

É um sortudo: pode fruir o que muito amante de livros gostaria de fazer também, ainda que em menor escala! Para mim, que milito a tanto tempo na infindável e eterna caminhada pelos livros, ter feito tantas coisas como Puchner fez, seria algo inestimável, tamanho o assombro que naturalmente nutro pela história das coisas.

O livro de Puchner é mais um compêndio histórico sobre o desenvolvimento da escrita e de como esta pode transformar o mundo do que um tratado sobre literatura e da literatura. E isso certamente torna esta leitura — sem dúvida uma das melhores que já fiz em livros do segmento — uma festa. O autor, que viajou ao berço nascedouro das principais obras literárias no mundo, vagueia abordando desde a codificação dos alfabetos mais rudimentares encontrados até às epopeicas obras de Homero, de “As mil e uma noites” até os contos da escritora japonesa Murasaki, das manifestações literárias da África Central até uma pequena e obscura ilha caribenha detentora de um ganhador do Nobel de literatura. É notável o apanhado que o autor faz sobre o difícil ofício dos copistas e escribas, da invenção do papel, da invenção e desenvolvimento dos processos de impressão, iniciados mais ou menos na Alemanha de Lutero e a forte repressão russa sobre os escritores da época, buscando seguir o caminho inverso, “pré-Gutemberg”, impedindo escritores como a poetisa Ana Akmátova e o escritor Soljenítsin de terem seus relatos do Gulag conhecidos pelo mundo.

Como disse, o livro em si tenciona catalogar o lento caminhar da literatura, seu poder de transformação (ainda em movimento) e as perspectivas quanto ao futuro da leitura. Sendo uma espécie de “Sapiens” ou “Homo Deus”, creio que o livro agradará a leitores que, como eu, buscam refúgio na literatura e a tem como um dos mais preciosos legados da raça humana. Vale!

Book 07/2021

Duelo [2017]

Eduardo Halfon (Guatemala, 1971-)

Libros del Asteroide, 2017, 106p

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“Seguí caminando hacia delante, entrando en la estela del cayuco, y entrando aún más, y hundiéndome un poco más, y pesando todo el tiempo en los niños que en esas mismas aguas habían dejado su vida, en los niños que habían entrado al lago y bajado hasta el fondo y permanecido ahí para siempre, en los niños que eran ya hijos de nadie y hermanos de nadie, en los niños cuyas sombras de niño caminaban ahora conmigo, todos ellos juntos, y todos ellos reyes del lago, y todos llamados Salomón” (pág 105).

Duelo (Luto) é um livro curto em espanhol, mas que se lê de uma sentada, lavra do escritor guatemalteco Eduardo Halfon, que me foi indicado pela querida Márcia, minha querida amiga remota em terras germânicas. São, na verdade, pequenos textos, minúsculas partículas da memória do narrador, que se empenha em reconstruir o trágico acidente que ceifou a vida de seu tio Salomão. A única evidência de sua existência é uma antiga foto que ele encontra no sótão do avô, e a lembrança de que alguém, algum dia, lhe contou sobre sua prematura morte.

Já adulto, o narrador vai atrás da história completa, e acaba descobrindo (ou relembrando) a história da família e do local onde o tio teria morrido. Duelo é um livro exatamente sobre isso, o luto, sobre lidar com a perda, sob diferentes óticas e contextos. Os avós do narrador perderam parentes queridos durante a Segunda Guerra Mundial, e depois perderam o filho primogênito, assim como as famílias de todas as crianças afogadas tiveram de lidar com a morte de seus filhos. Sem entregar reflexões baratas ou forçadas de como se lidar com a perda, com o luto, Halfon envolve o leitor numa prosa sem grandes volteios, onde a profundidade só se faz perceber nas entrelinhas, nas situações pelas quais os personagens tiveram ou tem de passar.

