A MANHÃ MAIS FRIA e orvalhada da chuva noturna combinava exatamente com o que sentia: paz. Ao despertar não fez como de costume, levantando num assomo, como se estivesse permanentemente atrasado. Ao invés, ficou deitado um bom tempo ainda, admirando o corpo dela, sob um lençol suavemente embalado por sua respiração tranquila e segura.
Uma onda de carinho tomou seu olhar, fê-lo estender a mão e tocá-la, num gesto e intenção que não se lembrava de ter feito há muito tempo. Seu desejo era poder ficar ali, deitado ao lado daquela mulher que tanto amava e que tão pouco sabia dizê-lo. Quanto a decepcionara? Ao pensar nisso uma sombra passou por seu olhos, relembrando as conversas monológicas dos últimos dias; palavras que feriam mais que tapas e socos…
Quem podia imaginar que quase desistiu, que queria mandar tudo às favas e sumir como um louco vagando sem rumo certo? Mas não é assim o amor? Misto de tragédia e redenção?
Vendo-a dormir tranquila daquele jeito nem parecia a mulher amarga de dias atrás. Que utilizava dos seus hábitos sociopatas para feri-lo, diminuir-lhe o prazer pelo silêncio e ócio que cultivava religiosamente nos dias que se seguiam. Mas agora era diferente. Apurou a audição e escutou o leve ressonar de sua respiração; aquela não era a melhor sinfonia que se podia ouvir, a música de uma mulher feliz?
Consultou o relógio. Logo teria de sair para trabalhar. Pé ante pé, foi para o banheiro, onde tomou um banho rápido e fez a barba, aproveitando o vapor da água quente e revigorante. Vestido, aproximou-se da cama, fitando-a por alguns instantes. Deu-lhe um beijo no seu rosto, sussurrando “eu te amo”. Quase pode perceber uma ponta de sorriso do lábio adormecido dela.
“Tudo agora vai ser diferente”, ele pensa sentindo o coração palpitar ante a redescoberta do amor da sua vida.
Saiu, despedindo-se mentalmente dela.
E nunca mais voltou para casa.
* * *
Duas horas depois, o noticiário mostrava um homem caído no chão de um posto de gasolina, depois de levar dois tiros no peito desferidos por dois homens numa moto, quando tentaram assaltá-lo no momento em que abastecia o carro. Um dos circunstantes o ouviu balbuciar as seguintes palavras, antes que desse o último suspiro: “Me perdoe, Amor, eu…eu sinto muito”.

Que profundo!
E como diria seu Omar ” trágico, trágico…”
História trágica = vida real. Muito bom!