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Leitura 47/2020

Nascidos tempos líquidos [2017]

Orig. Nati Liquidi

Zygmunt Bauman (Polônia, 1925-2017)

Zahar, 2018, 96 p.

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Lição 1- Transformação na pele: Tatuagens, cirurgia plástica, hipster – “A cirurgia estética, sobretudo se reiterada, é a manifestação mais violenta e camuflada da tendência à automutilação, escondida sob a capa da medicina oficial. O indivíduo não aceita o próprio corpo tal como é, e paralelamente busca também um desafogo para a própria exigência de ‘autodestruição’ (Freud a denominou pulsão de morte). Através da máscara da medicina oficial, segundo essa tese, a pessoa pode satisfazer essas duas necessidades e ao mesmo tempo se sentir parte da cultura dominante, que quer criar uma forma de beleza segundo cânones preestabelecidos e identificados como os melhores” (Posição Kindle 138).

Lição 2- Transformações da agressividade: Bullying – “As principais características dos ritos de passagem se dão em três estágios. O primeiro é o período de separação do indivíduo em relação à comunidade. A esse segue-se o período de margem, no qual ocorre uma verdadeira suspensão de status social. No terceiro, é o estágio da agregação, aquele tecnicamente chamado de rito pós-liminar, porque o sujeito volta, para todos os efeitos, ao seu habitat como parte integrante e novamente conectada, mas com novas características individuais, que se tornam vivas quando relacionadas às sociais” (Posição Kindle 242).

Lição 3- Transformações sexuais e amorosas: derrocada do tabu na era do amor online – “O desejo é um impulso que destrói, ou melhor, um impulso de autodestruição. O amor, ao contrário, é o desejo de acudir ao objeto pelo qual se tem apego. Você definiu o amor como um impulso centrífugo, à diferença do desejo, que é centrípeto. Se o desejo quer consumir, o amor quer possuir. O amor é uma ameaça para o próprio objeto, e isso é um importante ponto em comum com o desejo. O desejo é autodestrutivo, mas a proteção que o amor tece em torno do objeto amado acaba por escravizar esse objeto. O amor detém seu prisioneiro e o vigia, prende-o para protegê-lo” (Posição Kindle 617).

“Nossa época líquida pede somente um requisito a nós nascidos em tempos líquidos: que seja-mos especialistas em flexibilidade” (Posição Kindle 702).

A primeira vez que li algo de Bauman, o maior estudioso da sociedade moderna, foi em 2009, quando praticamente devorei as páginas instigantes de “Vidas desperdiçadas”. Foi, me lembro bem, uma leitura avassaladora, que deixou ressabiado por dias, não só pela densidade do vigoroso pensamento do sociólogo polonês, mas principalmente por tocar em feridas que de certa forma, todos nós, consumidores e capitalistas por excelência, acabamos por gerar: uma multidão de pessoas descartadas, para o trabalho, para as relações, para a vida. Apesar de ter alguns outros volumes de Bauman comigo, estranhamente nunca me animei a lê-los, até pegar este pequeno livreto, uma reunião de emails entre Bauman e um jovem italiano. Uma explicação, talvez: a de que não é fácil enxergar ao espelho o que somos e porque o somos, fazemos com nosso semelhante.

Leitura 46/2020

Henderson, o rei da chuva [1959]

Orig. Henderson, the Rain King

Saul Bellow (Canadá, 1915-2005)

Companhia das Letras, 2010, 416 p.

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“Ser. Outros se deixam levar pelo vir a ser. As pessoas do ser desfrutam todas as pausas. As do vir a ser são muito infelizes, estão sempre agitadas. As pessoas do vir a ser estão sempre tendo que dar explicações ou oferecer justificativas às pessoas do ser” (pág 195).

Ninguém pode negar que a literatura tem na essência humana um de seus mais importantes nascedouros. Retratando as camadas da psiquê, ela é capaz de fazer frutificar o imaginário de tal forma palpável, como se estivéssemos tendo uma conversa com tal personagem, tamanha sua semelhança às pessoas reais.