Uma cena particularmente tocante é a visita que o narrador faz ao campo de concentração de Sachsenhausen: ao lado dos galpões onde tantos perderam a vida, ele vê, do outro lado da rua, uma criança brincando, uma mulher aparando seu roseiral e um casal que troca carícias apaixonadas. É uma cena pungente, como se o autor quisesse mostrar que no mais árido solo (aquele que foi palco de tantas mortes) é possível florescer a mais tocante beleza. Duelo é assim, simples, direto, uma prosa que envolve, que fala da memória, da saudade e da ressignificação da vida. Vale!

Leitura 06/2021

A criança no tempo [1987]

Orig. The child in time

Ian McEwan (Ing, 1948-)

Companhia das Letras, 2018, 288p

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“Kate tinha se transformado na própria essência do tempo. Seu crescimento espectral, o produto de uma tristeza obsessiva, era não apenas inevitável — nada era capaz de fazer parar o relógio fibroso — mas necessário. Sem a fantasia de sua continuada existência, ele estava perdido, o tempo pararia. Era pai de uma criança invisível” (Posição Kindle 41).

“E foi então, com três anos de atraso, que por fim começaram a chorar juntos pela criança perdida, insubstituível, que eles não veriam crescer, cujo olhar e movimentos característicos jamais poderiam ser dissipados pelo tempo” (Posição Kindle 3639).

Apesar de ter lido anteriormente vários romances do escritor britânico Ian Mcewan, dentre eles Jardim de Cimento, Enclausurado, Reparação, Na Praia e Amor sem Fim, eu nada sabia desse livro “A criança no tempo” (me assustei em saber que é um romance dos final dos anos 80, pois julgava ser um dos últimos lançamentos do autor!) e muito menos de que há um filme baseado no livro (que assistirei em breve!).

O livro fala da dor da perda. Um pai que, num dia singelo de ida ao supermercado junto com a filha, num lapso percebe que ela não está mais ao seu lado. Stephen, o pai, desesperado, vasculha todos os cantos do estabelecimento, logo sendo ajudado por funcionários e outros clientes que ali estão, em busca da pequena Kate. O desespero dele aumenta à medida que as horas se passam, quando ele terá de voltar para casa e terá de contar para a esposa do desaparecimento da filha…

Mcewan, em sua usual maneira de explorar os limites do suspense, do drama, constrói um delicado livro sobre a tragédia e como as feridas deixadas levam as pessoas ao fundo do poço. Ali, onde se juntam demônios e uma fímbria de luz, o sentido de existir toma nova ressignificação, quando se apresenta a possibilidade de se manter imerso pela dor, pelo desencanto e pela desesperança ou aguardar que a própria vida apresente novas flores pelo caminho destroçado.

O livro também zapeia por outros temas, como o de um controverso comitê que estuda a melhor forma de educar e proteger as crianças, mostrando que, apesar de um livro escrito há mais de 30 anos, sua temática é sombriamente atual.

O que mais me atrai aos romances de Mcewan é a sensibilidade, a honestidade, o senso magistral e poético que ele tem de tornar tantas coisas humanas em palavras, como se absorvendo para o papel, para a frase escrita, o caldeirão pululante de emoções vívidas. A trágica história em “A criança no tempo” é a história da esperança, ainda que no finzinho do túnel e de como o tempo, impiedoso e intransigente como um cossaco russo, pode pregar boas peças na vida da gente.

Leitura 05/2021

Eu tenho sérios poemas mentais

Pedro Salomão (BRA, 1994-)

Outro Planeta, 2018, 202p.

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“Respira.

Porque tem uma flor em cada esquina

E os seus problemas vão passar pela manhã” (pág Kindle 182).

(…) Se deixe fluir.

Se derrame feito água.

O vento viaja o mundo e nunca se quebra” (pág Kindle 184).

Já faz bem um par de anos que não leio poesia. Era quando eu me deleitava nas métricas de Vinicius de Morais, pensando em como ele vitrificou em versos sentimentos tão vívidos, palpáveis, palatáveis. Nunca deveria ter parado. Ledo engano meu.

