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Lista #1001livros

Título lido: Invisível

Título original: Invisible

Autor: Paul Auster

Tradução: Rubens Figueiredo

Lançamento: 2009

Esta edição: 2010

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 280

Classificação: 4/5

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“Adeus, Margot. Adeus, Cécile. Adeus, Hélene. Quarenta anos depois, eles têm a mesma consistência que os fantasmas. Todos são fantasmas agora, e Adam Walker logo caminhará entre eles” (pág 217).

a experiência de ler paul auster, pelo visto qualquer um dos vários livros seus, tem servido para entender como a literatura tanto pode salvar como aniquilar. aniquilar no sentido de que um livro que se aventure pelos mais profundos veios dos mecanismos humanos é uma viagem intensa, repleta de sacolejos e surpresas que, afinal, deixa estragos.

os volumes que dele li (a trilogia de nova york, sunset park), apesar de vergonhosamente ínfimos, agora acrescido o notável “invisível”, foram suficientes para provar que o sujeito tem grande estofo, habilidade em lidar com a palavra e a emoção, e que sua literatura leva o leitor a se aproximar das grandes – e cruas – verdades da própria significação de ser.

em “invisível” é possível enxergar na vida do personagem principal, o estudante adam walker, as costumeiras experimentações de auster ao tentar destrinchar a essência de ser se utilizando de várias vozes e diferentes recortes temporais. no livro em tela, walker, então aprendiz de poeta, conhece um homem mais velho, inteligente e irrequieta obstinação que lhe lança um improvável convite de ambos criarem uma revista literária. numa noite, presencia um crime cometido por born, seu estranho mecenas e a partir de então se desencadeia toda a ação do livro, que, somadas à voz de walker estão as do seu melhor amigo jim, sua bela irmã gwyn, e de céline, uma paixonite antiga quando em seus dias em paris.

auster se esmera em mostrar um walker que aos poucos desaparece, vai se tornando invisível, quando antes fora tão obstinado em mostrar a verdadeira face de born, acaba sendo eclipsado pelas falas daqueles a quem confiou seus escritos onde pode assentar toda a história da sua ruína e posteriormente, sua não existência. o livro mistura suspense, um provável amor incestuoso, uma sôfrega busca pelo sexo fácil nos braços de margot, uma misteriosa francesa e amiga de born, a dupla filiação de born aos serviços secretos francês e russo, e as “adaptações” que jim e cécile vão dando aos vagos deixados no não publicado livros de walker.

“invisível” merece, de fato, estar na lista “1001 livros para ler antes de morrer”, não por meramente representar um momento na literatura mundial e em especial, na americana. não por sua temática, que eu não diria original, mas pela habilidade de auster em misturar cultura, literatura, o próprio exercício de escrever a temas que giram em torno da própria necessidade de contar a nossa própria verdade. vale!

Lista #1001livros ✅

Título lido: As virgens suicidas

Título original: The Virgin Suicides

Autor: Jeffrey Eugenides

Tradução: Daniel Pellizari

Lançamento: 1993

Esta edição: 2013

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 232

Classificação: 4.5/5

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“Virgin suicide

What was that she cried?

No use in stayin’

On this holocaust ride

She gave me her cherry

She’s my virgin suicide” (Posição no kindle 2183).

lançado originalmente em 1993, “as virgens suicidas” traz uma atmosfera de tragédia grega para um bairro suburbano dos estados unidos dos anos 1970. rock, descobertas, sexo e morte estão em cada linha da história de quatro amigos na faixa dos 40 anos que se reúnem para relembrar uma tragédia dos tempos de escola, onde as cinco filhas do casal lisbon deram fim às próprias vidas no auge da juventude. as irmãs cecília, lux, bonnie, mary e therese, entre os 13 e 17 anos, podem ser definidas como o grande mistério do bairro.

outras histórias com o mesmo mote tratam de casas abandonadas e vizinhos sinistros, criam um clima de terror e suspense gratuitos, mas aqui, ao contrário, temos cinco meninas que criaram um mundo próprio devido a rígida educação que receberam dos pais, ambos católicos fervorosos, gerando uma aura fantástica em torno das protagonistas, símbolos de um culto particular dos garotos vizinhos. a prosa de eugenides, magnífica e bem construída, dosa melancolia e angústia, deixa o leitor numa suspensão contínua, nos coloca diante de quatro garotos que se apaixonam pela ideia que têm das meninas, e não pelo que elas realmente são.

muito do erotismo que eles enxergam é fruto da imaginação. elas se mostram aos pedaços, atiçando a curiosidade, o que é feito igualmente no livro, construído em círculos que ora se vão alargando ora se encolhendo, dependendo da ótica observada, formando aos poucos o quebra-cabeças da vida das meninas lisbon. se em um adulto isso já desperta ideias, imagine em um adolescente. toda essa carga de tensão é transferida para as páginas, que não economizam os detalhes revelados pela reconstituição através da ótica dos garotos e fragmentos colhidos aqui e acolá.