Essa ideia sempre me veio ao pensar a narrativa machadiana, cheia de vieses e meandros obscuros, onde o autor tem liberdade para dissecar a mais profunda das essências. O Rodrigo Cambará, da super saga “O tempo e O vento” (salve, Erico Veríssimo!) é outro que me fascina até hoje. Também o Coelho Angstrom, de Updike, um personagem tão complexo e completo como nunca havia visto antes na alta quilometragem de páginas que já li.

Hoje, mais um desses fenômenos literários se juntam a essa plêiada de meio-homens-meio-personagens: Eugene Henderson, o tragicômico personagem do escritor canadense Saul Bellow. É ele que povoa as páginas de “Henderson, o rei da chuva”, um livro que mistura drama, algumas pitadas de comédia, suspense e algum teor épico mas que pode ser classificado como um romance de formação, ainda que para um personagem já mais velho. Henderson, um quase sexagenário, milionário americano, herói de guerra, cansado da sua vida de confusões, problemas de saúde, dois casamentos, vários filhos, decide que é hora de dar uma guinada em sua existência, a fim de buscar algum sentido à sua vida. Parte para os rincões da África onde vive algum tempo em duas tribos, os Arnewi, engraçados e simpáticos, e os Wariri, uma tribo estranha, que cultuam deuses bizarros e mantém uma aura de mistério, a começar por seu rei.

É nelas que Henderson buscar por em prática seu plano de fazer o bem ao mundo. Se, na primeira, ele acaba desastrosamente, devido a uma barbeiragem, aumentando o sofrimento de um povo já arruinado, entre os Wariri, Henderson é cooptado pela estranha organização política do local: uma cerimônia o condecora como “Rei da Chuva”, e a partir de então, ele ganha as graças do rei, que inicia um nada comum treinamento (vocês terão de ler o livro! :p).

É nessa parte do livro que de fato vamos adentrando ao drama existencial de Henderson. Se, por um lado, temos um rei que, apesar das conspirações contra seu governo, não se abalar com o estado de perigo que corre, por outro, vemos um Henderson que perde a cabeça por qualquer coisa, um homenzarrão de quase dois metros de altura destilando suas inquietações que não o deixam em paz em nenhum momento. Um evento trágico abala ainda mais as emoções fragilizadas do nosso personagem, vindo a tomar a decisão de que, então, era hora de voltar para casa. No retorno tumultuado ao Ocidente, Henderson percebe que não é mais o mesmo homem que abriu mão de tudo em busca de significados: ele se vê renovado, uma espécie de halo de esperança parece o rodear e é então que aquela voz que o perseguia incessantemente, que o tirava a paz e o sentido de tudo, se cala e ele pode ver o belo no simples…

Fazia tempo que eu queria ler algo do Bellow, um dos autores mais importantes da literatura do século XX, ao lado de Bernard Mallamud, Philip Roth e Norman Mailer. Henderson, o gigante em frangalhos, nascido da cinza e da chuva, não poderia ter sido melhor escolha! Vale!

Leitura 45/2020

O espírito da prosa – uma autobiografia literária [2012]

Cristovão Tezza (Brasil, 1952-)

Record, 2012, 224 p.

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“Volto ao começo. O que me levou a escrever foi um misto de infelicidade e esperança, embora eu não soubesse disso no momento em que produzi a minha primeira frase literária: o nascimento da obra, digamos assim, para definir com alguma pompa o que não tinha nenhum valor autônomo além de um desejo. Comecei, de fato, copiando formas de livros” (pág 31).

Depois de ler “O filho eterno”, publicado em 2007, o relato contundente onde o escritor catarinense (radicado em Curitiba) Cristovão Tezza aborda os desafios da relação de um pai com o filho portador de Síndrome de Down, eu vi que estava defronte de um grande escritor! A sensibilidade do livro, narrando as dificuldades diárias, as redescobertas, a esperança nascedoura onde florescem os mais nobres sentimentos, tudo ali aflige e alegra.