Como de costume, quase todas as noites, antes de dormir, vasculho no meu Kindle (gosto de ler no escuro, sob a tênue luz do aparelho) algo para ler até dar sono. O livro do poeta Pedro Salomão saltou-me aos olhos logo pelo título musical: “Eu tenho sérios poemas mentais”! Então fui lendo, lendo e rapidamente devorei as quase duzentas páginas de curtas poesias e reflexões, que versam sobre o ato de viver. A economia de palavras não economiza em nada na emoção. O escritor fala da singeleza das coisas e aquilo me tocou tanto, no tanto que pensei o quanto precisava de algum tipo de purificação, literária e também da vida. “Pedir desculpa é tomar um copo de leite para tirar o gosto amargo da alma”, diz o jovem poeta. Coisas assim mostram que nem sempre valioso é o estofo das coisas, que mais válida está a simplicidade, a fluidez, a límpida emoção, clareada pelo fluir da vida, apartada da poluição emocional que tanto nos prende e nos tolhe. Eu aprendi navegando por estes belos versos que, sim, devemos fluir na vida como a água, que não se abate nem mesmo ante o maior dos obstáculos. Vale!

Leitura 04/2021 – #lista1001✅

Os mares do sul [1979]

Orig. Los mares del sur

Manuel Vázquez Montalbán (Espanha, 1939-2003)

Cia das Letras, 1998, 247p.

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“Esse autor era ele mesmo. Incapaz de inventar sua própria linguagem, ele mesmo havia se convertido em linguagem. Vivia o romance que não podia escrever ou o filme que não podia dirigir. Era necessária muita capacidade de desprezo para aguentar noites e noites essa solidão anônima, uma solidão de amnésico. Como um homem pode falsificar seu papel só para si mesmo, sem a possibilidade comunicar-se?” (Pág 148/149).

“Existem coisas que são contra a natureza. Tentar fugir da própria idade, da própria condição social leva à tragédia” (Pág 236).

E pensar que eu havia lido um livro do escritor catalão Manuel Vázquez Montalbán no já distante setembro de 2018, me surpreendo que após me deleitar por aquelas páginas em espanhol de “Tatuaje”, que li com assombro, eu havia me prometido ler outras cousas desse mestre do romance policial! Paciência.

Desta vez, acabo o excelente “Os mares do sul”, um romance policial interessantíssimo que mistura a Barcelona pós-Franco, as cores do cinema noir hollywoodiano e as várias e divertidas manias de Pepe Carvalho (rio cá comigo imaginando-o queimando livros noite após noite para acender sua lareira, quase um crime!), o detetive que Montalbán tão bem desenhou para nós leitores e que faz parte da imensa lista de 1001 livros essenciais para ler antes de morrer, um projeto que vou transpondo pouco a pouco enquanto não me falte vista ou paciência.

Nesta novela, Carvalho é incumbido de investigar um crime envolvendo um figurão da indústria da construção civil, encontrado morto a facadas num galpão abandonado num bairro decrépito barcelonês. Suspeitos não há, somente um trecho enigmático de um poema de Salvatore Quasímodo. É claro, sabemos todos que temos alguma bagagem de leituras, que, em sua maioria, nos livros policiais o crime será desvendado, o culpado será ou não alcançado pela justiça, haverá ou não vingança e o herói tenha um galardão a mais em seu currículo.

Mas Pepe é um fenômeno. Um paladar que se esmera em fruir os bons repastos que lhe servem. Um garanhão a cuja cama nunca vazia mostra sua nunca satisfeita necessidade de esquecer das mazelas, das sujeiras que a sociedade para a qual é contratado, nunca findam. Um iconoclasta da boa literatura, acostumado a torrar seus livros vez após vez na lareira da solitária casa de Vallvidrera. Carvalho tem um estilo que chama atenção, em nada me faz lembrar do Guido Brunetti de Donna Leon (não exatamente um detetive, mas um policial veneziano) e nem o Cormoran Strike de Galbraith, o grandalhão perneta inglês que mantém seu amor fiel à sua assistente.