é uma leitura dinâmica e fluída que entrega logo de início seu fim. mas é notável a habilidade de eugenides na construção dos fatos que vão sendo empilhados, dando ao leitor o panorama total da tragédia que se acercou não família lisbon.

com os estados unidos passando por toda a libertação sexual e revolução religiosa dos anos 70, a família das meninas, mesmo com todos os esforços, não poderiam ter tido outro fim, ao que parece quando muito é cobrado, tem resultados inesperados, como vemos tudo pelos olhos e memórias dos meninos, jamais saberemos a motivação real das garotas e é exatamente isso que me faz pensar no final do livro. o que é motivo para um, não é para o outro, o sentido da vida não é o mesmo para todas as pessoas e talvez a melhor resposta seja sempre a empatia ou mesmo o esquecimento perpétuo, esse dosador de perdas e tragédias. é mais um livro que computo como lido da imensa lista de 1001 livros essenciais para ler antes de morrer e esta joia da lavra de eugenides é um senhor livro!

Título lido: Mr. Gwyn

Título original: Mr. Gwyn

Autor: Alessandro Baricco

Tradução: Joana Angélica d’Ávila Melo

Lançamento: 2011

Esta edição: 2014

Editora: Alfaguara

Páginas: 224

Classificação: 3/5

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“nos fixamos na ideia de ser um personagem envolvido numa aventura qualquer, mesmo que muito simples, mas o que deveríamos entender é que somos toda a história, e não só aquele personagem. somos o bosque onde ele caminha, o mau que o sacaneia, a bagunça que existe ao redor, toda a gente que passa, a cor das coisas, os rumores” (posição no kindle 2231/97%).

mr. gwyn, o terceiro livro do escritor italiano alessandro baricco que leio, fala do relevante papel do fazer literário e, principalmente, da importância do redescobrimento das relações humanas, tudo com muita sensibilidade. o livro, composto por 68 capítulos, narra em terceira pessoa a história de jasper gwyn, um escritor inglês mundialmente famoso que não quer mais escrever. o autor abandona a literatura para encontrar algo mais profundo que ela. mr. gwyn principia sua recusa literária a partir de um artigo que escreve para o “Guardian”, no qual é colaborador. em tal publicação, jasper elabora uma lista de 52 coisas que não fará mais na vida, dentre elas não mais escrever, quando se isola no interior da espanha.

de retorno a londres, vive como um anônimo. seu editor e melhor amigo desespera-se, mas afirma que gwyn vai voltar a escrever. na verdade (sem spoilers), o escritor está atrás de outra atividade que ainda não existe. ou seja, sua síndrome de bartebly não é tão severa. ele mais ou menos deixa de publicar. e começa a escrever retratos. a ser um copista de pessoas.

com esse intuito, constrói um ambiente propício onde poderá testar uma nova forma de escrita, ainda que não saiba exatamente como fazê-lo nem o que daí surgirá. convence várias pessoas a “posarem” numa sala ampla, iluminada por 18 lâmpadas especiais e um loop musical criado para a experiência, e é nesse período que o experimento se dá. ao final (que se dá com a “morte” das lâmpadas), gwin acredita ter conseguido captar algo de cada pessoa que ali esteve. ele crê ter encontrado o retrato…

o texto de baricco é poético e intrigante. mesmo que não haja um tremendo mistério a ser revelado, a história faz com que pulemos de um capítulo para outro para saber mais. afinal, é necessário saber onde gwyn quer chegar. a prosa é construída nesse ritmo frenético e dinâmico, muitas vezes dizendo muito menos que esperaria o leitor, tirando toda expectativa de obviedade. ao final, se descobre que até mesmo a resposta para tudo isso não está lá na página escrita, mas em si mesmo, no próprio leitor.

busquei ler o mr. gwyn porque é nele que é citado o “três vezes ao amanhecer”, que li esta semana. mas, para minha surpresa, uma obra pode sobreviver sem a outra, porque baricco, ah, esse baricco, causa verdadeiro assombro na forma como escreve. vale!