Antes de ler o volume que agora pontuo minhas impressões, eu também já havia lido dele o “Beatriz”, volume de contos publicado em 2011, alguns interessantes, outros nem tanto. O cenário sempre é a cidade de Curitiba, onde floresceram a pena e a verve de Tezza, terreno propício para encontros e desencontros explorados sempre pela protagonista Beatriz.

Então, a minha natural curiosidade pela vida dos escritores. Que costumam legar em volumes de não-ficção toda a sua trajetória que culminou com o ofício de escrever – me levou a ler a sua autobiografia. É um livro cheio das memórias, dos mais erros que acertos, das referências culturais, dos caminhos alternativos, de fato um exercício honesto de redescoberta e reimersão nas trilhas que o levaram ao encontro da literatura. Ali, o autor também desabafa mais de uma vez a frustração das primeiras obras, livros fracos, sem identidade, sem a presença do autor. “Um escritor ausente de sua frase é a derrota do texto”, diz Tezza. Relata a auto-construção do escritor, num ambiente ideológico e culturalmente efervescente, a cuja atenção Tezza despendeu muito de si e que acabaria refletindo no que então escrevia.

O bom de livros como este é fuçar na origem de tudo, do porquê e do como aquele autor acabou se tornando um artífice da palavra. Gosto particularmente de saber o ambiente onde foram criados, quais as lembranças que recheiam os livros que escreveram, quais fantasmas procuram ser purgados com algum tipo de redenção literária. Também vemos que todo bom escritor leu muito e muitas coisas, que, em geral, teve uma existência difícil e desengajada de alguma forma (aqui reitera meu ponto do porquê Hemingway é um escritor medíocre: um cara que curtiu a vida como ele, que fez o que amou, que viveu de forma intensa, que estava tão apegado à vida que no momento em que percebeu a ruína, se deu um tiro fatal, não poderia produzir nada bom em matéria de literatura. “O sentimento de inadequação parece ser o primeiro motor de quem escreve a sério. O que nos leva a um paradoxo interessante, que é em si uma inadequação metafísica: a felicidade não produz literatura”, diz uma vez mais o Tezza.

Depois de uma frase dessas, o que mais dizer? Vale!

Leitura 44/2020 [Lista #1001livros]

A volta ao mundo em 80 dias [1873]

Orig. Le tour du monde en quatre-vingt jours

JúlioVerne (França, 1828-1905)

L&PM, 2011, 256 p.

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“Phileas Fogg ganhara sua aposta: ele perfizera em oitenta dias aquela viagem ao redor do mundo! Para isso, empregara todos os meios de transporte, navios, trens, carruagens, escuna, barco cargueiro, trenó, elefante… O excêntrico cavalheiro demonstrara nesse empreendimento suas incríveis qualidades, seu sangue-frio e seu rigor. Mas… e daí? O que ele ganhara, afinal, com essas locomoções? O que lhe rendera a tal viagem? Nada, alguém dirá? Nada, é verdade, a não ser uma mulher encantadora, uma mulher que – por mais inverossímil que isto possa parecer – fez dele o mais venturoso dos homens! Verdade seja dita: não faríamos, por menos que isso, a Volta ao Mundo?” (pág 218).

Esta novela do escritor francês Jules Verne o levou, definitivamente, à fama. À época de sua publicação, segunda metade do século XIX, vendeu mais de 100 mil exemplares, vindo a ser traduzido para vários idiomas, um feito inédito! Trata-se de uma epopeia repleta de incidentes e eventos canhestros a cujas adversidades, são friamente transpostas por um rico e excêntrico inglês, Phileas Fogg, que aposta toda sua fortuna no clube ao qual é filiado, que consegue dar uma volta pelo globo em exatos 80 dias.

O livro é muito mais uma obra de ficção juvenil, ali para os idos dos 15, 16 anos de idade, perfeito para introduzir os nossos jovens cada vez mais alienados virtuais ao mundo da boa literatura, sendo uma boa porta de entrada mesmo. Como diversão, cabe por ser uma leitura bem dinâmica e fluída, dado algumas passagens onde Flogg e seu fiel escudeiro “Chavemestra” se debatem com seitas hindus violentas, palhaços japoneses e índios americanos, a fim de cumprirem a aposta aceita pelo ilustre cavalheiro britânico. Do que: é mais um (ou menos) da enorme lista 1001 a que me pus a percorrer. Todos (incluo aí o Fogg) temos nossas estranhas obsessões…. Paciência.