Antes, Carvalho tem uma caída para o sarcasmo, insights singulares e iluminados sob um véu de um humor negro e incrédulo. É um personagem fascinante, bem escrito, inserido num momento político frágil que todos sabemos, deixou profundas marcas no povo catalão. O próprio Montalbán, enquanto jornalista, foi ávido participante do processo de reconstrução política, então, era natural que conhecesse a fundo os mecanismos sociais, as cores da cidade por onde trilha seu Carvalho, enfunado profundamente no desgosto e asco que lhe dá tudo aquilo. Enquanto terminava o livro, me chega pelo correio outro caso Carvalho, desta vez o “Quinteto de Buenos Aires”, mais um da longa série Pepe Carvalho. Tomara que o livro me escolha logo!

Leitura 03/2021 – #lista1001✅

A pianista [1983]

Orig. Die Klavierspielerin

Elfriede Jelinek (Áustria, 1946-)

Tordesilhas, 2011, 336 p.

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“Juntos, os dois estão colados um ao outro como dois insetos gêmeos em um casulo. As capas de ambição, ambição, ambição e ambição deles, delicadas como teias de aranha, pairam sem peso, frágeis, sobre os esqueletos dos desejos corporais e dos sonhos. São somente esses desejos que, no final das contas, tornam um real para o outro. É somente por meio desse desejo de penetrar e de ser penetrada que eles se tornam as pessoas Klemmer e Kohut” (Posição Kindle 2505/56%).

Uma única palavra: “A pianista” é impressionante! Digo isso após passar os últimos dias entranhado e embasbacado pela história crua, dura e muitas vezes repugnante de Erika Kohut, uma professora tirânica de piano de meia idade, relegada para sempre ao submundo da música. Logo no início do livro fiquei um tanto desconcertado com tamanha rudeza com que Erika cobra de seus alunos: apesar de fazê-los ensaiar as peças reiteradamente, nunca os deixa pensar que poderão operar as teclas do instrumento com a perfeição delineada pela professora despótica.

Mas, como tudo na série “A” da literatura gloriosa, todo esse arcabouço de frieza e pedantismo, Erika esconde suas mazelas emocionais, uma mulher devastada pelo controle extremo de uma mãe neurótica, a cujo temperamento cruel, maldoso, implacável, a levam a dividir seu tempo (noturno) a praticar o voyeurismo e a auto-mutilação. Para completar essa canhestra dupla formada por Erika e sua mãe, surge Walter Klemmer, um de seus mais pródigos alunos de piano. O rapaz passa a tentar seduzir sua professora, muito mais velha que ele. Erika, ao perceber os intentos do rapaz, responde com tamanha perversão que até meus muitos quilômetros de leitura ficaram abalados com tamanho disparate: páginas e páginas pululadas pelo desejo lascivo da professora que, uma vez empenhada e voltada para a descrição de seus desejos, submete Klemmer a um brutal ritual de humilhações.

Elfriede Jelinek, escritora austríaca ganhadora do Nobel de 2004, é uma romancista crua, dura, produtora de uma prosa ágil, delirante, direta, sem preâmbulos. “A pianista” é um retrato cáustico de uma realidade onde são confrontados os motivos, ou por escolha ou por submissão, a figura de autoridade é capaz de destruir o amor-próprio e fazer nascer toda uma constelação de memórias doentias postas em prática. A relação de poder da mãe para com Erika, algumas vezes incestuosa, quase sempre abusiva, a de Erika para com Klemmer, doentia, feroz, violenta, é este estranho triângulo retratado magistralmente por Jelinek, onde abundam atos que superam o limbo moral e afetivo, vindo a florescer, no lugar, a verdadeira face do ser humano e suas complexas relações sociais, sem ilusões, autoenganos, sem máscaras, tudo isso sujeito ao implacável juiz que há em todos nós e que nos impele ao cometimento do pior dos pecados, o de se perder. Que livro, minha gente!

Leitura 02/2021

Mecanismos internos [2007]

Orig. Inner workings – Literary Essays 2000-2005

J. M. Coetzee (South Africa, 1940-)

Cia das Letras, 2011, 360 p.