Título lido: Três vezes ao amanhecer

Título original: Tre volte all’alba

Autor: Alessandro Baricco

Tradução: Joana Angélica d’Ávila Melo

Lançamento: 2012

Esta edição: 2015

Editora: Alfaguara

Páginas: 112

Classificação: 3/5

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“temos sempre esta ideia de ter caído na partida errada, e de que com nossas cartas sabe lá o que conseguiríamos fazer se nos sentássemos a outra mesa de jogo” (posição no kindle 258/21%).

a infinidade de possibilidades que este pequeno livro dá de certa forma se confunde com as possibilidades caóticas com que leio.

explico.

já venho lendo dous bons livros, que pretendo concluir antes que a faina escolar recomece, mas, gosto particularmente de, ao me deitar, abrir no kindle um livro ao acaso para ver no que vai dar. quase sempre essa matemática inexata me leva a descobrir um ótimo romance ou alguma coisa que me chame a atenção suficiente para por de lado as leituras atuais e prosseguir naquele achado.

foi o caso desse pequeno volume do escritor italiano alessandro baricco, de quem já havia lido o excelente “seda”, uma das capas mais lindas da minha modesta biblioteca e já mini-resenhado aqui. em “três vezes ao amanhecer”, dividido em três partes, dois personagens se encontram antes do amanhecer e esse encontro acaba por proporcionar uma reflexão sobre suas vidas, sobre a possibilidade de recomeçar. a primeira história narra o encontro de um homem de 42 anos e uma mulher embriagada no saguão de um hotel; a segunda é o encontro de uma jovem de dezesseis anos e o porteiro idoso de um hotel que tenta convencê-la a fazer escolhas melhores e deixar o namorado violento e fugir; a terceira e última história também começa em um quarto de hotel onde uma policial de meia-idade prestes a se aposentar decide levar um garoto de treze anos, único sobrevivente de um incêndio, para o lugar que considera o mais bonito do mundo: ao lado do homem que ama e que não vê há anos.

com essas três histórias breves, baricco nos mostra que o tempo inteiro explora e se diverte com as possibilidades da literatura, assim como as escolhas fugazes que faço em busca do “livro do momento”. ao explorar a temática da mudança e da possibilidade de recomeços à luz do alvorecer, essas três histórias se entrelaçam com maestria numa metáfora bonita sobre as possibilidades e os recomeços de nossas próprias vidas. e que nos próprios recomeços, coisa que nem todo mundo consegue sem medo, se achará o próximo passo para a próxima etapa. como leitor, já tenho o próximo destino literário: o romance do baricco anterior a este, “mr. gwyn”, onde “três vezes ao amanhecer” é citado. lindo, não?

Título lido: Cartas a um jovem poeta

Título original: Briefe an einen jungen Dichter

Autor: Rainer Maria Rilke

Tradução: Pedro Süssekind

Lançamento: 1929

Esta edição: 2011

Editora: L&Pm

Páginas: 96

Classificação: 5/5

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“O que é necessário é apenas o seguinte: solidão, uma grande solidão interior. Entrar em si mesmo e não encontrar ninguém durante horas, é preciso conseguir isso. Ser solitário como se era quando criança, quando os adultos passavam para lá e para cá, envolvidos com coisas que pareciam importantes e grandiosas, porque esses adultos davam a impressão de estarem tão ocupados e porque a criança não entendia nada de seus afazeres” (Posição no Kindle 404/55%).

Esta pequena pérola da literatura alemã é uma junção de dez cartas onde Rilke, o grande poeta, responde a Franz Xaver Kappus, um aspirante a poeta, entre fevereiro de 1904 e dezembro de 1908, então com problemas de composição de seus versos, os quais não considerava satisfatórios. Mas, muito mais que meros conselhos partidos de um escritor mais experiente, esta coletânea pode muito bem ser lida como preciosos aforismos donde qualquer leitor poderá extrair valiosas lições de vida.

Rilke se utiliza de metáforas sobre a vida e a morte, a tristeza, o imprevisível, o medo, o amor e a solidão, e como afrontá-los. São conselhos, a meu ver, para serem saboreados com tempo e com calma, na sofreguidão do silêncio, na calmaria desse mar bravio chamado vida, pela grandiosa profundidade de sua sabedoria e por mostrar os aspectos que de fato merecem a atenção: não escrever poemas de amor, não falar sobre temas do dia a dia, não ler críticas literárias (essa eu também concordo e pratico), não pensar demais apesar de não desprezar recordações e experiências pessoais.