Leitura 43/2020 [Lista #1001livros]

O jovem Törless [1906]

Orig. Die Verwirrungen des Zöglings Törless

Robert Musil (Áustria, 1880-1942)

Nova Fronteira, 2019, 145 p.

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“É sempre assim: aquilo que num momento experimentamos como indivisível e inquestionado torna-se incompreensível e confuso, quando queremos amarrá-lo com as cadeias do pensamento, tomando posse dele. E aquilo que parece grande e estranho enquanto nossas palavras, de longe, anseiam por ele torna-se simples e perde o que tem de inquietante tão logo entra no ritmo de nossa vida diária” (pág 60).

O romance conta a história de Törless, um adolescente que é mandado para o internato, onde é submetido a experiências que marcarão a sua vida para sempre. A história é centrada em três rapazes onde são tratadas questões como a transição da adolescência à vida adulta, do experimento de certa atividade homossexual, não incomum em ambientes assim, os jogos de poder, onde parte da personalidade é formada e o papel da crueldade, bullying físico e psicológico e, claro, nos questionamentos existenciais de Törless.

Apesar de ser o primeiro trabalho do escritor austríaco Robert Musil, é inegável a maturidade do livro, frases fortes e marcantes, de uma atualidade incomparável. A leitura também me fez lembrar de outro romance, brasileiro, com matéria-prima análoga: trata-se de “O ateneu”, da lavra de Raul Pompéia, que li faz muitos anos, para um trabalho escolar. Ambos são clássicos que merecem ser lidos por agregarem algo da essência de todos nós, ou mesmo as perguntas pelas quais inevitavelmente passamos. Valem!

Leitura 42/2020 [Lista #1001livros]

Nove noites [2002]

Bernardo Carvalho (BRA, 1960-)

Companhia das Letraa, 2006, 150 p.

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“O certo é que, ao deixar a aldeia pela última vez, ele estava fugindo. E isso eu já lhe disse, mas repito, porque quero que guarde bem. Quando muito, haverá um lugar para uma única causa e uma única imagem na sua cabeça. Terá que aprender a se lembrar dele como um homem fora do seu campo de visão, se é que pretende vê-lo como eu o vi. Também demorei a entender o que ele queria dizer com aquilo, o que havia de mais terrível nas suas palavras: que, ao contrário dos outros, vivia fora de si. Via-se como um estrangeiro e, ao viajar, procurava apenas voltar para dentro de si, de onde não estaria mais condenado a se ver. Sua fuga foi resultado do seu fracasso. De certo modo, ele se matou para sumir do seu campo de visão, para deixar de se ver” (pág. 100).

Até ler este livro, eu nada sabia sobre Buell Quain, um etnólogo americano que se suicidou aos 27 anos no meio da Floresta Amazônica, quando cruzava a mata onde passara semanas isolado no seio da tribo indígena Krahô.

O livro mistura reportagem de fatos com elementos de prosa a fim de preencher as lacunas, vastas e até hoje não explicadas, do porquê Quain se matara. Carvalho constrói em sua narrativa uma espécie de prestação de contas pela história trágica do jovem etnólogo que o levou à busca obsessiva por respostas desde que ouvira falar de Quain e sua saga até a obscuridade. Os capítulos são narrados ora pelo próprio autor, ora por um narrador onisciente, duas vozes que vão misturando as camadas de ficção e realidade, vindo a compor um dos livros mais interessantes que li até então. Também, inevitavelmente, leva o leitor a se voltar para a cultura dos povos indígenas, a cujos matizes somos quase que ignorantes, mas que sempre foram objeto de estudos antropológicos, como o que Quain fez. Bravo, lista!

Leitura 41/2020 [Lista #1001livros]

Mas não se matam cavalos? [1935]

Orig. They Shoot Horses, Don’t They?