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“A função do escritor é agir de tal maneira que ninguém possa ignorar o mundo, nem dizer que não tem culpa do que está acontecendo” (Posição Kindle 4109/81%).

Quando “Desonra”, em novembro de 2016, tinha me prometido ler outras cousas do escritor sul-africano J. M. Coetzee. De lá para cá, juntei alguns romances seus, mas a minha teimosa preguiça e a ainda mais insolente e caótica maneira como vou dirimindo minha infindável lista de livros a ler, o projeto foi ficando esquecido. Aí de mim!

Então pego para ler o “Mecanismos internos”, uma coletânea de ensaios literários que Coetzee produziu entre os anos 2000 a 2005. Nela, estão reunidos 21 textos seus sobre vários autores e suas “manobras” criativas. Sempre que posso, gosto de buscar livros assim, que narram o processo criativo do escritor, que buscam desvendar o que há por trás de cada romance produzido.

No livro de Coetzee, apesar de os textos terem uma franqueza clara e simples, penso que seu teor vai agradar muito mais a especialistas do que um leitor comum. Mas é claro que é possível navegar neles sem muita dificuldade, principalmente por abordarem escritores que povoam minha estante e a memória de meu kindle, como Sándor Márai, Garcia Márquez e Philip Roth, a cujos ensaios mais gostei. Contudo, o livro é recheado de vários outros excelentes escritores e Coetzee mostra um bom estofo ao tratar com a devida atenção de algumas das obras mais importantes da literatura contemporânea, tais como os romances de Robert Musil, Robert Walser, Bruno Schulz, Beckett, Sebald, Bellow e Naipaul. Um tudo de tudo reunido num bom e honesto livro de ensaios.

Leitura 49/2020

A trama do casamento [2011]

Orig. The Marriage Plot

Jeffrey Eugenides (EUA, 1960-)

Cia das Letras, 2012, 440 p.

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“As pessoas jamais se apaixonariam se tivessem ouvido falar do amor” (Posição Kindle 15).

No início do ano, eu li “As virgens suicidas”, o excelentíssimo romance do escritor americano Jeffrey Eugenides, um livro que busca reconstruir a adolescência de cinco amigos que nutriram mutuamente uma paixão platônica por cinco garotas excêntricas vizinhas deles e que dão cabo de suas próprias vidas. A maestria do romance, eivada de planos temporais em círculo me impressionou bastante, ao pontos de me prometer buscar outras cousas do autor.

Findando as leituras deste ano tenebroso que foi 2020, concluo exatamente com outro romance de Eugenides, “A trama do casamento”. Confesso que o título por mim foi interpretado pelo viés romanesco que vez ou outra me acomete (ai de mim!), e imaginei que o romance se tratava justamente dos caminhos que levam duas pessoas a se convencerem de se casar. Mas – percebi depois, enquanto avançava pelas páginas, não é um roteiro comum assim que Eugenides opera: ele traça com primor os caminhos que DESUNEM os três personagens principais da trama, Madeleine, Leonard e Mitchel, uma estudiosa do romance vitoriano, um cientista que desenvolve um estudo sobre células haploides e um especialista em religião, a cujas vidas se entrelaçam e se repelem. Madeleine, casada abruptamente com Leonard, é devassada pela doença psicológica do marido, que é amada quase secretamente por Mitchel, que odeia Leonard. Mas o romance tem muito mais que apenas esse triângulo disforme formado por eles, e aconselho sua leitura vivamente.

Eugenides, como de costume, narra esse trio às avessas utilizando seu ponto forte que é entregar o fim, a consequência, para depois reconstruir as partes que levaram a tal acontecimento. Primoroso também é o auto grau de qualidade literária que Eugenides deu ao enriquecer o romance com ótimas referências da literatura vitoriana, da ciência e da religião (a parte em que Mitchel faz sua peregrinação pela Índia é sublime!), fazendo com que o leitor tenha em mãos mais que um mero romance, mas um verdadeiro mini-tratado enciclopédico. Vale, por me fazer terminar este ano dos diabos com um romance acima da média, um bom augúrio para o 2021 vindouro!