Por isso mesmo, Rilke nos lega um verdadeiro manual da beleza da vida, os conselhos dados ao jovem poeta Kappus, escritos com uma singeleza tocante, bem podem servir para instrumentalizar a arte de viver, para que não penemos com a brutalidade da existência e possamos experimentar adentrar nossa constituição sentimental onde sempre há algo a ser contemplado com os olhos pueris. Uma pena que o livro seja tão breve, detalhe que pode na verdade ensejar várias releituras. Vale!

Título lido: Na pior em Paris e Londres

Título original: Down and out in Paris and London

Autor: George Orwell

Tradução: Pedro Maia Soares

Lançamento: 1933

Esta edição: 2012

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 256

Classificação: 3.5/5

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“A massa dos ricos e a dos pobres diferenciam-se por suas rendas e nada mais, e o milionário típico é apenas o lavador de pratos típico com roupa nova” (Pág no Kobo 116/53%).

Antes de se tornar o grande escritor que foi e continua sendo, Orwell, que ainda usava seu nome verdadeiro, ou seja, Eric Arthur Blair, havia largado um nada mal emprego numa das inúmeras colônias britânicas para se embrenhar nos recantos mais precários de duas das mais relevantes cidades da Europa, Londres e Paris. Orwell, ou Blair, movido por ideais socialistas, foi levado a buscar uma experiência in loco, verdadeira, da pobreza parisiense e londrina.

Viveria, então, aquilo que acabaria se tornando o relato desse livro perturbador e profundo, em seus dias de vida como mendigo, dormindo em albergues, passando fome por dias seguidos, tendo de empenhar roupas e objetos pessoais para obter o já precário sustento do dia-a-dia.

Mudando-se para Paris, as coisas não ficaram boas. O dinheiro acabou, vindo a passar vários dias com fome até conseguir um emprego como “plongeur”, lavador de pratos de um hotel. A rotina dura de mais de 18 horas de trabalho, a precariedade das instalações, o baixo salário, o frio intenso nada mitigado pelos farrapos que usava, nada passa despercebido pelo escritor, que narra com crueza as condições quase análogas a trabalho escravo. Ficamos assombrados como são tratados esses trabalhadores. Ou como uma visão distorcida dos mendigos, na verdade pessoais iguais aos demais, são o destino da ojeriza, medo e desprezo de quem tem dinheiro e condições melhores.

Gostei muito desse livro. Entre um relato e outro, Orwell, o grande escritor de 1984 e A revolução dos bichos, usa da sua pena jornalística para dissecar o absurdo da desigualdade entre as pessoas, os obstáculos enfrentados por quem vive vagando pelas ruas mas também as amizades construídas num ambiente tão degradante que o marcaram. Como que, o escritor nos leva a pensar a máxima bíblica de que o “dinheiro deveras é a raiz de todos os males”, o que tornam seus detentores e, consequentemente, opressores, seres muito mais piores e abjetos que um mendigo por vários dias sem banho. Por isso mesmo, vale!

Ao amigo Alberto

É. Era ele.

O menino que um dia foi mais do que minha adulta vida sem graça.

Que mais se aprofundou na garganta das verdades que a vida me negou ou dela me neguei.

E que da arte que lhe ensinei, dela se serviu para ser alguém.

Era ele.

Que voltava e uma vez mais me dizia coisas profundas, em seu silêncio vago.

Que trazia consigo um chamariz para o passado, e devolvia um rosto que eu nem mais pude ver.

Era ele mesmo. Não havia como não ser.

Com seu violão a tira-colo, com mil histórias na bagagem,

Trazia consigo uma nova palavra, mas com diferentes sons,

Um novo verso, agora mais belo, e os retratos de amores de outrora.

Alberto. Era ele.

Meu amigo mais antigo, que estava de volta.

Desfiava a barba cerrada naquele rosto que vi menino,

Os dedos trêmulos de bebida e violão,

os olhos mansos que viam mais e mais longe.

A sua fala rouca, a sua roupa tosca, o seu tênis canhestro: ele não veio só.

Estavam de volta Alberto e uma parte daqueles anos

Onde tudo era incerto, e por isso mesmo, mais belo.

charlles campos

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