Horace McCoy (EUA, 1897-1955)

L&PM, 2007, 130 p.

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“Não existem experiências novas na vida. Alguma coisa pode acontecer que você acha que nunca aconteceu antes, que você acha que é novidade, mas é um engano. Basta você ver, ou sentir um cheiro, ou escutar alguma coisa para você entender que essa experiência, que você pensou que era nova, já aconteceu antes” (págs. 51/52).

A lista não decepciona! “Mas não se matam cavalos?” é prova disso. Um livro bastante curto, que conta o dia a dia de um evento, uma maratona de dança ininterrupta, a cujo prêmio de mil dólares é o objetivo de várias duplas. Uma dessas duplas, Robert e Gloria, são dois artistas de cinema mal fadados que buscam uma nova chance em Hollywood mas que, sem trabalho, se submetem àla fatigantes sessões de dança. Roberto sonha produzir o próprio filme; Gloria, uma atriz decadente, quer ter uma nova chance na carreira. Depois de dias extenuantes dançando, vários casais vão sendo desclassificados mas os dois, apesar do cansaço, perseveram. A poucos dias do fim do concurso, uma tragédia acaba encurtando a maratona de danças. É quando Glória toma a mais difícil decisão da sua vida.

O escritor Horace McCoy legou um romance que reflete o tempo em que viveu, quando ideais e sonhos foram destroçados pela Depressão americana. O lado trágico da história mais a figuração das agruras do entretenimento americano é o pano de fundo de um livro tão pequeno, trágico e bonito.

Leitura 40/2020

A noiva jovem [2015]

Orig. La Sposa giovane

Alessandro Baricco (Itália, 1958-)

Alfaguara, 2017, 160 p.

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“O atraso bíblico do Filho, e a suspensão do tempo que aquele atraso imprimira aos dias deles, tornara-os inaptos a interrogar-se sobre a pálida relação que reúne, em geral, uma partida e uma chegada, uma intenção e um comportamento” (Posição Kindle 2437).

De Alessandro Baricco eu já havia lido os excelentes “Seda”, “Mr. Gwyn” e “Três vezes ao amanhecer”, romances cujo toque onírico com um quê de realismo fantástico, uma constante atmosfera esfumada e um fluxo temporal incerto tornam a experiência do leitor mais aprazível.

“A noiva jovem”, volume relativamente recente da lavra do escritor italiano, foi o que mais achei bonito, poético e de uma cadência estilística singular. Conta a história de uma moça, egressa da Argentina e que, num dia qualquer, bate à porta de uma família italiana a cujo Filho se diz noiva. Enquanto espera seu noiva, que está na Inglaterra, a Noiva é absorvida pelos hábitos nada comuns da família: desjejuns que duram quase o dia inteiro, o mordomo Modesto (único da trama que tem nome) que se comunica com grunhidos e estalos de língua, a atmosfera insone que parece tomar toda a casa. Paira um constante jogo de sedução, onde a Noiva é levada a, pouco a pouco, desvendar os segredos daquela família nada usual.

Mas tudo converge para o retorno do Noivo, tempo paulatinamente alargado à medida que a família perde a esperança de seu retorno. É quando o autor mistura diversas vozes narrativas para explorar essa atmosfera de tragicidade, de solidão e onde nada parece ser o que é, focando na derrocada da Noiva e sua aparente eterna espera pelo amado…

Baricco é um ator singular. Sempre saímos de seus livros com uma especie de sensação de náusea sensorial, de algo que não chegou a ser dito, mas que está lá à disposição de uma interpretação particular. Apesar de pequenos, seus romances tem um que de muito mais contido em poucas páginas, que na verdade são uma avalanche de palavras musicais que embriagam o leitor. Bem assim!

Leitura 39/2020

Tieta do Agreste [1977]

Jorge Amado (Brasil, 1912-2001)

Companhia das Letras, 2009, 646 p.