Éramos dois

Éramos inseparáveis na escola, Leandro e eu. Apesar de sua chegada repentina, numa manhã em que já ia avançado o ano letivo, nos demos bem de cara quando ele se instalara na carteira ao lado da minha. Uma amizade que nasceu e que, apesar daquele único ano, ainda carrego comigo mesmo passados tantos anos.

Um detalhe particular o distinguia dos demais garotos do colégio: Leandro era o único aluno da minha escola que tinha bigode, aquela robusta e prematura composição de pelos acima do lábio superior que de certa forma era motivo de inveja, minha e dos demais moleques.

Também nas meninas o Leandro angariara especial atenção: muitas foram as vezes em que, após as aulas, tive de esperar meu amigo trocar beijos com alguma moça na pracinha perto do colégio. Foi a primeira vez em que “segurei vela” para alguém. Enquanto Leandro se dava bem, eu seguia, esgueirando o canto dos olhos ao banco onde meu amigo experienciava as alegrias de namorar alguém. Enquanto, naquela época, eu seguia devaneando o beijo que daria na então musa dos meus sonhos ao som de “Al dilá”, a bela canção de Emílio Pericolli e que recordo, não me cansava de ouvir, o meu amigo já era versado na arte de namorar. Paciência.

Ambos, como era natural das grandes amizades, tínhamos os nossos pactos. Leandro, por aparentar ser mais velho e mais alto que eu, de certa forma me protegia da importunação dos garotos maiores. Eu, um aspirante a nerd, ajudava meu amigo nos seus tropeços em aritmética e na sua falta de tato com o português. Quase sempre dividíamos o mirrado lanche que um ou outro comprava no recreio, quando nos era dado por nossos pais alguns cobres. Como morávamos na mesma rua, nossas casas adelgaçadas pela distância de uns três quarteirões, era minha a incumbência de passar na sua casa a fim de irmos juntos ao colégio. Coisa de amigos.

E logo ele soube da menina que era alvo de meu coração. Por acaso, havia notado ela, procurando saber de mim, em sussurros para não chamar a atenção da professora, o nome e a possibilidade de conhecer Ivone, a ruiva de cabelos caudalosos e cheirosos, para quem havia escrito versos e com quem muitas vezes sonhara sonhos românticos onde sempre me declarava a ela. Leandro, ao saber de meus intentos (isso mesmo, intentos), de como eu vinha planejando uma oportunidade de poder falar do que por ela sentia, fiel ao sentimento do amigo, manteve a distância dela. Partiu para conquistar Simone, a melhor amiga de Ivone. Você pode bem intuir quem de nós dois, afinal, teve êxito…

Mas então o tempo passou. Vários capítulos de minha vida depois, eu vejo como a fortuna nos levou por caminhos distintos. Eu, rumo a este ofício de escritor barato; ele, uma incógnita para mim, que perdi totalmente seu contato e seu paradeiro com meu degredo a uma terra distante onde, enfim, plantei raiz.

Então só me resta me fiar da lembrança daqueles bons tempos, tempos mais vagarosos, onde as minhas únicas preocupações eram a escola e o indomável desejo de conquistar Ivone. Eu, como um Florentino Ariza canhestro, à moda do personagem pitoresco de “O amor nos tempos do cólega”, vivi os suspiros do amor não correspondido, quando vislumbrava a certa distância o ideário deste meu coração calejado cada vez mais de mim se afastar rumo aos braços de outro…

Diferente do solitário personagem de Garcia Márquez, que após 51 anos de espera pelo amor de sua amada Fermina, ainda se mantinha firme e fiel à única dona de seu coração, ao menos eu pude ter um amigo que, nas muitas horas de vazio, me fez ver o fio de esperança, lá para a frente, ainda que quase sempre tenha meu olhar voltado lá para trás, onde permanece intacto um eu bem mais feliz.

charlles campos

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