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“Não fora travessa, não fora moleca nem menina. Não tivera infância, tampouco adolescência; não provara o gosto do primeiro beijo recebido ou dado em ímpeto de ternura. Não tivera namorados, não ouvira palavras sussurradas, cálidas. Aos treze anos já lhe apalpavam inexistentes seios” (Posição Kindle 3137).

Se você nasceu nos anos 80 com certeza deve ter ou ouvido falar ou assistido à novela que deu vida ao livro de mesmo nome. Em linhas gerais, o livro conta a história de Antonieta, uma adolescente que, denunciada pela irmã Perpétua ao seu pai, é surrada e escorraçada de casa por seu genitor. 25 anos depois, a menina agora mulher, rica e poderosa, volta para Santana do Agreste, pequena cidade à margem de Mangue Seco, o idílico paraíso fincado no litoral norte da Bahia, que é literalmente sacudido em rebuliço pela explosiva presença de Tieta. Isso porque podemos imaginar o bucolismo e o ar nostálgico comum a cidades pequenas, esquecidas pelos rincões do interior onde abundam beatas, meninos travessos, bêbados, políticos cínicos e ferrenhos e aquela pitadinha de “interesse-na-vida-alheia”…(risos).

Comum aos demais livros da fase engajada de Jorge, o livro também aborda a preocupação com o meio ambiente com a iminência da chegada à cidade de uma indústria de dióxido de titânio, assunto que divide as opiniões entre aqueles que defendem o progresso e os que não permitem que o seu paraíso seja maculado pela substância tóxica.

Aliás, o livro é marcado por personagens fascinantes, divertidos, bem construídos, com aquele ar de galhofa e cinismo, comuns aos melhores livros de Jorge, e que deixam a trama dinâmica e repleta de cenas, entremeadas pela fala do narrador onisciente que teima em se “intrometer” na narrativa para explicar algum hábito, palavra ou fato!

Mas o ponto alto da obra é mesmo Tieta, seus fantasmas, seus desejos insaciáveis, as tantas perdas, entre elas a da própria infância e que foi o estopim para a vida dupla que procura levar, já que diferente do que contou à sua família e aos moradores locais, e que na verdade era dona de um bordel em São Paulo. Obviamente que em alguma hora esse segredo viria à tona, levando a personagem a viver um novo escândalo na cidade que a baniu e a abraçou. O tema da dualidade é muito comum em todo o livro e em até outras obras de Jorge Amado, como em Tenda dos Milagres, por exemplo, um livro que gostei demais em ler. Aliás, qualquer dos livros de Jorge vale a pena ser lido, pela envergadura do escritor em legar às letras brasileiras obras de fôlego como Tieta.

Leitura 38/2020

Remissão da pena [1988]

Orig. Remise de peine

Patrick Modiano (França, 1945-)

Record, 2015, 128 p.

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“Eu distinguia seus rostos sob a luz forte da lâmpada do alpendre. Alguns ficaram gravados em minha memória para sempre. E me surpreendo que os policiais não tenham me interrogado: entretanto as crianças veem. E ouvem também” (Posição Kindle 459).

O livro trata de forma romanceada, em primeira pessoa, de um curto período na vida de Modiano, quando ele tinha dez anos e, na companhia do irmão mais novo, foi deixado pelos pais sempre ausentes – uma atriz belga em constantes turnês e um comerciante judeu especializado em negócios escusos – aos cuidados de três amigas da família num vilarejo nas cercanias de Paris.

O livro não é curto somente em páginas, isso porque o autor, exacerbando essa economia, constrói uma narrativa onde as vagas são constantes, inconclusivas e que instigam o leitor de alguma forma, a buscar entender essa atmosfera onde pairam vestígios humanos e o efeito dramático final, de abandono e solidão que é o que fica reverberando na cabeça do leitor.

Minha primeira experiência com o escritor francês foi com “PARA VOCÊ NÃO SE PERDER NO BAIRRO”, um dramático périplo de um homem que é trazido da sua solidão para o centro de um pedido inusual. Modiano tem essa característica: de escrever com uma frugalidade tocante, onde permeia a memória que resiste a ser transmutada pelo poder recriador da ficção. Vale!

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